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Crítica

Crítica: The Square – A Arte da Discórdia

A premissa de “The Square – A Arte da Discórdia” chega a ser curiosa, já que a produção dirigida por Ruben Östlund discute, entre outros temas, o mercado artístico em nossa sociedade contemporânea. Aqui, em especial, da dita abstrata, aquela em que os significados nem sempre são claros. A curiosidade se dá pelo fato do próprio filme e muitos outros do circuito alternativo fazerem parte desse tipo de arte. O dito cinema de arte é, em muitas vezes, mais difícil de ser compreendido pelo público do que as complexas instalações em museus pós-modernos.  Claro que esse tipo de cinema é reservado aos cinéfilos “intelectuais”, que conseguem ler nas entrelinhas as mensagens dos cineastas, também providos de muita massa cinzenta. O roteiro de “The Square – A Arte da Discórdia” também tira sarro dessas pessoas que são os “entendedores” e os “construtores” culturais. É engraçado, mas também desconfortavelmente trágico.

A Palma de Ouro em Cannes não foi desperdiçada com essa produção que tem um diretor já conhecido no circuito por causa do excelente “Força Maior”. Östlund segue o estilo satírico, que faz o espectador rir mesmo sabendo que algo fora do que podemos julgar como ético está acontecendo. A trama acompanha um gerente de museu que usa de todas as armas possíveis para promover o sucesso de uma nova instalação. Entre as tentativas para isso, ele decide contratar uma empresa de relações públicas para fazer barulho em torno do assunto na mídia em geral. A burguesia europeia é retratada de forma degradante pelo roteiro, já que é ela que financia as caras exposições no museu, ao mesmo tempo em que ignora de forma contundente os miseráveis imigrantes à sua volta. As sequências que mostram as exposições ou mesmo a visita das pessoas ao museu evidenciam a completa ignorância de todos em relação às obras.

Em um dos momentos mais marcantes há a performance de um ator durante um jantar de luxo. Ele praticamente incorpora um gorila e passeia no meio dos convidados. Como um animal selvagem, avança de forma violenta contra as pessoas nas mesas e assedia as mulheres. Depois de um grande desconforto, é atacado por vários convidados, imitando assim as relações de luta por sobrevivência dos símios nas florestas. O ser irracional dentro daquele dito civilizado é o que toma conta, mesmo que objetos de luxo estejam adornando-o. A alma das obras se perde quando aqueles que as observam são nada mais que selvagens.

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O elenco é encabeçado pelo fantástico Claes Bang, como Christian, o curador do museu. Um homem elegante e sofisticado que acusa falsamente um garoto imigrante de ladrão e não possui a honra de se desculpar. Há também Elisabeth Moss, uma jornalista que tem um caso com Cristian e Dominic West como um artista de renome. Os dois últimos possuem papeis pequenos mais de grande importância para a trama já que são degraus que os roteiristas usaram para contextualizar as situações.

Provavelmente o mais importante em relação às pretensões do roteiro seja a constatação de que a arte apenas serve para mascarar uma classe dominante que usa de sua falsa cultura para manter o status quo. O niilismo de suas vidas esta impressa em esculturas e pinturas que eles realmente não entendem, mas que apreciam e financiam por excesso ou soberba. Talvez, contudo, a análise possa ter caído na armadilha dos realizadores e esteja apontando significados falsos em pedaços de filme. Os entendedores em forma de críticos podem estar enganados e há alguém rindo em suas constas. Rindo sobre sua ignorância burguesa sem sentido e a convicção de ter visto muito onde não existia nada, ou mesmo os vendo fora do lugar.

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Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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