O mundo caiu nas mãos dos Supers… mas a série não soube o que fazer com isso
O desfecho da quarta temporada de “The Boys” consolidou uma vitória decisiva dos Supers. A Casa Branca passou a funcionar como um governo fantoche completamente submisso aos interesses do Capitão Pátria, enquanto apoiadores da Luz-Estrela passaram a ser tratados como terroristas e enviados para campos de concentração. O cenário parecia perfeito para construir um último arco grandioso rumo à quinta temporada.
Ao mesmo tempo, “Gen V” encerrava sua trama preparando o terreno para a resistência final. Luz-Estrela recruta Supers fugitivos da Universidade Godolkin para enfrentar o regime do Capitão Pátria, mas a participação desses personagens acaba sendo mínima, limitada a poucos minutos antes de serem simplesmente enviados ao Canadá.
O problema não está apenas no destino dos personagens, mas na sensação constante de que a série prepara grandes acontecimentos sem realmente desenvolvê-los. A narrativa cria tempestades gigantescas apenas para dissolvê-las em fumaça de neon e piadas de quinta série.
Atenção: o texto abaixo contém spoilers da quarta temporada de “The Boys” e de “Gen V”.
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Quando a expectativa atropela a execução

A quinta temporada carregava a expectativa de ser o ápice da série. Depois de anos escalando tensão política, social e ideológica, esperava-se um encerramento à altura do caos construído desde a primeira temporada.
Entretanto, Eric Kripke optou por caminhos controversos. O excesso de piadas sexuais, a tentativa constante de chocar o público e a promoção insistente de Vought Rising acabaram sufocando o desenvolvimento da trama principal.
Diversos elementos importantes foram introduzidos apenas para serem descartados rapidamente:
- O Vírus Godolkin
- O retorno de Soldier Boy
- A relação do Soldier Boy com a Tempesta
- O V1
Todos pareciam peças fundamentais para o clímax da série, mas acabam resolvidos de maneira apressada, como se fossem notas de rodapé jogadas no roteiro.
A sensação é de assistir a uma máquina de hype funcionando sem freios: muita preparação, pouco impacto real.
Quando os personagens deixam de parecer pessoas

Outro ponto que prejudica a temporada é a descaracterização de figuras centrais.
O novo Black Noir, por exemplo, é tratado de maneira quase descartável. Já Mana Sábia, apresentada como “a pessoa mais inteligente do mundo”, acabou virando alvo de piadas nas redes sociais por sua incompetência constante ao longo da temporada. Seu plano de se isolar em um bunker apenas para ler livros, após descobrir a cura do câncer da avó e ser ignorada, soa mais como uma sketch cômica do que como um conflito dramático realmente relevante para a trama.
Enquanto isso, a série passou sete episódios parodiando Donald Trump de maneira tão direta que a ficção começou a parecer apenas uma repetição exagerada da realidade. O problema não é a sátira política em si, algo que sempre esteve presente em The Boys, mas o fato de ela consumir quase toda a narrativa, afastando a história de um verdadeiro desfecho.
Toda a campanha de marketing vendia a ideia do Capitão Pátria destruindo o mundo. Porém, o personagem foi gradualmente transformado em um homem infantilizado, emocionalmente dependente de validação paterna.
A busca desesperada por aprovação no relacionamento com Soldier Boy enfraquece a ameaça que ele representava anteriormente. O agravante é que a aproximação entre os dois surge baseada em uma conexão envolvendo Tempesta, relação que sequer havia sido mencionada antes da confirmação de “Vought Rising”.
O resultado é um vilão que antes parecia um desastre nuclear ambulante e agora age como uma criança emocionalmente descontrolada usando capa.
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Humor excessivo e a incapacidade de levar o próprio drama a sério

Um dos maiores problemas da temporada é a incapacidade da série de permanecer séria por mais de alguns minutos.
Mesmo durante momentos trágicos, como o enterro do Francês, o roteiro interrompe constantemente a emoção para inserir piadas sexuais. Em poucos minutos de episódio já existem comentários envolvendo ânus, fetiches ou humor escatológico.
A repetição desse recurso desgasta completamente o impacto emocional das cenas.
E isso é especialmente frustrante porque The Boys ainda demonstra potencial simbólico em certos momentos. Um exemplo é o arco da Espoleta, que questiona a transformação do Capitão Pátria em uma figura messiânica para os Estados Unidos. Sua morte após “negar” Jesus três vezes cria um paralelo religioso interessante, talvez um dos poucos momentos em que a série tenta explorar algo além do choque visual.
Mas essas ideias acabam soterradas sob uma avalanche de humor adolescente.
A obsessão da série por chocar o público

A temporada parece incapaz de existir sem uma cena grotesca ou sexual a cada episódio.
O primeiro capítulo já estabelece esse tom exagerado, misturando propaganda de Vought Rising, sátiras políticas excessivamente explícitas e cenas sexuais fora de contexto.
A consequência é uma ruptura evidente quando comparada às primeiras temporadas. Ao rever o início da série, fica clara a diferença de construção narrativa e de coerência dos personagens.
O Bruto talvez seja o exemplo mais evidente disso.
Ao fim da quarta temporada, ele aceita se tornar um monstro e assassina Victoria Neuman friamente. Porém, pouco depois, o personagem oscila entre querer salvar o mundo e desejar o genocídio de todos os Supers sem uma construção convincente que justifique essa mudança extrema.
O caso do Profundo: quando a provocação perde o efeito

Profundo é outro personagem que parece ter permanecido tempo demais na série.
Sua morte acontece de maneira rápida e pouco impactante, gerando mais estranhamento do que emoção. A cena parece resumir bem o desgaste criativo da produção: mais uma tentativa desesperada de chocar o público usando violência grotesca envolvendo conteúdo anal.
O momento em que o personagem mata um produtor de teatro com uma enguia entrando pelo corpo da vítima não provoca mais horror ou surpresa. Apenas cansaço.
Quando tudo tenta ser extremo o tempo inteiro, nada mais parece realmente extremo.
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Desde a primeira temporada, o Capitão Pátria é tratado como uma ameaça imparável. A quinta temporada reforça isso ao apresentar sua busca pelo V1, substância que teoricamente o tornaria imortal e ainda mais poderoso.
No entanto, o resultado é decepcionante.
Mesmo após toda a construção envolvendo o V1, o personagem aparenta estar mais fraco. Em uma luta que remete diretamente ao confronto contra Soldier Boy, Bruto e Hughie nas temporadas anteriores, o Capitão Pátria acaba derrotado com relativa facilidade por Ryan e Bruto.
Ou seja: toda a busca pelo V1 é resolvida em poucos minutos sem consequências significativas.
O pior vem depois. Quando perde seus poderes, o personagem abandona completamente a imagem ameaçadora construída ao longo da série e se transforma em alguém desesperado implorando para sobreviver.
A cena pretendia ser dramática, mas acaba funcionando quase como comédia involuntária.
Bruto: da vingança ao genocídio sem construção
O contraste entre a série e as HQs

Para entender o problema do Bruto, vale lembrar sua contraparte nas HQs de The Boys.
Nos quadrinhos, seu cachorro Terror é praticamente um integrante oficial dos The Boys. A virada definitiva do personagem rumo ao sadismo acontece quando Jack de Jupiter mata o animal dentro do quartel da equipe.
Na série, porém, Terror morre naturalmente após a vitória contra o Capitão Pátria. Ainda assim, esse evento aparentemente serve como gatilho para Bruto decidir espalhar o vírus na Torre Vought e exterminar todos os Supers.
A mudança soa artificial.
Principalmente porque a própria trama já havia apresentado alternativas menos extremas, como a capacidade da Kimiko de remover poderes de Supers. Isso torna toda a motivação genocida do personagem ainda mais difícil de aceitar.
No fim, a morte de Bruto parece existir apenas para gerar impacto momentâneo, sem verdadeiro peso narrativo.
Até os atores demonstraram frustração
Laz Alonso criticou o excesso de foco em Soldier Boy
Laz Alonso, intérprete de Leitinho, compartilhou publicações de fãs criticando o chamado “Problema Soldier Boy”, apontando que o personagem recebeu tempo excessivo de tela possivelmente para preparar Vought Rising.
O ator também lamentou a forma como o segundo Black Noir foi tratado.
Antony Starr esperava outro desfecho
Antony Starr também comentou publicamente sua insatisfação com a falta de mortes relevantes e sugeriu que imaginava um encerramento muito diferente para a série.
Dominique McElligott recusou retornar como Rainha Maeve
Dominique McElligott foi convidada para retornar como Rainha Maeve no episódio final, mas recusou.
Segundo Eric Kripke:
“Eu adoraria ter tido a Maeve. Conversei com a Dom e ainda trocamos e-mails ocasionalmente. Ela está praticamente aposentada da atuação e a agenda dela não permitiu.”
A ausência da personagem acabou reforçando ainda mais a sensação de que o encerramento perdeu parte de sua força emocional.
Quando a crítica vira produto

No saldo geral, The Boys parece ter se tornado exatamente aquilo que sempre criticou.
A série nasceu como uma sátira ao sensacionalismo, ao corporativismo e à exploração midiática dos heróis. Mas, ao longo das temporadas, acabou adotando os mesmos vícios:
- Dependência de choque constante
- Expansão desenfreada de franquias
- Marketing acima da narrativa
- Personagens tratados como produtos descartáveis
- Spin-offs usados para sustentar um universo artificialmente prolongado
O resultado é uma obra que ainda possui momentos brilhantes, mas que parece perdida dentro da própria necessidade de continuar crescendo.
Como uma corporação da Vought tentando vender relevância enquanto o prédio pega fogo ao fundo.
Imagem Destacada: Divulgação/Prime Video


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