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Crítica

Crítica: Os Guarda-Chuvas do Amor

Os Guarda-Chuvas do Amor: como o filme de Jacques Demy ajudou a dar vida a “La La Land  – Cantando Estações”

No crepúsculo de Los Angeles, um casal dança. Não é preciso muito para saber que se trata de “La La Land – Cantando Estações”, novo filme de Damien Chazelle, que segue à frente na disputa do Oscar com 14 indicações – número antes alcançado na história da premiação apenas por “A Malvada” (1950) e “Titanic” (1997). Uma carta de amor aos musicais, em especial aos clássicos de Hollywood, o filme não poupa nas referências. Os passos de dança similares aos de Fred Astaire e Ginger Rogers em “Vamos Dançar?” (1937), um plano com uma profusão de letreiros de neon igual a “Cantando na Chuva” (1952), uma sequência de imaginação com os delírios visuais de “Sinfonias de Paris” (1951) são algumas homenagens feitas com elegância pelo jovem diretor.

Entretanto, por mais que a Era de Ouro do cinema norte-americano seja objeto de devoção, foi em uma obra do cinema francês que Chazelle encontrou a matéria-prima para “La La Land”: “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964) é a grande inspiração para o romance entre Mia e Sebastian.

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Dirigido por Jacques Demy, responsável também por “Duas Garotas Românticas” (1967) e “Pele de Asno” (1970), o musical conta a história de Genviève Emery (Catherine Deneuve) e Guy Foucher (Nino Castelnuevo), um jovem casal apaixonado que se vê obrigado a se separar quando o rapaz é enviado para lutar por seu país na guerra contra a Algéria. Dividido em três partes (a separação, a ausência e o retorno), acompanhamos os caminhos que a vida de cada um toma depois desse evento.

Dos sentimentos que “Os Guarda-Chuvas do Amor” provoca, quebra de expectativa é o maior deles. A sensação inicial é de deslumbramento. Com uma paleta de cores vibrantes que compõe com perfeição figurinos e cenários como nas comédias musicais de Hollywood da mesma época, esperamos que o que seguirá seja um espetáculo fantástico típico do gênero. Porém, o que se segue é absolutamente diferente. A jornada do jovem casal não é cantada em ocasionais números de músicas empolgantes com complexas coreografias, pelo contrário: sem momentos de dança e estruturado no estilo de operetta (todo o diálogo do filme é expresso em música), o efeito que o filme quer provocar não é divertimento, mas sim melancolia. É como um bolo coberto de glacê cor-de-rosa na vitrine de uma confeitaria, mas que o sabor na verdade é amargo.

Em relação à dança, quem baila no filme não são os atores, mas sim a câmera. Com uma direção segura, Jacques Demy faz com que em muitos momentos ela deslize de um personagem a outro em um mesmo espaço sem usar cortes e, quando os utiliza, tem o objetivo de intensificar o confronto entre eles. Suave também é a trilha composta por Michel Legrand, que transita de uma canção a outra organicamente, considerando a complexidade de um musical com essa estrutura.

Em entrevista ao site Hollywood Reporter, Damien Chazelle deixou claro o impacto que o musical de Demy causou nele. “Nenhum filme me atingiu mais. Eu me lembro de assistir pela primeira vez quando garoto e ir de irritado  – ‘Eles realmente vão fazer isso tudo de cantoria? – para me sentir completamente esmagado no final. Foi a combinação de fantasia e realismo que me pegou.”

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Os primeiros versos da música de abertura de “La La Land”, “Another Day of Sun”, coincidentemente ou não, já evocam “Os Guarda-Chuvas do Amor”. Assim como a personagem de Catherine Deneuve, o eu-lírico da canção conta que deixou o seu amor de adolescência em uma estação de trem: “Eu penso sobre aquele dia/ eu o deixei na Estação Greyhound/ Oeste de Santa Fé/ nós tinhamos 17 anos/ mas ele era gentil e era verdadeiro/ ainda assim, eu fiz o que tinha que fazer”. Outras referências ao clássico aparecem sutilmente ao longo do filme do diretor americano: seja na réplica da loja de guarda-chuvas em frente ao café que a protagonista trabalha, na personagem da peça de teatro que ela interpreta que se chama Geneviève ou na própria trilha que apresenta uma música chamada “Madeline”, referência a outra personagem do filme francês.

Entretanto, a grande homenagem de Chazelle ao clássico de Demy se dá na composição de sua trama. Nela a garçonete Mia (Emma Stone) se apaixona pelo músico Sebastian (Ryan Gosling). Ela quer alavancar na carreira de atriz, ele deseja abrir um bar para celebrar e manter vivo seu estilo musical preferido, o jazz. Juntando o otimismo dos musicais de Hollywood com o realismo do longa francês, a separação do casal parece inevitável devido ao elemento que “La La Land” faz precioso: a realização dos sonhos.

No desfecho, a interseção entre os dois filmes é absoluta. Subvertendo o que é esperado em uma comédia musical, o cineasta surpreende o espectador que não conhece o filme de 1964. Contornando o tom soturno de “Os Guarda-Chuvas do Amor”, Damien Chazelle, mesmo no final, consegue construir um filme doce, que nos encanta pela boa aplicação da nostalgia.

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Se Jacques Demy nos conquista apontando a realidade na fantasia, Damien Chazelle faz o oposto: nos mostra a fantasia na realidade.

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1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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