Erupcja mergulha nas paisagens cinzentas da cidade e nas mudanças silenciosas das relações contemporâneas, guiado pela performance de Charli XCX
O longa “Erupcja”, protagonizado pela popular cantora e DJ Charli XCX, é daqueles filmes que costumam ganhar espaço apenas em festivais de cinema, e justamente por isso merece ser visto pelo maior número de pessoas. Trata-se de uma produção independente, que parece ter sido concebida quase clandestinamente nas ruas de Varsóvia, já que os takes urbanos são breves, entrecortados pela montagem e apresentados em planos gerais que sugerem que a câmera poderia estar ocultada em algum mobiliário urbano, ou em primeiros planos que parecem captados às escondidas, quase na pele de quem acompanha os atores durante uma caminhada.
Essas escolhas estéticas, aliadas à razão de aspecto reduzida, transformam o filme de Pete Ohs em uma obra intimista e melancólica, que trata de relacionamentos, decepções e das alegrias e tristezas dos casais contemporâneos. Nele, Bethany (XCX) retorna à capital polonesa, onde já havia visitado anteriormente, acompanhada de seu namorado Rob (Will Madden). Durante a visita, o homem pretende algo além do turismo, aspirando propô-lá em casamento. No entanto, parece que a jovem tem outros planos ao retornar à cidade, indo em busca de sua antiga amiga, a enigmática Nel (Lena Góra), que, por sua vez, vive um relacionamento conturbado com sua namorada Ula (Agata Trzebuchowska).

Desse modo, a câmera em “Erupcja” acompanha seus personagens enquanto eles tentam definir suas vidas afetivas em uma Varsóvia que se desenha cinza e sombria. As relações parecem acompanhar o espírito da cidade, que, ainda que envolta pela beleza histórica de estilos barroco e gótico, transmite uma sensação de melancolia e solidão. A paleta de cores só se revela com maior vivacidade nas transições entre as cenas; em vez de simples fade-outs, as transições aparecem coloridas, com cada tom aludindo a um elemento do cenário que surge a seguir na imagem. Em uma dessas passagens, por exemplo, a cor escolhida é a magenta, relacionada às luzes de uma torre que aparece logo em seguida.
LEIA MAIS:
“O Grande Arco de Paris” Transforma Arquitetura em Drama Humano — e Acerta ao Focar no Processo, Não Só no Monumento
Da Magia à Sedução 2 | Filme Ganha Trailer em Continuação Após 28 Anos
O Morro dos Ventos Uivantes | Releitura Ousada para um Clássico
Essa escolha colorística confere dinamismo às situações apresentadas e demonstra que, por mais que os personagens sofram por amores ou por mero tédio, há no horizonte algo vivo para ser contemplado. Ao final de cada túnel psicológico, parece surgir uma luz, ainda que tênue, que anuncia uma esperança. Por isso, o longa é, apesar de suas aparentes nuances sombrias, uma história otimista, que trata de decepções amorosas, mas, em sua essência, versa sobre recomeços.
Para Rob, Nel e Ula, esse recomeço nasce a partir de Bethany, para o bem e para o mal. Vale sublinhar, por fim, que a presença de Charli XCX como intérprete acrescenta grande valor à personagem, conferindo-lhe um ar blasé, que sugere cansaço diante da realidade ao redor e uma inclinação a ignorar tudo em prol da diversão e do enriquecimento intelectual e emocional. Alguns personagens sofrem devido ao seu comportamento; outros encontram a felicidade pela possibilidade de reencontros. Bethany, portanto, oscila entre ser uma diaba e uma anja. Ela é movida pela cidade triste que a cerca e pela erupção de vulcões que anunciam a sua chegada. Daí o título “Erupcja”.
“Erupcja” foi visto durante o 2º Festival de Cinema Europeu Imovision.

Quer estar por dentro do que acontece no mundo do entretenimento? Então, faça parte do nosso CANAL OFICIAL DO WHATSAPP e receba novidades todos os dias.

Sem comentários! Seja o primeiro.