Crítica: Uma Dobra no Tempo

O livro Uma Dobra no Tempo parece ser uma daquelas obras escolares que diversas crianças dos EUA precisaram ler em algum momento do ensino fundamental. Só por este fato, já seria extremamente difícil adaptar um material tão amplamente conhecido e interpretado para as telas do cinema popular mundial.  Embora muitas das críticas americanas sobre o filme cheguem a apontar esta dificuldade como grande defeito, a verdade é que os maiores problemas estão na maneira como o roteiro se acomodou com as próprias escolhas, renegando-as em favor de resultados grandiosos. Uma abordagem contraditória, com certeza. A execução inspirada de Ava Duvernay não é o suficiente para o salvar Uma Dobra no Tempo e seu roteiro cheio de pretensões, porém pouco ambicioso.

No entanto, mesmo que a direção busque constantemente enaltecer os momentos de inspiração e emoção, muitos destes acabam soando vazios perante uma construção dispersa e uma narrativa frustrantemente irregular em questão de ritmo. O tom parece ser um problema muito mais claro do que qualquer outro. A começar pela trilha sonora, onde algumas escolhas bem equivocadas de pós-produção optaram por preencher as cenas com músicas “pop” que não apenas destoam, como também distraem o espectador. Outro agravante é que o senso de urgência é mal exposto, além de mal construído. São poucos os obstáculos vencidos com alguma sensação genuína de superação entre os personagens, e a ameaça sem nome que permeia a trama é subjetiva demais para proporcionar um clima de tensão gritantemente necessário durante o terceiro ato.

Pouco pode se dizer sobre o trio de personagens infantis. Storm Reid, que dá vida a Meg Murry, segura bem o papel principal com a determinação de sua personagem, e Levi MIller com seu Calvin O’Keefe segue de acordo com aquilo que o roteiro lhe proporciona: ser um coadjuvante carismático. Deric McCabe rouba diversas cenas como irmão mais novo Charles Murry, que é um “jovem prodígio”. Um arquétipo batido, porém funcional. O trio de figuras fantásticas (composto pelas personagens de Oprah WInfrey, Reese Whiterspoon e Mindy Kaling) serve, na maior parte, como meios convenientes de avançar a trama e alívios cômicos pontuais. Chamativas e carismáticas, infelizmente nunca alcançam todo o seu potencial de deslumbramento.A grande parte dos méritos de “Uma Dobra no Tempo” está no trabalho visual vibrante que permeia o segundo e o terceiro ato, conforme os personagens viajam por dimensões peculiares e pouco contextualizadas. Se algo de bom veio desta falta de contexto, foi a liberdade para criar cenários excêntricos (ótimos para serem usados em trailers e materiais promocionais, diga-se de passagem).

Ao fim, “Uma Dobra no Tempo” atinge um meio termo frustrante. É incompreensível e arrastado demais para crianças, ao mesmo tempo em que consegue ser “bobo” e superficial demais para ser aproveitado por adultos. A culpa pode ser da inexperiência de Duvernay com este tipo de história, da complexidade que o material original aparentemente apresenta, ou simplesmente de um roteiro mal balanceado. De qualquer forma, a Disney precisa começar a olhar para seus live-actions fantásticos (fora do universo Marvel) com mais carinho e atenção antes de pensar em como vendê-los.

Como nota positiva é preciso dizer que Ava Duvernay, responsável anteriormente por Selma”, “A 13ª Emenda e a série “Queen Sugar”, assumiu a direção em seu primeiro projeto de grande orçamento e se aventurou também pela primeira vez por uma história muito mais fantasiosa do que costuma trabalhar. Ela é parte de um movimento de diretores que impulsionam a inclusão e a diversidade de talentos. Evidentemente que a possibilidade de tornar a história um tanto mais representativa foi parte do apelo para assumir o projeto e nesse quesito obteve grande sucesso.

 

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