Paulinho da Viola revisita sua trajetória em “Quando o samba chama”, unindo tradição, poesia e emoção em um espetáculo de apuro raro
Na noite de 18 de abril, o Qualistage recebeu Paulinho da Viola em um espetáculo que reafirma sua posição como um dos grandes arquitetos da canção brasileira. “Quando o samba chama” se constrói como uma travessia afetiva por quase seis décadas de obra, marcada pela delicadeza, pela poesia e por uma relação profunda com a tradição do samba.
A apresentação começa de forma impactante. O palco ainda escuro ganha vida com um céu estrelado projetado no telão, enquanto Paulinho surge em cena. É nesse clima contemplativo que ele inicia “Quando bate uma saudade”, costurando em seguida “Nas ondas da noite”. Durante esse primeiro bloco, nomes fundamentais do samba aparecem na tela, como se fossem constelações guiando o percurso do artista. Ao fim, uma lua imensa ocupa o fundo do palco, encerrando a abertura com um senso de permanência e memória.
A banda que o acompanha, formada por Celsinho Silva na percussão, Ricardo Costa na bateria, Lucas Porto no violão, Matias Corrêa no baixo e violoncelo, Mário Sève nos sopros e Adriano Souza no piano, sustenta o espetáculo com precisão e sensibilidade. Nada sobra, nada falta.
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O roteiro avança com “Onde a dor não tem razão” e “Argumento”, recebidas com entusiasmo por uma plateia que canta junto, sem exageros, como quem participa de um ritual. Em “Coisas do mundo, minha nega”, Paulinho se senta, pega o violão e estabelece um momento de maior intimidade. A partir daí, o show parece desacelerar propositalmente, mergulhando em canções como “Para um amor no Recife”, “Dança da solidão” e “Vela no breu”, onde o tempo ganha outra espessura.
Os recursos visuais seguem dialogando com o repertório. Em “Pra jogar no oceano” e “Timoneiro”, o telão exibe um barco singrando o mar, evocando uma atmosfera de travessia em águas abertas, com uma sensação contemplativa que atravessa as duas canções.
Um dos pontos altos da noite acontece com a entrada da cantora Beatriz Rabello. Ao lado do pai, ela inicia “Na linha do mar”, evocando a presença de Clara Nunes. Em seguida, Beatriz assume o protagonismo em “Não é assim” e conduz uma homenagem emocionante a Dona Ivone Lara, interpretando “Mas quem disse que eu te esqueço” e “Enredo do meu samba”, enquanto a imagem da compositora ocupa o fundo do palco. É um momento de continuidade e reverência, em que gerações se encontram sem esforço.
Com a saída de Beatriz, Paulinho retoma o centro da cena em “Coração imprudente” e, na sequência, presta tributo a nomes que moldaram sua formação. “O sol nascerá”, de Cartola, surge com delicadeza; “Portela feliz”, de Zé Keti, reforça a conexão com a escola que sempre esteve em seu horizonte; e “Passado de glória”, de Monarco, reafirma esse elo com a tradição portelense.
Na sequência, ele interpreta “Pecado capital”, enquanto o telão exibe uma imagem de sua juventude à época do lançamento da canção, ampliando o diálogo entre memória e presente.

Já de pé, Paulinho canta “Coração leviano” e, em seguida, “Foi um rio que passou em minha vida”, antes de deixar o palco sob aplausos intensos, mas sem qualquer sensação de encerramento definitivo. O bis vem como uma extensão natural da noite. Em “No pagode do Vavá”, o clima se torna mais leve, mais próximo da roda de samba. Beatriz retorna para “Devagar miudinho”, e é nesse momento que Paulinho, com a elegância de sempre, arrisca alguns passos de samba, arrancando uma reação imediata e calorosa da plateia.
Amparado pela poesia e pela elegância que marcam sua trajetória, “Quando o samba chama” reafirma o essencial: a força de um repertório que atravessa o tempo, a presença de um artista que nunca precisou elevar a voz para ser ouvido e a permanência de uma tradição que segue viva, reinventada a cada encontro com o público.
Imagem Destacada: Divulgação/Woo! Magazine (Fotografia: Thiago Sardenberg)
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