Crítica: Wheelman

Desde que Steve McQueen desceu as colinas de São Francisco com seu Mustang em alta velocidade em “Bullitt” (1968), filmes sobre carros e perseguições se tornaram um sucesso de público e praticamente viraram seu próprio gênero. Nos anos 2010, esse subgênero continua forte, com várias continuações de “Velozes e Furiosos”, além de produções aclamadas como “Drive” (2011) e “Em Ritmo De Fuga” (2017). Mais semelhante a esses dois últimos, pelo menos em relação à premissa, surge Wheelman, produzido e lançado em 2017 pela Netflix.

A trama é sobre “wheelman” (Frank Grillo), um motorista de fuga que, após ser enganado em um assalto a banco, se encontra em um impasse entre dois chefes de gangue que querem o dinheiro que está no seu carro. Ele deve, então, descobrir o que aconteceu e o que fazer para sair dessa situação, sem por a sua família em perigo.

A história se passa quase toda dentro do carro, e a direção, do estreante Jeremy Rush, é bem sucedida em transmitir isso de maneira estilizada, já que a câmera nunca se afasta do veículo. Desse modo, cenas de diálogo são vistas com planos mais fechados, contidos nos bancos da frente, enquanto as cenas de ação são mostradas pelas janelas e através de planos “subjetivos” do automóvel, quase como se ele fosse um personagem e o filme se passasse no seu ponto de vista.

Rush também usa de muitos planos diferenciados, como planos zenitais e close-ups, para evitar que o espaço limitado da produção se torne cansativo. Enquanto esse estilo funciona na maior parte – principalmente em cenas como a introdução do filme, que é vista do banco de trás, em um plano longo – em certos momentos sua montagem pode ser confusa, como a sequência de planos detalhes que servem para mostrar que o protagonista é um bom motorista, mas que não mostram claramente o que ele está fazendo, tornando essa habilidade mais uma qualidade informada do que realmente vista.

A fotografia também consegue lidar bem com a falta de locações do longa, mantendo-se minimalista e utilizando muito bem do espaço para priorizar o diálogo, que é quase sempre entre o protagonista e seu celular. Por exemplo, em uma cena na qual “wheelman” descreve para sua filha onde achar as chaves do carro, o único elemento em foco é o próprio personagem, com os demais sendo apenas borrões escuros, o que transporta o telespectador para a situação que ele descreve.

Por mais que o roteiro, assinado também por Rush, ainda tenha um pouco de tensão e mistério, os desenrolares da trama são previsíveis e apresentam algumas incongruências, como o plano final do protagonista que, em retrospectiva, não faz muito sentido. Outro ponto que poderia ser mais explorado é a relação do “wheelman” com sua filha, que se torna uma parte central da história no último ato, mas tem pouco preparo antes – frases que começam com “o que eu sempre costumo te dizer?” são mais efetivas quando de fato já foram ditas antes no filme.

Frank Grillo, porém, consegue carregar bem a produção que, quase o tempo todo, consiste no ator falando sozinho enquanto dirige. Às vezes sua performance perde a naturalidade pela falta de alguém com quem contracenar, mas quando finalmente interage com outros personagens, não deixa nada a desejar. O elenco também tem atores como Shea Whigham (Death Note”) e Garret Dillahunt (“Onde Os Fracos Não Tem Vez”) em papeis menores, mas que são bem caracterizados o suficiente para serem memoráveis.

“Wheelman” pode não ter uma história muito complexa, mas compensa a simplicidade e as limitações de seu roteiro com uma direção criativa e diferenciada, que nunca deixa o filme cansativo. Apesar de alguns problemas de roteiro e montagem, a produção se mostra competente e é uma boa adição a esse subgênero que continua surpreendendo quase 50 anos após sua criação.

Crítica: Wheelman
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