Crítica: Trama Fantasma

A primeira vista, “Trama Fantasma” parece ser um filme quase biográfico sobre algum poderoso estilista da década de 50 e seu grande amor. Tudo parece ser encaixar, mas não cola de forma correta e esse é o maior acerto do diretor e roteirista Paul Thomas Anderson.

No filme, nós acompanhamos o sistemático Reynolds Woodcock, responsável por vestir a alta sociedade européia, desde rainhas à mulheres muito ricas. Apesar de sua discrição na vida pessoal, ele pula de romance em romance, nunca se casando e se interessando por Alma apenas momentos depois de dispensar sua última namorada – não pessoalmente, deve-se ser notado, quem fica com essa tarefa é a sua irmã e braço direito, Cyril.

Alma vira a musa de Reynolds, desfilando e servindo como costureira para ele. Tudo parece quase beirar o clichê apaixonado, exceto pelas idiossincrasias que envolve os personagens. Ele é egocêntrico, Cyril tem sua vida totalmente vivida para o irmão e Alma – que parece ser apenas uma jovem doce e ingênua, mas esconde uma personalidade quase psicopata.

Não há muitas pessoas que conseguem criar um texto tão bem montado e dirigi-lo com a mesma excelência. Em algum momento, uma das duas unidades pode se quebrar, mas não é o que acontece aqui. Há que se ter paciência: as cenas são criadas pouco a pouco, a ação acontece de modo sequencial. Uma coisa puxa a outra como deveria ser realmente e tudo acaba funcionando maravilhosamente bem.

Anderson faz desse filme algo sutil, mas intrínseco. Quando você finalmente consegue perceber Alma, a história dá um giro, entretanto isso não significa que se tornará mais compreensível. É bem possível que o espectador termine o filme com uma forte sensação de que há algo muito errado não com os personagens e isso acabe perpetuando pensamentos sobre o longa por um bom momento.

A bem verdade, nada disso seria possível se não fosse o elenco principal. Dizer que Daniel Day-Lewis como o protagonista masculino está em seu melhor momento é pífio. O ator é sinônimo de talento e trabalho bem feito em qualquer situação, independentemente do longa. É tão crível o que ele faz como personagem que qualquer elogio é pouco. A quase desconhecida e talentosa Vicky Krieps dá o tom correto para Alma, que passeia por várias facetas desde a mocinha apaixonada até a namorada ciumenta e uma mulher obsessiva e manipuladora que pode ser extremamente perigosa sem deixar de lado sua aparência sutil. E para concluir temos Lesley Manville, com uma figura imponente, rígida e durona interpretando Cyril, que às vezes serve de consciência e outras parece apenas ser um manual de instruções ambulante, sempre andando na etiqueta, nunca sendo verdadeiramente rude, sempre na linha tênue entre a falta de respeito e um comentário mais ácido.

Fotografia e sonoplastia funcionam de forma excelente no filme, que é ambientado na década de 50. Há aquele charme que filmes como esse costumam retratar, e por ser um filme que se passa nos bastidores do mundo da moda figurinos também brilham, ainda que sejam um coadjuvante, mas daqueles bem importantes.

Paul Thomas Anderson fez uma grande obra com “Trama Fantasma”. É uma produção com drama e suspense certo para suas reviravoltas. Não é atoa que na surdina ele foi indicado seis vezes ao Oscar, inclusive por melhor filme e melhor diretor, além de melhor ator, Day-Lewis, melhor atriz coadjuvante, Manville, figurino e trilha sonora original. Ficou faltando roteiro e melhor atriz para Krieps.

O filme estreia dia 22 de fevereiro em todo Brasil.

Crítica: Trama Fantasma
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