Crítica: Pelas Ruas de Paris

A conhecida premissa “garoto conhece garota” ganha ares abstratos em “Pelas Ruas de Paris” ao apostar em uma narrativa que bebe muito na fonte do recente estilo da filmografia de Terrence Malick. A diretora Élisabeth Vogler também usa a grande quantidade de filmes sobre relacionamentos como referência e mistura-os à Nouvelle Vague em uma história mais sensorial do que física. O relacionamento entre Anna (Noémie Schmidt) e Greg (Grégoire Isvarine) é o ponto de partida, mas não é no amor que um sente pelo outro que os roteiristas se debruçaram na confecção do texto. Há algo mais social envolvido, e esse é o diferencial do longa.

Na verdade, a protagonista é a cidade de Paris, que é amada por Anna e que Greg quer abandonar, após receber uma proposta de trabalho na Espanha. Greg chama Anna para ir junto, gerando desentendimento entre o casal e o início do caos sentimental da garota. Para expressar todas as angústias de Anna, a montagem desfaz qualquer linha temporal do contexto e joga momentos do passado e do presente fora de ordem na tela, quebrando as estruturas clássicas de um filme de romance. A garota anda pelas ruas e parece sentir tudo que se passa na capital francesa. Há ali uma ligação entre mulher e cidade.

Anna participa de inúmeros protestos e passeatas. Está presente quando as pessoas foram às ruas para mostrar que não tinham medo do terrorismo após os vários ataques que Paris sofreu, inclusive ao desferido contra o jornal Charlie Hebdo. É durante esses eventos que a referência à Nouvelle Vague citada acima fica evidente, já que a garota, enquanto é seguida em planos sequência, passa no meio de multidões onde, invariavelmente, há os que olham em direção à câmera, dando a sensação de filme amador ou telejornalismo. Quando a tela fica livre da presença de seres humanos, é a contemplação que dá o tom no meio da rua, no metro, ou em alguns takes dispersos em uma praia ou no campo. O campo com seus sons e a música sempre presente fazem Malick vir à mente.  Em um longa de uma hora e vinte de duração não é comum que o espectador sofra com bocejos involuntários, no entanto, “Pelas Ruas de Paris” dá sono por causa da falta de interesse que é causada pela forma como os temas são abordados. Evidentemente que Paris é uma cidade amada por muitos no mundo inteiro e que o senso de sociedade fica exacerbado em todos após atos bárbaros de terroristas. Claro que o sentimento de tristeza toma conta quando imagens de ambulâncias e de tropas de segurança do exército ocupam o lugar dos grandes monumentos históricos, mas, ao apelar para uma narração em off, uma trilha sonora constante, recortes de imagens e ângulos inusitados, Vogler acaba cansando os olhos da plateia. Não adianta ter técnica apurada e deixar que o conteúdo se torne enfadonho. É gratificante ver inovações na linguagem cinematográfica, só que elas precisam vir acompanhadas de uma história envolvente, diálogos bem escritos e de personagens interessantes.  “Pelas Ruas de Paris” entrega apenas uma parte disso tudo.

Fotos e Vídeo: Divulgação/Netflix

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