7 de dezembro de 2019

Ao chegar em Washington pela primeira vez, em 2003, Daniel Jones (Adam Driver) encontra-se deslumbrado com a cidade. Assim como um turista entusiasmado, ele tira uma foto do Capitólio, sede do Poder Legislativo federal, com uma singela máquina fotográfica digital. Além disso, carrega a tiracolo uma sacola plástica, contendo um simpático globo de neve, daqueles vendidos em lojinhas de souvenires. É o início de uma nova etapa em sua vida, na qual os estudos em Segurança Nacional (iniciados após o Onze de Setembro), finalmente serão usados em prol do bem-estar de seus concidadãos e da manutenção dos valores fundadores da nação.

Seis anos mais tarde, trabalhando no Comitê de Inteligência do Senado, Jones é encarregado de liderar as investigações acerca do uso de “técnicas aprimoradas de interrogatório” pela CIA em prisioneiros da “Guerra ao Terror”, e a partir dos resultados da pesquisa, elaborar um dossiê. Desse trabalho nasce o informalmente chamado “Relatório da Tortura”, no qual são apontadas as deficiências dos métodos desumanos adotados pela CIA e as formas como a agência maquiava os fracassos do programa ao apresenta-lo como uma maneira eficaz de combater o terrorismo.

Apesar de seu empenho, é durante os cinco anos de investigações e tentativas de tornar públicas as sete mil páginas do documento, período em que a maior parte de “O Relatório” se desenrola, que Daniel Jones desconstrói completamente a sua visão idealizada de Washington, dando adeus ao jovem recém-saído da faculdade que acreditava que conseguiria mudar o mundo facilmente. Pelo contrário, ao tentar garantir que as suas descobertas acerca da CIA não passem desapercebidas, Jones encontra uma sequência de obstáculos, de diferentes posicionamentos políticos e institucionais, que visam impelir ao documento uma série de alterações ou o seu arquivamento em definitivo.

Uma das observações mais interessantes – e até, ousadas – do diretor e roteirista Scott Z. Burns é de como a jornada de Daniel Jones se assemelha, dadas as devidas proporções, aos inúmeros casos de tortura por ele investigados. Assim como os prisioneiros islâmicos eram levados aos seus limites físicos e mentais para que contassem informações que, em sua maioria, já eram de conhecimento da CIA, Jones também vê a sua qualidade de vida se esvaindo à medida em que a veracidade de suas descobertas é questionada por agentes governamentais e menosprezadas em detrimento da manutenção de agendas políticas. Os prisioneiros encontravam apenas três opções para se livrar dos maus tratos: manter seu posicionamento até ser liberado pelos agentes estadunidenses (geralmente com sequelas); mentir para deixar de ser, temporariamente, torturado; ou a morte. De forma análoga, Jones também se vê obrigado a escolher entre defender incondicionalmente seu trabalho (e sofrer as consequências pessoais e profissionais disso), aceitar concessões que possam amenizar o impacto causado por suas revelações ou, simplesmente, perder a cabeça.

Como Denis McDonough (Jon Hamm), a primeira pessoa que Jones conhece em D.C., afirma em determinado momento da trama: “a democracia é confusa”; e “O Relatório” faz constantemente questão de frisar isso. Por basear-se no confronto público entre múltiplas opiniões, Scott Z. Burns argumenta que, apesar de todas as qualidades, a democracia é um sistema político inerentemente frustrante, no qual a satisfação plena é praticamente impossível e qualquer discurso, através da retórica adequada, pode se tornar a visão dominante, por mais incongruente que seja.

Utilizando o processo de elaboração e divulgação do “Relatório da Tortura”, Burns analisa as tensões típicas da democracia e como elas, por mais saudáveis que sejam, também servem de aviso contra a idealização excessiva desse sistema e a propagação de ideias equivocadas acerca de seu funcionamento. Enquanto em um canto está Daniel Jones, cujo único objetivo é apresentar claramente os crimes cometidos por agentes da CIA e terceirizados, e tornar essas informações públicas, de forma a evitar a repetição dessas práticas, há também outras figuras que frequentemente o questionam e o “torturam”, sejam elas ideologicamente mais próximas a ele ou não. Ao mesmo tempo em que Burns introduz alguém como Bernadette (Maura Tierney), funcionária do Escritório de Contraterrorismo que não vê nas práticas citadas no relatório um caso de tortura, mas sim de medidas necessárias para garantir a segurança nacional, ele também dá destaque à senadora democrata Dianne Feinstein (Annette Bening), presidente do Comitê de Inteligência do Senado e supervisora do relatório.

A relação entre Jones e Feinstein é um dos aspectos mais interessantes do longa. Como a secretária da senadora afirma em determinado momento, “o documento pode ser escrito por você [Daniel], mas é o nome dela que vai aparecer para todo mundo”, o que faz de Feinstein uma pessoa muito mais cautelosa e moderada do que Daniel, uma vez que ao contrário do investigador, ela possui uma imagem pública e relacionamentos políticos que precisam ser conservados. Além disso, o seu próprio posicionamento em relação à Defesa é deveras contraditório: apesar de lutar pela elaboração e pela divulgação do “Relatório da Tortura”, Feinstein não esconde, à certa altura, que votou contra seu próprio partido a favor do programa de drones, responsável pela morte de civis no exterior sob o pretexto de exterminar terroristas (não muito diferente da justificativa da CIA para a manutenção das “técnicas aprimoradas”).

Apesar de levantar questões relevantes e apresentar um extenso trabalho de pesquisa, “O Relatório”, infelizmente, não atinge todo o seu potencial. A necessidade dos realizadores em incluir a maior quantidade de informações em pouco menos de duas horas de duração deixa o filme inchado e, às vezes, confuso, como também impede Burns de explorar mais a fundo a vida particular de suas personagens e como esta é afetada pela esfera profissional.


Imagens e vídeo: Divulgação/Diamond Films/Amazon

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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