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Crítica

Crítica: Olhando para as Estrelas

O impossível se torna possível na ponta dos pés

A bailarina é uma figura imaculada. Elegante, delicada, perfeita. A técnica deve ser impecável. Não existem meio termos. O ballet clássico exige um treinamento que colocaria muitos jogadores de futebol no chinelo. Joelhos e pontas esticadíssimas, piruetas intermináveis, abdômen trincado e tudo isso com o sorriso mais encantador possível no rosto. Chico Buarque já dizia: “Procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina; E tem piriri, tem lombriga, tem ameba – só a bailarina que não tem”. Quem escolhe o ballet também escolhe não se permitir ao erro. O alcance da técnica perfeita se torna o objetivo máximo.

O mundo dos deficientes visuais já foi representado no cinema algumas vezes – de formas bem distintas uma da outra –  em “Ensaio sobre a cegueira” de Fernando Meirelles, vemos como o ser humano é frágil e capaz de instaurar o verdadeiro caos diante da perda de um dos nossos principais sentidos, a visão.

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O grande chamariz do documentário “Olhando para as estrelas”, de Alexandre Peralta, é justamente unir estes dois mundos: o ballet clássico e a deficiência visual. Uma combinação que parece impossível ao primeiro momento transforma as vidas das bailarinas Geyza e Thalia, e elas contam suas histórias de forma magistral no documentário.

Nas primeiras imagens o título vem à tona. Vemos uma professora ensinando seus alunos, deficientes visuais, a reproduzir os braços do ballet e para tanto se utiliza da frase: “Levanta os braços para as estrelas, o céu está longe”. A partir daí, o espectador é inserido nesse olhar e dele não sai mais. As protagonistas que nos guiam pelas suas rotinas são alunas da Associação Fernanda Bianchini – Cia Ballet De Cegos.  O projeto – que já existe há 22 anos – surgiu da iniciativa da própria Fernanda que, quando jovem, começou a dar aulas voluntariamente de ballet no Instituto de Cegos Padre Chico, em São Paulo. A partir desse momento, ela desenvolveu um método de ensino, que vai desde o toque direto nos corpos dos alunos, até estalos com os dedos – dados pelos bailarinos que enxergam ou pela coreógrafa da coxia – Todo o ensinamento é transmitido por meio de diversos tipos de estímulos.

A trajetória de Geyza nos é introduzida com as suas próprias palavras. Os espaços habitados pelas câmeras são poucos. A escola, a residência que habita, uma rua ou outra. O interessante é que nestes pequenos trechos singelos o espectador é apresentado a um mundo de coisas profundas. A perda da visão, a descoberta da dança, a convivência dentro de casa e em sociedade, as dificuldades da vida a dois e a maternidade são partes da história que ela compartilha.

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A fotografia é rica em detalhes. Com closes e planos bem próximos, ela traz uma atmosfera de intimidade e convida o espectador a conhecer, admirar e a se emocionar com o mundo das duas. Elas estão próximas, sinceras e desnudas de alma de tal forma que ao longo do filme acabam se tornando conhecidas de longa data do espectador.

As imagens – que nos fazem não querer tirar o olho da tela – são indiscutivelmente um grande trunfo do documentário. Atraentes, bem distribuídas, poéticas, com uma paleta de cores que transcende o que se espera do universo do ballet – quem espera por bailarinas de collants cor de rosa dançando o quebra nozes pode esquecer. Além disso, o filme é acompanhado de uma trilha clássica e – quando necessário – de sons ambientes, apenas. Muitas vezes eles são suficientes para inserir o espectador no mundo das duas. Vide o trecho de Thalia no colégio. Sons de crianças brincando, professor explicando, um jogo de basquete, o dia a dia de uma aluna cega e a sua solidão entre outros alunos que enxergam. Essa sincronia perfeita de planos tão ricos alavancados por uma trilha que só acrescenta são pontos positivos de um diretor com anos de experiência em publicidade. Alexandre definitivamente sabe como vender bem uma ideia.

Thalia traz uma vivência mais jovem. Apesar do foco na dança, o filme mostra o infinito de coisas que um deficiente visual é capaz de fazer. Além de dançar, ela escreve e faz parte de uma rádio. Outros narradores também contam seus depoimentos como o professor Everton, coreógrafo da sequência de dança mais arrebatadora do documentário – um trecho que já vale (e muito) a ida ao cinema – e a própria Fernanda. Responsável por todo esse mundo onde o impossível se tornou possível. É lindo ver o encontro de vidas entre ela e Geyza. Fernanda se casa, Geyza também, a primeira dá a luz, a segunda engravida logo depois. É como se o filme mostrasse que a deficiência não fosse impedidora de sonhos que a maioria das pessoas têm. Mas ele não ilude o espectador e nem cai no clichê das histórias de superação. Os lugares obscuros de insegurança, isolamento e dificuldades são também escancarados.

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“Independente de técnica, ou não, eu quero dançar para ser feliz” – um trecho roubado do filme resume a sua essência. Qualquer forma de arte é válida quando feita com o coração. E “Olhando para as estrelas” é arte do início ao fim. Vale a ida ao cinema.

Vida longa à Associação Fernanda Bianchini – Cia Ballet De Cegos.

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Por Rayza Noiá

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