Instituições secretas, ballet e mistério. Existe um imaginário forte no que diz respeito a Rússia, já há algum tempo. Isso se deve, claro, ao fato de possuir uma cultura muito distante da nossa, sendo essa também bem peculiar. Entretanto, falamos de uma nação que apresenta histórico que reforça esse tipo de pensamento, talvez por seu isolamento durante a Guerra Fria, enquanto ainda era União Soviética. Dessa forma, não seria exagero afirmar que a Rússia gera forte contraste com o que estamos acostumados no cotidiano de um Ocidente mais habitual para nós. “Operação Red Sparrow” é um filme que parece ter isso bastante consciente e que pretende usar tais concepções para criar um longa-metragem.

Ele nos apresenta a história de Dominika Egorova, bailarina que, após alguns eventos, entra para uma escola de espionagem russa. Eis que, no entanto, acaba com envolvimento sentimental com um americano que é um de seus primeiros-alvos, passando a agir de forma dúbia em ambos os lados a partir daí. A protagonista passa, então, a estar em frequente perigo e precisa dar um jeito de salvar a si mesmo.

Em primeiro lugar, o que chama a atenção é a crueza que é apresentada em tela. Existe presença constante de erotismo, mas que se contrapõe ao sangue e a violência que também fazem parte da história. Cenas de estupro, que existem, tampouco são feitas de forma muito suavizada. Esse é um ponto que pesa bem para o filme, já que é coerente com o mundo que apresenta e que nos é construído ao longo da projeção, permitindo que haja um senso de perigo real o tempo todo. É o tipo de característica que se utiliza do som e da montagem para criar tensão, e que funciona significativamente bem no início. Sequências simultâneas que nos são apresentadas conseguem elaborar eficiente tensão, sem que o espectador se perca e fique confuso. O primeiro ato do longa, aliás, cumpre bem o papel de engajar quem assiste e apresentar aquilo que quer ser, gerando principalmente o curioso contraste entre o mundo da espionagem e o do ballet russo, da arte. Acompanhar a transição da protagonista de um para o outro é bastante interessante.

É uma pena que, a partir disso, o roteiro enfraqueça e se torne excessivamente rocambolesco. Fica difícil entender o que se passa com clareza, já que a trama parece se tornar cada vez mais grandiosa e cheia de histórias secundárias. O fim até é interessante e traz algum vigor de volta a projeção, mas será que precisava de tanto tempo para isso? Não há como não ter a sensação de que tudo poderia ter sido mais fluido, menos laborioso. É compreensível que se queira construir bem a protagonista, mas leva-se tempo demais para o filme chegar no que realmente importa. Não fosse só isso, aquilo que realmente importa é decepcionante. Muita relevância é dada ao romance, por exemplo, que dificilmente gera algum apelo ao público e parece artificial.

Apesar disso tudo, Jennifer Lawrence carrega bem o filme. É louvável que ela tenha feito um bom trabalho em meio a várias falhas que há nessa obra, mesmo que sofra disso, inevitavelmente. O mesmo pode se dizer das cores, que constroem ambientes e personagens carregados em tons de preto, cinza e marrom. É uma atmosfera fria e opressiva que se choca com o vermelho que aparece algumas vezes. É um uso pontual, mas que seja no sangue ou no figurino, mostra uma sutileza dos realizadores em transmitir sua mensagem.

“Operação Red Sparrow” acaba sendo um filme frustrante, mas com boas ideias. Consegue alguns méritos com valor, mas acabam quase todos ficando presos no cerne de tudo, que é o principal motivo de tudo que há de errado aqui, que é a história. Impossível terminar de assistir sem pensar no potencial de filme de espionagem que fugisse do convencional que poderíamos ter visto.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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1 thought on “Crítica: Operação Red Sparrow

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