Documentário dirigido por Zelito Viana, “Mestre Zu” conta momentos da história de Zuenir Ventura, há décadas referência do jornalismo brasileiro
O jornalismo brasileiro perdeu recentemente uma de suas maiores bússolas morais e intelectuais com o falecimento de Zuenir Ventura (1931-2026) em 22 de setembro, aos 95 anos.
Para honrar esse legado monumental de irreverência, inteligência e referência até hoje no jornalismo nacional, o experiente diretor Zelito Viana assina o documentário “Mestre Zu” uma obra de curta duração — apenas 70 minutos — que desembarca no circuito audiovisual com a missão de resgatar as múltiplas facetas de uma vida dedicada à apuração rigorosa, mas de um jeito bem brasileiro. Contando com o envolvimento direto da família nos bastidores, como os filhos Elisa e Mauro, o longa funciona primariamente como um registro afetuoso e necessário, embora esbarre nas limitações estruturais típicas de produções com escopo reduzido além de chapa branca e um pouco condescendente.
A narrativa conduz o espectador por uma viagem temporal que se inicia na infância de Zuenir Ventura na década de 1930 em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, onde nasceu.
O roteiro pontua pilares fundamentais de sua formação, desde a influência da mãe, Dona Herina que lavava as batinas dos padres da cidade e tinha o sonho de que Zuenir se tornasse um deles, passa pelos bicos como pintor ao lado do pai, antes de sua ascensão meteórica às principais redações do país e às salas de aula como professor claro, de jornalismo.
O documentário transita por episódios fascinantes e muitas vezes desconhecidos do grande público, a exemplo de sua atuação como intérprete do vice-presidente João Goulart em Paris, a traumática prisão durante os anos sombrios da ditadura militar, onde acabou estreitando laços com o psicanalista Hélio Pellegrino e o destemor ao lidar com polêmicas públicas, como a publicação de uma carta espinhosa enviada pelo cineasta Glauber Rocha.
No entanto, o coração do longa pulsa mais forte e cativa a audiência quando revisita as coberturas jornalísticas que redefiniram literalmente os rumos da imprensa nacional com Zelito Viana destacando a corajosa incursão do repórter ao Acre para investigar o assassinato do líder ambientalista Chico Mendes, notícia de alcance mundial e infelizmente uma tragédia anunciada dessa apuração que gerou o impactante livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”.
Há também espaço para relembrar as reportagens das Caravanas da Cidadania capitaneada pelo futuro Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1993 (a primeira edição que ocorreu entre 23 de abril e 12 de maio daquele ano), onde jornalista cobriu a viagem de 24 dias pelo Nordeste para o Jornal do Brasil (JB) e, posteriormente, transformou essa vivência em relatos e no livro “Uma Viagem ao Coração do Brasil”.
E ainda fez parte da cobertura dolorosa, mas essencial, da chacina de Vigário Geral no Rio de Janeiro, em outra reportagem tipicamente brasileira que repercutiu no Brasil e no mundo.
O filme que faz questão de apresentar de forma natural ao mesmo tempo pomposa a carreira de Zuenir como escritor, também faz questão de consolidá-lo como um cronista cirúrgico do caos urbano e político, imortalizando fraturas sociais e históricas em obras-primas da literatura de não-ficção como “1968: o ano que não terminou””, “1968: o que fizemos de nós” (sobre o período terrível da Ditadura e “Cidade partida” (sobre o caos urbano e social do Rio de Janeiro).
Apesar do peso histórico do homenageado — que ostentava com mérito o título de imortal da Academia Brasileira de Letras —, o grande calcanhar de Aquiles de “Mestre Zu” reside em sua linguagem formal. Estruturalmente, o filme apoia-se de maneira quase exclusiva no formato tradicional de “cabeças falantes”, reunindo depoimentos de familiares, amigos e grandes nomes da imprensa em meio a conversas informais em sofás de apartamentos e imagens de arquivo.
Embora o ritmo busque dinamismo, os 70 minutos de projeção revelam-se manifestamente escassos para abarcar uma trajetória tão vasta e que faz parte do imaginário de jornalistas, artistas e personalidades da época e até de hoje.
O resultado é uma obra que apenas arranha a superfície de eventos complexos, parecendo burocrática em alguns momentos e deixando o espectador com um incômodo e persistente gostinho de “quero mais”, exigindo uma inevitável pesquisa complementar posterior, mas que até pode ser relevada pela dificuldade de se fazer cinema/documentário em um país que insiste em não se agarrar às suas memórias.
Ainda assim, o documentário cumpre um papel pedagógico inestimável.
Em uma era dominada pela velocidade algorítmica, pela superficialidade das redes sociais, seus clicks rápidos e pelo jornalismo instantâneo, relembrar o método do grande jornalista e também escritor Zuenir Ventura baseado na escuta atenta, no diálogo horizontal e na verificação in loco “com os pés no chão”, soa como um manifesto de resistência.
E Zelito Viana entrega um filme que, malgrado suas amarras narrativas e sua edição econômica, consagra-se como um tributo sincero e oportuno a um profissional que transformou o ofício de informar em uma verdadeira arte humanista. Uma recomendação obrigatória não apenas para quem viveu a época de ouro das redações, mas para as novas gerações que buscam entender o verdadeiro peso de uma notícia bem apurada.
No começo do documentário um dos entrevistados diz que Zuanir sempre quis que fizessem um filme da sua vida, Mestre Zu chegou perto, muito perto.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por inteligência artificial


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