Crítica: Roxanne Roxanne

Roxanne Shante era apenas uma adolescente da periferia do Queens quando, em seus primeiros versos de sucesso, fez questão de atestar sua expertise para o rap:

“Toda vez que ele me vê, manda uma rima / Mas, olha, comparado a mim / É fraca comparada a minha”*

No auge dos seus 14 anos, ela já sabia que era melhor que muitos colegas rappers. Talvez o que ela não imaginasse, porém, é que “Roxanne’s Revenge” a alçaria ao estrelato e que, entre os altos e baixos de sua carreira, criaria terreno para que outras jovens garotas se aventurassem na vida MC.

Roxanne Shante, porém, não era Roxanne. Já Shanté – assim, com acento – era o segundo nome da garota nascida Lolita Gooden, mais velha de quatro irmãs, crescida em Queensbridge Project, conjunto habitacional que foi um dos viveiros do hip-hop em Nova Iorque. Suas desventuras são palco de “Roxanne Roxanne”, cinebiografia energética que seduz pela figura e o contexto que pretende destrinchar, mas que, infelizmente, acaba enfraquecida com passos em falso dados pela sua narrativa.

Construído na clássica estrutura de “ascensão à queda”, o projeto, dirigido e escrito pelo novato Michael Larnell, reconta a vida turbulenta da jovem cantora durante a década de 1980. Trajetória, que como vemos na tela, não foi simples: talentosa desde criança em improvisar rimas, Shanté (Chanté Adams) é obrigada a pôr a brincadeira de lado e assumir as responsabilidades da família após a mãe (Nia Long) cair no alcoolismo, depois do trauma de ter tido todo o seu dinheiro roubado pelo namorado.

Entre faltas a escola e furtos a lojas para ajudar em casa, a garota vê sua vida mudar após o improviso despretensioso que faz em cima da música “Roxanne Roxanne”, do grupo de rap U.T.F.O, entrar nas paradas de sucesso na rádio. Pega de surpresa com a fama súbita, a adolescente terá que aprender as consequências do estrelato e, com isso, lidar com as novas relações que se desenham em sua vida, como seu envolvimento amoroso com o traficante Cross (Mahershala Ali).

O segundo longa-metragem do cineasta é cambaleante, mas suas qualidades são não só nos apresentar a Roxanne Shante – por si só uma figura fascinante –, mas também a atmosfera que cria para sua biografia. Cativante em sua recriação histórica, o filme concebe a cena do hip-hop na Nova Iorque dos anos 1980 com calor, brilho e energia, trabalho afinado de design de produção, da trilha sonora e da fotografia de Frederico Cesca. A paleta de cores é viva, o ritmo marcado pelo rap e as luzes filtradas por uma aura amarela, um indício de equilíbrio entre o vigor e a tragédia.

Vitalidade que transpira em algumas apostas que o cineasta faz. Ainda que priorize um olhar mais naturalista para os acontecimentos, privilegiando planos longos e a câmera instável, Michael Larnell marca a passagem do tempo através de transições ágeis e espirituosas. Com apenas um corte vemos a protagonista envelhecer enquanto faz um freestyle, já em outro momento, com uma série de raccords engenhosos, testemunhamos Shanté sair da perda da virgindade, direto para a sala de parto e ainda assistimos o desastre de seu casamento com Cross; quatro anos se passam em segundos.

Chanté Adams também é um dos sucessos do filme. Certeira ao canalizar a natureza plural de sua personagem, a atriz parece não ter dificuldade em manifestar os vários espectros da rapper. Ao mesmo tempo em que é debochada, atrevida, às vezes até soberba, consegue expressar zelo e vulnerabilidade. Peso dramático que ganha ainda mais força com a semelhança da intérprete a Roxanne Shante.

Entretanto, todos esses atributos do projeto acabam minados por um grande defeito: o roteiro. Se a passagem do tempo consolidada na montagem é perspicaz, a planejada no script, em contrapartida, se torna problemática. Investindo na omissão a fim de saltar com a rapidez nos quase 10 anos de história, informações e desenvolvimentos importantes são retirados da trama.

A fama da cantora, de fato, foi quase que instantânea, mas o progresso que o filme dá aos eventos atrapalha a dimensão do relacionamento da protagonista com alguns personagens. Por exemplo, quem afinal é Awtan? O segurança é apresentado em uma cena e na seguinte Shante diz que o ama, mas pouco o espectador sabe o porquê. O mesmo acontece com a construção do conflito entre ela e a família: a relação é composta com cuidado no primeiro ato do filme, mas é simplesmente abandonada quando a carreira da jovem deslancha. Fica-se subentendido o abandono, porém parece mais um mal cálculo do roteiro.

Desse recurso, que em um cenário geral atrapalha mais do que ajuda,“Roxanne Roxanne” parece retalhado. Sorte é que Roxanne Shanté é fascinante e na composição de sua protagonista o filme não vacila. Em um período em que como nunca se falou sobre representatividade, o projeto de Larnell é importante e merece atenção.

* “Every time that que sees me, he says as rhyme/ But, see, compare to me/ It’s weak compare to mine”


“Roxanne Roxanne” já está disponível no catálogo da Netflix.

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