Quatro histórias comoventes sobre crianças e jovens lutando para conquistar seus sonhos. Essa poderia ser uma breve sinopse do documentário de Pascal Plisson, o premiado diretor de “A Caminho da Escola”, mas não faria jus ao longa. Mais do que uma história sobre conquistas, Plisson consegue nos levar aos quatro cantos do mundo para nos mostrar o que os protagonistas enfrentam, diariamente, para alcançarem seus desejos.

“O Grande Dia” conta a história de Albert, Nidhi, Tom e Deegii e é filmado em seus países de origem, Cuba, Índia, Uganda e Mongólia, respectivamente. Cada um deles enfrenta suas próprias barreiras – físicas, intelectuais e sócio-econômicas – para realizarem seus sonhos. Albert, de 11 anos, retoma sua rotina incessante de treinos de boxe, logo que consegue recuperar suas notas na escola. Seu técnico o inscreve em uma luta que poderá levá-lo à Academia Nacional de Havana e deixá-lo mais próximo de ser um atleta olímpico. Nidhi, de 15 anos, é filha de um motorista de Tuk-Tuk em Benares, na Índia. Seu sonho é ser engenheira e a jovem passa praticamente todo o seu tempo estudando para o concurso do Super 30, que seleciona apenas 30 jovens para ingressar num curso politécnico, deixando-a mais perto de ingressar em uma universidade. Tom, de 19 anos, é um simpático jovem da Uganda, que estuda para se tornar um guarda florestal. O rapaz, fora de sua casa há meses para se formar no curso, estuda bastante para conseguir a aprovação num teste oral, e em inglês. Deegii, de 11 anos, treina incansavelmente para conseguir ingressar em uma academia de contorcionismo. Mesmo tão pequena, Deegii é obrigada a superar seu limite físico para atingir seu principal objetivo.

A narrativa do filme nos leva para um único possível final: o grande dia, tal como o título. Cada um dos protagonistas chega até o importante momento que definirá o futuro deles. Não é surpreendente, nem arranca grandes suspiros. O filme frequentemente escorrega pela margem do verdadeiro para o piegas. Mas, ainda assim, consegue cumprir seu papel: ensina a lição de que é possível sonhar, e é possível conquistar esse sonho.

O que costura o enredo desde o início é a pressão que os jovens sofrem de suas famílias e, não menos importante, de si próprios. O pai de Albert também era boxeador, mas sua carreira terminou cedo. Agora, como mecânico, ele sonha em ver o filho realizar o que ele não conseguiu. Sua mãe e seu técnico reforçam o discurso de que Albert não pode decepcioná-los. Nidhi é a primeira da família a sair de casa e ter qualquer educação formal. E ao conseguir ingressar no Super 30 (e posteriormente no curso politécnico), é relembrada pelo professor de que sua família se esforçou demais para que ela pudesse estar ali. Tom parece o mais apaixonado pelo seu provável futuro, mas se mostra inseguro o tempo todo, pensando no quanto seus pais batalharam para pagar o curso. Deegii precisa treinar todos os dias, acordando cedo, sem deixar de lado suas tarefas da escola. Seus pais demonstram total apoio à futura carreira da filha (uma escolha comum no país), mas claramente ultrapassam o limite quando afirmam, incessantemente, que ela será aprovada no tão esperado teste. A pequena não passa de primeira, mas acaba incentivada a treinar ainda mais e então consegue ingressar numa companhia de circo importante em Singapura.

Com uma suavidade quase imperceptível, Plisson consegue estabelecer uma crítica aos pais que projetam seus sonhos não realizados em seus filhos, ainda que constantemente isso pareça apoio incondicional. Por outro lado, o diretor francês arranca sorrisos e comove os espectadores mostrando o esforço desses jovens sendo compensados, apesar de tantas dificuldades. É um filme que muda seu ponto de vista a respeito de oportunidades e determinação, da forma menos ocidental possível.


Por Patricia Janiques

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