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Crítica: Vende-se Esta Moto

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
4 de setembro de 2018 3 Mins Read
“O fardo da vida é o amor.”
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Vestida com penas negras, uma excêntrica figura versa sobre o amor. Como um anjo da morte, o narrador acompanha a história de Xéu e Lidiane, protagonistas de “Vende-se Esta Moto”. De mero observador, no entanto, o poeta punk converte-se em personagem. Um fortuito encontro na boemia da Lapa concretiza, assim, a promessa encarnada pela singular aparição. Trovador do caos, o sombrio profeta não falha, pois, em cumprir a destruição premeditada.

Marcus Faustini, diretor do longa-metragem, inspirou-se em seu livro Guia Afetivo da Periferia (2008). O roteiro, escrito por ele, pretende, desse modo, resgatar a flânerie da obra literária. Nesse sentido, a cartela inicial já anuncia um olhar atento para os espaços urbanos. “Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve”, sintetiza a citação do italiano Italo Calvino. Faustini prossegue, então, na tentativa de cartografar territórios marginalizados do Rio de Janeiro. O Complexo da Maré, por exemplo, apresenta-se como uma “nova Copacabana”, onde se “tem de tudo”, até yakisoba. Do outro lado da cidade, as filmagens do Jardim Batan, na Zona Oeste, contestam as representações unívocas de tráfico e violência. A Lapa, centro da capital, possibilita, por último, os mais diversos encontros. É lá, portanto, que narrador e personagens aproximam-se pela primeira vez.

Nesse momento, Silvio Guindane (“Como É Cruel Viver Assim”) rouba a cena. Intérprete do poeta punk, o ator carioca encarna com intensidade a rebeldia de um marginal. Mesmo que decisiva, sua participação tardia não justifica, contudo, toda a narração em voice-over anterior. O filme parece, com isso, dividir-se em três pretensões: o discurso sobre a cidade, o lirismo do trovador e, por fim, o triângulo amoroso central. Quanto a este, o roteiro constrói uma narrativa linear sobre o interesse de Cadu (Vinicius de Oliveira) por Lidiane (Mariana Cortines), namorada grávida de seu primo, Xéu (João Pedro Zappa). Privilegiado por Faustini, esse convencional enredo demove a força dos demais objetivos.

Uma figura secundária, porém, chama a atenção. Seu Julio (Guti Fraga), pai de Lidiane, escreve poesias e incentiva a leitura de Xéu. Em relação indireta, oferece, logo, contraponto ao narrador, poeta da morte. O embate entre os dois líricos, ainda que pouco explorado, metaforiza a condição própria aos protagonistas, caracterizada pela dinâmica entre a preservação e a destruição. Não é à toa a escolha do título “Vende-se Esta Moto”. Para perpetuar a vida – pagar o enxoval do bebê -, Xéu precisa antes passar por uma morte simbólica – vender as peças de sua moto.

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Outro momento de destaque, uma sequência acompanha Xéu na busca por um emprego. Aguardando entrevista em um escritório no centro da cidade, ele recebe um formulário de inscrição. Solicita, então, uma caneta, pedido prontamente rejeitado pela secretária, que o acusa de despreparo. Contra as expectativas, a seguir, os concorrentes oferecem-lhe as suas. Um deles até mesmo o informa sobre uma vaga aberta em sapataria próxima. Embora caricata, a inesperada solidariedade empresta esperança a uma história de traições.

Depois de vencer o Prêmio Especial do Júri na Mostra Novos Rumos do último Festival do Rio, a estreia de Marcus Faustini passou, ainda, na Mostra Cavídeo 21 Anos antes de chegar ao circuito comercial. Apesar de não cumprir plenamente a proposta cartográfica, “Vende-se Esta Moto” acerta, enfim, ao não reduzir seus lugares às representações estereotípicas.

* O filme estreia dia 6, quinta-feira.

Sinopse
Prós
Contras
5
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Tags:

Cinema BrasileiroCinema IndependenteDramaFestival do RioFestival do Rio 2017Festival do Rio 2018Rio de Janeiro

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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