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Crítica: O Mecanismo (1ª Temporada)

A realidade da corrupção brasileira agora conhecida pelo mundo

Na última sexta-feira(23) estreou na Netflix a série original brasileira O Mecanismo. Uma criação de José Padilha e com um grande elenco, a trama conta como foram as investigações da operação Lava Jato, que desencadeou em prisões de doleiros, empresários e políticos. Mas ao contrário do longa Polícia Federal – A Lei É para Todos, que teve muitas críticas negativas, O Mecanismo surpreende e mostra fatos reais com dramatização e maior cunho policial.

Marco Rufo (Selton Melo) é delegado da Polícia Federal há 20 anos no setor de crimes financeiros, mas está insatisfeito pela pouca valorização de suas investigações e do seu trabalho, como o próprio narra no primeiro episódio: “Vinte anos de Polícia Federal e o que consegui foi comprar um carro usado para minha esposa e um sítio no interior para garantir o futuro da minha filha”. Ele tem um certa obsessão em descobrir as falcatruas do doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz), e depois de refazer notas que pegou no lixo, finalmente o delegado consegue descobrir um esquema de lavagem de dinheiro. Mas o doleiro não fica preso por muito tempo, faz um acordo de delação com o Ministério Público, é solto e não entrega ninguém. Rufo surta com isso, é expulso da PF, taxado de louco e diagnosticado com bipolaridade e passa a sustentar sua família com uma mísera aposentadoria. Dez anos se passam e por causa de pequenos deslizes dos doleiros, começam as investigações da Lava Jato e Rufo dá um jeito de estar participando disso novamente.

A série é uma releitura do maior esquema de corrupção descoberto pela Polícia Federal até o momento, inspirada no livro “Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil” do jornalista Vladmir Neto. Cada personagem da trama existe na vida real, a diferença é que os nomes foram alterados, o que talvez fosse desnecessário, todo mundo que acompanha o caso já sabe quem representa quem na série. Inclusive é nítido que o elenco utiliza trejeitos inspirados nas personalidades reais para compor os personagens da série. Mas por precaução, a Netflix solicitou que os nomes fossem trocados para que não houvesse ações judiciais. Até mesmo o nome da Petrobras foi alterado para Petrobrasil, e os nomes do ex-presidentes Lula e Dilma também, mesmo que os atores tenham sido fiéis ao jeito de falar de cada um deles.

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Ao contrário do que muita gente imagina ou espera, a produção não é de ação, é um drama policial. O diferencial da série é focar num cenário diferente do livro, do filme e das reportagens feitas desde as primeiras prisões: a investigação feita pela Polícia Federal. Vemos o tempo todo os olhares voltados para o juiz Sergio Moro, que na série se chama Paulo Rigo (Otto Jr.), e para os procuradores do Ministério Público. Mas na série isso é alterado, tanto que o protagonismo é divido entre Selton Melo e Caroline Abras, que dá vida a delegada Verena, aprendiz de Rufo e que fica no seu lugar depois que ele surta. Essa fórmula dá certo, pois a investigação é infinita e a cada episódio uma reviravolta faz com que a produção não se mantenha linear e sim com picos de emoção. Até porque, além do foco diferenciado a série é dividida entre vilões e mocinhos, e assim como na vida real, o público escolhe para quem vai torcer e comemora cada êxito das pessoas do bem que lutam por justiça.

Se alguém nos perguntasse qual é o melhor da série, não responderiamos roteiro, direção, fotografia, etc. E sim elenco. Como sempre a atuação de Selton Melo é impecável. Rufo é um homem aparentemente tranquilo, que surta ao ver injustiça, luta até o fim contra a corrupção, e não esconde sua insatisfação com o emprego e todo o sistema existente no país. Um personagem complicado, mas interpretado com facilidade por Mello. Apesar disso, é Enrique Díaz que merece destaque. O ator vive o doleiro Roberto Ibrahim, inspirado em Alberto Youseff, e vemos nele o grande vilão da temporada. Não tem como evitar a raiva do personagem, e isso só acontece porque o trabalho do ator foi muito bom. As cenas dele com Mello são um show de interpretação, o encontro de vilão e mocinho. Além disso, Díaz é fiel a personalidade que inspirou seu personagem, uma mistura de tranquilo e cínico, nada o abala, nada dá medo, simples assim. Além deles temos Otto Jr vivendo um personagem inspirado no juíz Sérgio Moro, homem de poucas palavras como o real, temos Leonardo Medeiros como o diretor da Petrobrasil, e claro, Caroline Abras como a delegada e chefe da investigação Verena, uma mulher de personalidade forte que não desiste fácil de prender os verdadeiros criminosos do país.

O resultado final é bom, mas para as pessoas que estão sempre assistindo produções brasileiras e também de José Padilha, o formato não é novidade. Em alguns momentos parece que estamos assistindo a uma continuação de Tropa de Elite, que termina com o Cap. Nascimento falando que o sistema é muito maior que imaginamos e ao fundo aparece a imagem de Brasília. Em O Mecanismo o recurso de narração também é recorrente e se mudássemos a voz de Selton Mello pela do Wagner Moura, teríamos o mesmo efeito. Mesmo que Padilha esteja na produção como diretor e produtor, o roteiro não é assinado por ele, e sim por Elena Soarez, responsável também por A Busca, Cidade dos Homens, Redentor e muitos outros. Ela conseguiu uma boa série, pena que alguns recursos não são novidades e nada surpreendem, pelo ao contrário, cansam. A fotografia é perfeita, até porque a série tramita por diferentes locais do país, principalmente Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Outro detalhe importante que casou muito bem foi a trilha sonora, com músicas de Titãs, Nelson Cavaquinho, Fábio Jr, Racionais, entre outros, mas as músicas são em sua maioria nacionais, o que torna a produção ainda melhor.

O Mecanismo já está dando o que falar por causa do tema abordado e como isso é feito. Não existe o cuidado de fingir que é só inspirado em fatos reais, eles deixam claro que cada detalhe realmente aconteceu. É uma série que traz um tema atual ao mesmo tempo que também é uma aula de história e política. Uma boa produção, linear, real e importante para a população.

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Ela é a linha tênue entre a tranquilidade e a persistência. Um encontro divertido entre a calma e a dedicação. Uma jornalista que ama e se encanta com o que faz, aprende sorrindo e aceita que o erro é possível e faz parte da natureza humana. Entre um minuto e outro escreve, lê, escuta, canta, produz, analisa, aprecia... Essa é a Tamiris Aimée, essa é a Tami Aimée!

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