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Crítica

Crítica: Partida

Imagem: Divulgação/Cisma Produções

Num primeiro momento, “Partida” parece ser apenas mais um filme feito no calor dos acontecimentos das eleições presidenciais de 2018, usando as mesmas figuras e argumentos de sempre para criticar o posicionamento de extrema-direita neoliberal de Jair Bolsonaro. O longa abre com duas cenas que apontam para essa direção, ambas protagonizadas pela atriz Georgette Fadel, figura central do filme: na primeira, ela conta um caso recente em que levou uma cadeirada de alguém e, devido ao clima tenso e intolerante no país, pensou imediatamente que fosse uma represália ao fato de ser lésbica; e na segunda, Georgette é mostrada chorando enquanto assiste pela televisão à apuração de votos em que é confirmada a vitória de Bolsonaro.

Por causa disso, toda a premissa do filme – um grupo de artistas de classe média/alta aluga um ônibus vintage para ir até o Uruguai passar a virada do ano com o ex-presidente Pepe Mujica –, inicialmente, não passa a melhor das impressões. De um lado, parece uma mistura de “Família Rodante” de Pablo Trapero com uma daquelas comédias “irreverentes” que o Festival de Sundance ama, estilo “Capitão Fantástico”; por outro, frente à “bolha” em que as personagens de “Partida” vivem, fica a dúvida de como o filme conseguiria sair do lugar-comum de um certo discurso da “esquerda artística burguesa”.

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É uma boa surpresa, portanto, quando se percebe que o filme, de início, adota deliberadamente esse caminho para, em seguida, desestabilizá-lo, tanto discursiva quando esteticamente. Apoiando-se no caráter de “diário de viagem” do projeto, o diretor Caco Ciocler, aos poucos, insere elementos que apontam uma autoconsciência dos limites de seu documentário. Os áudios de WhatsApp entre o diretor e outros membros da equipe ilustram o processo de construção do longa que, devido à pressa com que foi concebido, é compreensivelmente confuso e indeciso. Um ótimo exemplo disso é a sequência na vigília a favor da libertação de Lula, em Curitiba, na qual Ciocler sobrepõe a imagens de Georgette interagindo com simpatizantes do ex-presidente, um áudio seu expondo suas dúvidas sobre manter o trecho no filme ou não, por medo de deixa-lo sem foco.

Em outro momento, durante uma briga entre Georgette e Léo, um empresário de direita, sobre a falta de representação de minorias nas artes (em especial, negros e mulheres), a câmera, por um breve instante, chama a atenção para o motorista Jefferson, o único negro no veículo, alheio à discussão, separado do grupo enquanto exerce seu ofício. Essa atitude, aliada a outros trechos do longa – como aquele em que Georgette diz que os integrantes da viagem são apenas “matizes da burguesia” –, explicitam o posicionamento de “Partida”: considerar o discurso de suas personagens, mas não torna-lo verdade absoluta, pois, numa visão macro, esse grupo preso dentro de um ônibus vintage, fazendo uma viagem impulsiva, representa uma porção ínfima da população. Quem eles representam? O que eles sabem sobre o povo? Como, ainda tão perto dos acontecimentos, eles podem saber com tanta certeza o que elegeu Bolsonaro? São esses tipos de questionamentos e uma necessidade de pensar “como os artistas podem de fato ajudar?” que parecem guiar Ciocler e separam “Partida” de textões de Facebook e filmes “politizados” que só cospem frases de senso comum. É um longa que tem coragem de dizer “só sei que nada sei”.

Levando isso em conta, torna-se ainda mais interessante a intensa metalinguagem que toma conta, em especial, da segunda parte do filme, na qual ficção e realidade são constantemente questionadas. Em um dos áudios de WhatsApp, Georgette afirma que “como atores, nós temos que grifar nossas opiniões e preconceitos”, apontando para uma construção de narrativas e manipulação de personalidades que põem em dúvida até que ponto as pessoas dentro do ônibus de fato são como se apresentam frente à câmera. Além disso, momentos como a grande briga entre Georgette e Léo que, momentos depois, é reencenada por causa de problemas técnicos apenas corroboram essa sensação de nunca saber o que é verdade, o que é mentira e o que é exagero. Uma fake news, por assim dizer.

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Uma grata surpresa, “Partida” entende suas limitações e as usa a seu favor, criando menos um filme de verdades absolutas e mais um envolvente jogo de ideologias em meio à trama de ilusões que forma o cinema.

*Até o momento da publicação, não havia trailer disponível.


Imagens: Divulgação/Cisma Produções

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Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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