Filme de Ilya Khrzhanovsky sobre o físico Lev Landau se destaca pela fotografia, pelas transições e pela reconstrução de época, mas exige disposição diante dos 217 minutos
Exibido no Festival do Rio 2026, “DAU” já deixa claro nos primeiros minutos que está longe de seguir o formato de uma cinebiografia tradicional. Dirigido por Ilya Khrzhanovsky, o longa acompanha o físico soviético Lev Landau, interpretado por Teodor Currentzis, passando por sua relação com a ciência, o ambiente político da época e uma vida pessoal bastante complicada.
São 217 minutos de filme na programação do Festival do Rio, além de um intervalo de 15 minutos durante a sessão. E a duração pesa. Existem momentos visualmente excelentes e uma curiosidade em descobrir até onde aquela história vai chegar, mas também há cenas e conversas que se estendem bastante. É uma experiência que exige disposição, principalmente porque o ritmo quase nunca tenta facilitar a vida de quem está assistindo.
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Ciência, política e as contradições de Lev Landau
Inspirado na trajetória de Lev Landau, vencedor do Nobel de Física em 1962, “DAU” passa por diferentes momentos da vida do cientista em meio a um ambiente soviético cercado por interesses políticos e militares. Sua carreira ocupa uma parte importante da história, mas o filme dedica bastante espaço ao homem que existia fora da ciência.
Sua vida amorosa, a maneira como enxergava os relacionamentos e sua defesa de uma liberdade sexual aparecem com frequência. As relações extraconjugais e os conflitos provocados por esse comportamento ajudam a construir alguém cheio de contradições. O mesmo homem brilhante dentro de sua área pode ser difícil de entender quando o assunto passa para suas escolhas pessoais.
Teodor Currentzis trabalha bem essas características. Sua interpretação não tenta tornar Landau especialmente simpático ou transformar suas atitudes em algo mais fácil de aceitar. O personagem pode ser inteligente, arrogante, curioso e complicado dentro de uma mesma sequência, e boa parte do interesse pela figura de Landau nasce justamente dessas mudanças.
Fotografia e transições chamam muita atenção
Visualmente, “DAU” tem alguns dos seus melhores momentos. A fotografia de Jürgen Jürges, Manuel Alberto Claro e Lol Crawley aproveita muito bem a iluminação, os movimentos de câmera e a composição dos ambientes. Existem enquadramentos muito bonitos, principalmente quando a câmera ganha espaço para acompanhar os personagens pelos cenários.
As transições foram um dos elementos que mais me chamaram atenção. Há um cuidado muito grande na maneira como uma cena termina e outra começa. A câmera atravessa portas, acompanha deslocamentos, utiliza pessoas e objetos dentro do quadro e encontra formas muito naturais de mudar de ambiente ou de momento da história.
Em um filme tão longo, esse recurso faz diferença. Algumas passagens são tão bem encaixadas que a mudança entre as cenas quase não é percebida. Em outros momentos, o próprio movimento iniciado em uma sequência parece continuar na seguinte. É um trabalho técnico muito bonito e que ajuda a dar alguma fluidez a uma história que, pelo ritmo, poderia ser ainda mais pesada.
A direção de arte de Denis Shibanov, Olga Gurevich e Boris Shapovalov acompanha o mesmo nível de cuidado. Cenários, figurinos, objetos e espaços são cheios de detalhes e ajudam bastante na ambientação. A sensação é de estar observando pessoas vivendo naquele período, algo que contribui para a imersão.
O problema aparece quando as cenas demoram a terminar
O trabalho sonoro também merece atenção. Passos, máquinas, conversas ao fundo, ruídos dos ambientes e momentos de silêncio ajudam a preencher os espaços e fazem com que o instituto pareça sempre vivo. Não é um som que tenta chamar atenção o tempo inteiro, mas está presente na construção daquele universo.
A direção de Ilya Khrzhanovsky mostra um cuidado enorme com a imagem e com a movimentação dos personagens. Só que esse cuidado vem acompanhado de uma paciência que nem sempre será compartilhada pelo público. Algumas conversas são longas, determinadas situações parecem continuar depois de já terem passado sua mensagem e existem trechos em que pouca coisa acontece durante bastante tempo.
A montagem de Ilya Permyakov e Rob Myers precisa lidar com uma quantidade enorme de material e encontra boas soluções, principalmente nas transições. Mesmo assim, não consegue impedir que certas passagens pareçam repetitivas. Com 217 minutos, qualquer cena que se estende além do necessário acaba pesando ainda mais.
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Quase quatro horas que exigem bastante do público
“DAU” é difícil de recomendar sem fazer algumas ressalvas. A fotografia é excelente, as transições são um dos grandes destaques, os cenários impressionam e existe um trabalho sonoro muito cuidadoso. Teodor Currentzis também sustenta bem um protagonista cheio de contradições. Há bastante coisa para admirar quando o olhar está voltado para a construção técnica.
O problema é chegar ao final sem sentir o peso dessas quase quatro horas. O ritmo lento e as cenas prolongadas tornam a sessão cansativa, principalmente nos momentos em que a história parece parar no mesmo ponto por tempo demais. O intervalo de 15 minutos ajuda, mas não muda a sensação de estar diante de um filme que exige muita disposição.
“DAU” tem imagens lindas, transições que realmente chamam atenção e uma reconstrução de época muito bem feita. Também é longo, denso e, em vários momentos, exaustivo. Quem espera uma cinebiografia convencional sobre Lev Landau provavelmente vai estranhar. Aqui, acompanhar a vida do físico é só uma parte de uma experiência bem maior — e que pede quase quatro horas de atenção para chegar até o fim.
Imagem Destacada: Divulgação/Festival do Rio



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