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CríticaFilmes

Crítica: Um perfil para dois

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
8 de novembro de 2017 3 Mins Read

23119919 1760419420919131 4882709199172934145 oMuito já se explorou no cinema a relação entre pessoas e tecnologias. De clássicos como “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (Stanley Kubrick, 1968) ao recente “Ela” (Spike Jonze, 2013), alguns filmes contribuíram significativamente para as discussões sobre os impactos socioculturais das inovações. Outros, no entanto, pouco acrescentaram ao debate, com abordagens reducionistas. “Um perfil para dois” (Un profil pour deux), por mais que se assuma antes como uma obra voltada para o entretenimento do que como um comentário sobre nosso mundo, repete tanto em sua forma quanto em seu conteúdo o conservadorismo de quem vê a realidade sob um olhar dicotômico. Traça oposições simplistas entre virtual e real, aparência e essência, sem proporcionar ao seu público qualquer deslocamento ou saída do status quo.

Nessa comédia romântica coproduzida por Áustria, França, Bélgica e Alemanha, o senhor de 80 e poucos anos Pierre Stein (Pierre Richard, experiente ator vencedor de um César honorário em 2006) aprende a mexer no computador com a ajuda de Alex (Yaniss Lespert, mais conhecido na França pela série televisiva “Fais pas ci, fais pas ça”), sem saber que ele é na verdade namorado de sua neta, Juliette (Stéphanie Crayencour, de “O Amor de Astrée e Céladon”). Recluso após a morte de sua esposa, Pierrot – pseudônimo que usa online – decide então entrar para um site de relacionamentos usando a foto do jovem e oferece-lhe dinheiro para ir em seu lugar nos encontros.

O roteiro construído a partir dessa premissa confia na diferença geracional e nos estereótipos associados aos idosos para criar um humor raso e forçado. Quando tenta ir além e imprimir carga dramática às situações vivenciadas pela dupla, adota postura conivente com os desvios de caráter de seus protagonistas, que, visando interesses próprios, manipulam-se um ao outro e objetificam as mulheres com que se relacionam. A incipiente representação de Pierre como um voyeur e a consequente associação dessa condição ao lugar do espectador são poucos dos acertos de Stéphane Robelin (“E se Vivêssemos Todos Juntos?”), roteirista e diretor do filme. 

23119985 1760419414252465 8652759553830655402 o

Se a narrativa não traz inovações para um tema já amplamente tratado no cinema, tampouco o fazem as imagens. A escolha por filmagens em película para marcar a diferença entre as vivências de Pierre e Alex só reforça as associações fáceis entre senioridade e tradição e juventude e inovação. No mais, a fotografia Priscila Guedes limita-se a servir à história, de início situando a cidade onde acontece – Paris, representada pelo ícone da Torre Eiffel – e depois apenas decupando os diálogos. Um plano interessante (foto acima), contudo, aparece na parte final do longa-metragem e assemelha-se ao cartaz: Pierre está entre Alex e Flora (Fanny Valette, indicada ao César em 2006 como atriz mais promissora por “La petite Jérusalem”), mulher que conhece online, e os observa, exercitando sua condição de voyeur.

Apesar de um roteiro repleto de lugares comuns e de uma fotografia pouco inspirada, a experiência de assistir a “Um perfil para dois”, por fim, torna-se minimamente agradável por conta das atuações. A espontaneidade e a química de Richard e Lespert transparecem na tela, e os coadjuvantes não deixam a desejar. Mesmo as personagens femininas, escritas de forma bidimensional, crescem graças a boas atrizes. A competência do elenco, contudo, não é o suficiente para mudar a impressão geral sobre o filme: fácil de ver, porém igualmente fácil de esquecer logo após a sessão.

* O filme estreia dia 9 de novembro, quinta-feira.

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CinemaComédia RomânticaFrançaInternet

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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