Ele costumava levar sempre consigo papel e caneta… pelo sim (pelo não) das epifanias. Acontece, porém, que epifanias são seres traiçoeiros e sempre atacam quando suas vítimas estão desprevenidas.  Hoje, domingo de carnaval, sem papel e sem caneta, Pierrot foi mordido.

Não há cura, nem volta. E em sua cabeça marcas que ficarão para sempre!

Essa alegria triste e solitária que se dá durantes esses dias, podem servir como personificação de um vazio latente e castrado durante outros “trezentosesessentaeum” dias no ano. Quatro dias para matar a fome, quatro dias para sorrir, quatro dias de portais abertos. De quatro onde tudo se ganha e nada se perde.

E ao seu lado, Arlequim dorme. O balançar do ônibus é canção de ninar.

Arlequim e Pierrot perderam-se de Colombina. Na rua, rostos e corpos se encostam e se completam em um encaixe que não faz sentido. Colombina, vestida de baiana, foi embora com um King Kong qualquer e não olhou para trás. O carnaval não tem que fazer sentido.

Pierrot foi a risada de Arlequim, Arlequim foi a lágrima de Pierrot.

Colombina nunca mais foi vista.

No meio da confusão de felizes foliões, Pierrot tem como consolo o vento que lhe toca o rosto. Vento que entra pela fresta da janela enquanto a canção de ninar o leva para casa. Ele não acredita em felicidade pré-programada e dividida em apenas quatro dias.

Logo ele, que tem apenas quatro dias para ser lembrado.

Tentativas torpes de juntar os amigos, mas poucos foram os que responderam. Riu um riso que não era dele. Pulou para não sentir-se deslocado… na verdade era um exímio mentiroso para si mesmo. Encarou o passado nos olhos e chorou de nojo e fraqueza. Queria fugir do carnaval.

Não foi e teve sua paga!

E ao longe, como quem nada tem a ver com a história,

Quixote despertava de um sonho ruim.

Lumiar esperava visitantes que nunca chegaram.

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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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2 thoughts on “Crônica: O triste de fim de Pierrot (ou) Sanidade Quixotesca

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