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Crítica

Crítica: Os Parças

Nos últimos anos, o cinema brasileiro vem tentando, sem muito êxito, se apropriar dos maiores sucessos da internet. Exemplos não faltam: “É fada” (2016), estrelado por Kéfera Buchmann (canal 5inco Minutos), “Porta dos Fundos: Contrato Vitalício” (2016), inspirado pelo programa online homônimo, e o mais recente “Internet: O Filme” (2017), reunião de inúmeros youtubers. Os Parças, estreia da Downtown Filmes e da Paris Filmes desta semana, junta-se a essa lista ao trazer para a grande tela os fenômenos virtuais Whindersson Nunes e Tirullipa, ao lado do humorista Tom Cavalcante – estreante em longas-metragens após a saída da tevê aberta – e do apresentador Bruno de Luca – pela primeira vez protagonista no cinema.

Na comédia produzida pela Formata Produções, de Daniela Busoli e Patrícia Cavalcante, esposa de Tom, o quarteto interpreta um grupo de vigaristas que, depois de fugir da polícia no escritório de Mário (Oscar Magrini), se vê obrigado a organizar uma grande festa de casamento com pouco dinheiro para Cíntia (Paloma Bernardi), filha do criminoso Vacário (Taumaturgo Ferreira). A solução então proposta pelo roteiro de Cláudio Torres Gonzaga (Vestido para Casar”) é um dos poucos acertos do filme. Toinho (Tom Cavalcante), Ray Van (Whindersson Nunes), Pilôra (Tirullipa) e Romeu (Bruno de Luca) recorrem à malandragem da conhecida rua paulista 25 de Março, em uma celebração das figuras marginais nela encontradas.

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Se a premissa parece interessante, o mesmo não se pode dizer a respeito do resultado final. No universo ficcional construído por Gonzaga, as mulheres são a loira burra, a filha do traficante, a stripper. Elas só existem em tela na medida em que são sexualizadas pelas personagens masculinas. As caricaturas construídas por Tom Cavalcante, Whindersson Nunes e Tirullipa quando se travestem respectivamente da professora alemã de dança Helga e de duas dançarinas de boate só reforçam esse caráter misógino do longa-metragem. Os dois últimos revelam ainda a presença de traços de homofobia na produção ao darem vida a dois ridicularizados estilistas (foto acima).

Não bastassem os problemas de roteiro, a direção de Halder Gomes (Cine Holliúdy”, “O Shaolin Do Sertão”) carece de equilíbrio. Ora os atores se prendem excessivamente aos diálogos e soam artificiais, ora se soltam completamente do contexto narrativo. Gomes e Gonzaga também fracassam quando tentam criar momentos de autorreferência: há uma cena em que o filme fala sobre si mesmo e cita o seu título e outra em que os protagonistas abordam sua própria condição de nordestinos na cidade de São Paulo, mas tudo parece encenado demais para funcionar.

Nessa sucessão de erros, nada realmente contribui para conectar o espectador à história contada. A montagem frenética elimina qualquer possibilidade de ritmo cômico, e o excesso de sons, com uma trilha musical ininterrupta, chega a irritar. A produção tenta então, de forma desesperada, atrair o público com uma série de participações especiais. Milhem Cortaz performa papel idêntico ao de Tropa de Elite”, Carlos Alberto de Nóbrega vive um contrabandista latino, e até Neymar aparece no final. O apelo popular dos famosos, contudo, obviamente não é o suficiente para salvar um projeto fadado ao fracasso.

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“Os Parças”, quando muito, não passa de mais uma tentativa mal sucedida de transpor para o cinema a linguagem do YouTube. Não sabe aproveitar o melhor de seus comediantes e não consegue se adequar ao formato de exibição escolhido. E pior ainda: no lugar de provocar o riso e a diversão esperados, resulta, por seu humor superficial e dependente de estereótipos, em uma experiência extremamente constrangedora e desconfortável para alguns.

* O filme estreia 30 de novembro, quinta-feira.

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Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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