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Crítica

Crítica: Praça Paris

Um europeu chega à América e se depara com um bárbaro. O selvagem carrega um bicho no ombro enquanto come seus restos mortais. Assustado, o colonizador dá meia volta. Não se aproxima o suficiente para descobrir que o “animal”, na verdade, não passava de uma jaca.

A anedota, contada à portuguesa Camila (Joana de Verona) por seu namorado Martin (Marco Antonio Caponi), ilustra com clareza o impasse enfrentado pela protagonista de “Praça Paris”. A despeito de toda sua formação acadêmica, a lusitana nada consegue fazer para ajudar a ascensorista Glória (Grace Passô), seu objeto de estudo no Mestrado em Psicologia Aplicada da UERJ. Ao contrário, a paciente subverte a lógica da terapia e coloca em questão o próprio lugar da “doutora”. “É assim que você me enxerga, né? Um bicho de zoológico?”, pergunta em determinado momento. Na piada do europeu e do bárbaro, os conhecimentos prévios sobre o mundo animal pouco serviram para classificar a jaca. No filme, do mesmo modo, os livros na estante de Camila falharam em prepará-la para lidar com a realidade periférica.

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Diferentemente do colonizador, porém, a estudante não foge, mas carrega consigo uma culpa quincentenária. A sequência de abertura oferece, nesse sentido, uma antecipação simbólica da discussão temática. Nela, a diretora Lucia Murat (“Quase Dois Irmãos”, “Uma Longa Viagem”) apresenta Joana de Verona (“As Mil e Uma Noites”) com trajes campesinos. Ao passo que a atriz caminha em direção ao mar, o fado, ritmo tradicional português, ocupa a trilha musical. Quando Verona finalmente mergulha, emerge, já como Camila, em uma praia carioca. Há, nesse corte, uma associação direta entre um passado de dependência e um presente de injustiça. Os constantes delírios da personagem justificam-se por essa responsabilidade intergeracional, traduzida em fala misteriosa após pesadelo: “A minha família sempre disse que o culpado da morte da minha avó tinha sido o Brasil. E eu nunca acreditei.”

A culpa colonizadora manifesta-se, ainda, no título do longa-metragem. A mencionada praça, resultado de um projeto urbanístico francês, conjuga a contradição entre a jardinagem parisiense e o clima litorâneo. Longe de protagonizar a obra à qual empresta o nome, contudo, o espaço aparece apenas de maneira pontual: ele promove o encontro entre Camila e sua herança familiar. A jovem visita-o, assim, para tirar uma foto como a que guarda da falecida avó. Aos poucos, no entanto, o antigo retrato, evidência de inescapáveis raízes, passa a assombrá-la. A lusitana dirige, então, sua fúria contra a fotografia, como se pudesse, dessa forma, romper os laços parentais.

A psicóloga afasta-se, portanto, cada vez mais de sua paciente. Para Glória, favela é moradia; para Camila, vista de varanda. Para Glória, sexo é trauma; para Camila, prazer. Para Glória, violência é realidade; para Camila, simulacro. Sem encontrar apoio na terapeuta, a ascensorista tampouco se beneficia da ajuda de uma truculenta polícia ou de uma hipócrita religião. Vê-se, por isso, desamparada, e Grace Passô (“Elon Não Acredita na Morte”) expressa com contundência esse sentimento. A visceral atuação rendeu à mineira o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio de 2017.

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Murat, eleita Melhor Diretora, destaca-se principalmente na construção de um drama social. Quando a produção aproxima-se, de outro modo, do thriller, ela perde em parte sua potência. Especialista do gênero, o roteirista Raphael Montes, autor de romances como “Dias Perfeitos” e “Suicidas”, explicita em demasia os conflitos e dificulta a identificação entre público e personagens. A estratégia, ainda assim, pode funcionar. Ao questionar as atitudes de Camila, o espectador talvez se reconheça nelas. Alcançado esse objetivo, “Praça Paris” promoverá, certamente, um necessário debate sobre desigualdade e racismo, realidades tão caras à capital fluminense.

* O filme estreia dia 26, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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