11 de dezembro de 2019
“A obra de arte que não corrompe não me interessa”
(Paulo César Pereio)

Em close, o cartunista Sérgio Jaguaribe concede uma entrevista. A voz ao fundo pergunta: “Você é saudosista, Jaguar?”. A experiência, atestada pelas rugas, facilita uma saída de mestre. Bem-humorado, o octogenário olha para a câmera e nega a nostalgia dos tempos passados. Explica: hoje, por exemplo, o serviço de táxi é melhor.

Após a piada, Tá Rindo de Quê?” caminha para uma sólida conclusão. Todo o clima nostálgico aparenta, finalmente, refutado. No lugar dos créditos, contudo, surge Evandro Mesquita. Para o líder da Blitz, os anos de chumbo deixaram saudades. E assim se encerra o filme.

Como indica o subtítulo, “Humor e Ditadura”, a abordagem recai em um humor subversivo, capaz de driblar a censura militar. Nesse sentido, a inventiva arte dos créditos iniciais já antecipa a temida caneta vermelha. Para cada rasura, entretanto, há uma reverência à “Revolução”. Alguém recorda, em seguida, o sentimento geral de incerteza. Para cada receio, porém, há a saudade do “respeito”, verbalizada por Roberto Guilherme. “Qualquer improviso será castigado”, sentencia o sempre lúcido Paulo César Pereio. Para cada Pereio, no entanto, existe um Boni, temeroso da implantação de uma “república socialista” no Brasil.

Criando uma falsa simetria entre a violência de Estado e a violência do humor, o filme parece escusar qualquer ação repressiva. Na visão de Boni, um dos grandes “narradores” da história, eram dois lados em disputa. Carlos Alberto de Nóbrega chega mesmo a afirmar que “quem não era comunista era mal visto no meio artístico”. Nesse campo de batalha, o chumbo não passa de munição para as armas da comédia. A sátira política se torna muito mais difícil durante a democracia, lamentam os entrevistados.

Para além da problemática política, a grande falha do longa-metragem reside no recorte. Sua proposta – qual seja, a de falar sobre duas décadas em diversas mídias – soa hercúlea. Entre o jornalismo, o teatro, a televisão e o cinema, assuntos se apressam e pouco se desenvolvem. Em determinada sequência, por exemplo, inicia-se uma válida discussão sobre a representatividade feminina. Naquela época, segundo Fafy Siqueira, as mulheres se dividiam em dois estereótipos: a gostosa ou a feia engraçada. Limitada pelo tempo, porém, a abordagem não sai da superfície.

É então que o documentário caminha para seus último momentos. Com nítido preconceito de classe, confunde popular com popularesco e, ao fim, endossa todo o saudosismo anteriormente construído. “Este filme é dedicado a todos que nos fizeram rir quando a situação não tinha a menor graça”, estampa a hipócrita cartela de encerramento.

Findados os créditos, um trailer anuncia “Rindo à Toa – Humor sem Limites”, uma continuação sobre a comédia a partir de 1988. Alguma dúvida sobre a trilha musical? Ultraje a Rigor, claro. Julgado o primeiro segmento, dificilmente interessantes depoimentos e ilustrativas imagens – com um ótimo trabalho de animação dos cartuns, vale mencionar – compensarão o confuso e simplista discurso. Para a infelicidade do público, o trio de diretores formado pelo casseta Cláudio Manoel e pelos publicitários Alvaro Campos e Alê Braga pouca justiça faz à riqueza do material.

* O filme estreia dia 28, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Bretz Filmes

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Luiz Baez

Carioca de 23 anos. Mestrando em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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