Crítica: Uma Família de Dois

Roteiro falha ao apresentar personagens rasos e sem coerência

“Uma Família de Dois” nos brinda com uma história sobre relacionamentos e laços familiares que supostamente tem a intenção de ser emocionante, mas erra na medida do açúcar e acaba se perdendo nas incoerências do roteiro. O filme, que estreou nessa quinta-feira (29/06), conta com o carismático ator Omar Sy, de “Intocáveis”, e apresenta a história de Samuel (Omar) que vive uma vida sem vínculo e sem grandes responsabilidades à beira-mar no sul da França. Tudo vai bem até que sua ex-namorada o procura e deixa aos seus cuidados um bebê de poucos meses, sua filha Glória (Gloria Colston), que ele não sabia da existência. Logo, a vida de Samuel vira de ponta cabeça. Ele se vê incapaz de cuidar de uma criança e, determinado a devolver a criança, viaja para Londres para tentar encontrar a ex. Sem sucesso é obrigado a aventurar-se no desafio de ser pai. Oito anos depois, Samuel e Glória tornaram-se inseparáveis. A mãe de Glória então retorna para recuperar a filha.

Filmado na França e na Inglaterra, “Uma Família de Dois” fez parte da programação de 2017 do Festival Varilux de Cinema Francês e é um remake da comédia dramática “Não Aceitamos Devoluções” (2013), do espanhol Eugenio Derbez.

A primeira parte do remake nos bombardeia com informações e mensagens duvidosas, o que nos faz questionar o roteiro. O problema é que é difícil acreditar numa mudança repentina de um personagem que vai de irresponsável a pai do ano em tão pouco tempo. A forma com que o roteiro de Mathieu Oullion e Jean-Andre Yerles nos mostra Samuel, um homem disposto a se livrar rapidamente de uma criança para que possa voltar ao sua vida normal e que rapidamente se transforma numa pessoa pronta a cuidar e assumir todas as responsabilidades de criar um filho, é duvidosa. Fica a sensação de que era necessário mostrar muito mais do que apenas a legenda “oito anos depois” para acreditarmos nessa transformação do personagem central.

O mesmo acontece com Kristin Stuart (Clemence Poesy), uma jovem mulher, completamente irresponsável, que um dia resolve simplesmente largar a filha nos braços de um estranho que nem sabia de sua existência e que, de repente, oito anos depois, reaparece para resgata-la. E o pior (spoiler alert), ela reaparece enlouquecida e leva o caso de guarda da menor aos tribunais obstinada a tirar a filha dos braços do pai. As incoerências são muitas: Samuel, que no início do filme não sabe falar inglês e se recusa a aprender o idioma, oito anos depois, mesmo morando em Londres, (acreditem) ele ainda não aprendeu! Por outro lado, Gloria, apesar de supostamente ter crescido em Londres com seu pai francês ao lado e de frequentar uma escola francesa, apresenta um sotaque americano.

O diretor Hugo Gelin, porém, aposta no carisma de Omar e Gloria. A química entre os atores Omar Sy e Gloria Colston é visível e verdadeira. E é essa química que segura nossa atenção na telona.

As cenas que mostram a relação entre Sam e Gloria no meio do filme são emocionantes apesar de se aproximarem de um comercial de margarina. É tudo tão perfeitamente coreografado e cheias de fofura entre pai e filha. Apesar do carisma inquestionável dos dois, infelizmente nunca chegamos a conhecer os personagens como pessoas normais com sentimentos reais além dos seus respectivos papéis dentro dessa família. Porém, apesar disso, o filme, que começa com clichês de comédia se transforma em uma reflexão sobre a paternidade.


Por Thiago Pach

Crítica: Uma Família de Dois
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