A personificação da “dumb blonde“, ou a loira burra em uma tradução literal, foi a imagem alinhada a atriz Marilyn Monroe, por praticamente todos os anos de sua curta vida, que acabou por conta de uma suposta overdose de medicamentos em agosto de 1962, quando ela tinha apenas 36 anos. No entanto, o personagem recorrente que interpretava nos filmes, ultrapassava as telas e esteva presente em toda sua vida pública: Marilyn o interpretava em entrevistas, testes de elenco, nas premieres, festas promovidas pelos estúdios e coletivas de imprensa. Foi com esta persona que alcançou o sucesso e marcou para sempre o seu nome na história do cinema e da cultura ocidental – mas, por trás de todo o glamour e sexualização que estava ligado o seu nome artístico, existia a verdadeira pessoa que raramente saia para os olhos do público, cujo nome era Norma Jeane Baker.

Nascida com o nome de Norma Jeane Mortenson, em 1 de junho de 1926, ela foi criada na cidade de Los Angeles, onde passou boa parte de sua infância em lares adotivos e sendo criada por amigos de sua mãe – que foi diagnosticada com esquizofrenia e passou toda sua vida em um hospital psiquiátrico. Com a doença de sua mãe e a identidade desconhecida de seu pai, Norma, acabou seguindo o padrão patriarcal da época, e casou-se pela primeira vez, aos 16 anos.

Com a ida de seu marido para guerra, em 1944, ela se mudou com os pais dele e começou a trabalhar em uma fábrica, onde conheceu o fotógrafo David Conover, que mudou a sua vida. Pouco depois de conhecê-lo, Norma já estava trabalhando como modelo para todos os fotógrafos do ciclo social de Conover, e seus contatos em Hollywood aumentavam cada vez mais. Por conta da sua sensualidade natural, ela logo foi escalada para as fotografias no estilo Pin Up, voltadas ao público masculino. Sua carreira como modelo crescia rápido, e até a primavera de 1946, já tinha estampado 33 capas de revistas.

Norma Jeane, 1946

Em todos seus trabalhos como modelo, utilizou o sobrenome Baker, que retirou do nome de casada de sua mãe. No entanto, após o seu primeiro contrato com a  20th Century Fox – o qual foi finalizado apenas para que ela não estampasse a capa de revista do estúdio concorrente RKO Pictures -, um excecutivo chamado  Ben Lyon deu-lhe o nome de Marilyn Monroe. O nome Marilyn foi inspirado em uma atriz da Broadway, chamada Marilyn Miller, e Monroe era o sobrenome de solteira de sua mãe.

Com o crescimento de sua fama, Norma pintou seu cabelo de loiro, no intuito de chamar mais atenção dos publicitários e separou-se de seu primeiro marido, no final de 1946. Porém, apesar de ter um contrato oficial com um grande estúdio, ela não tinha uma residência fixa e não participou de nenhum filme por anos. Para  pagar as contas, posou nua para algumas revistas masculinas. Questionada anos depois a razão de ter feito isso tão cedo, respondeu: “Eu estava com fome!”.

Sua carreira seria incerta por mais alguns anos e seus primeiros papéis foram conquistados com a ajuda de alguns executivos e donos de agência de atores com que Marilyn se relacionou. Um deles chamado Johnny Hyde, que pagou uma prótese de silicone em sua mandíbula e uma rinoplastia, para que conseguisse seu primeiro papel no filme Love Happy (1950).

Apesar das mudanças físicas, Norma Jeane, nunca fez a transição completa para a mulher que Marilyn era. No início dos anos 50, ela alcançou a fama mundial, fortuna e milhares de fãs, mas, ela nunca se recuperou dos traumas de infância e acumulava monstros interiores, como a mágoa que tinha da indústria cinematográfica pelos papéis de mulheres objetificadas que sempre a ofereciam, os 3 casamentos fracassos, os abortos espontâneos que passou, a esquizofrenia da mãe, a falta de uma figura paterna em sua vida e principalmente o medo aterrorizante que tinha de entrar em um estado constante de loucura. Por conta disso, frequentou diversos psiquiatras e passou algumas temporadas em clínicas especializadas em distúrbios mentais.

Marilyn era uma pessoa frágil,  que acumulou traumas e perturbações mentais causadas pelos episódios negros de sua vida e também pelos 3 abusos sexuais que sofreu em 3 lares adotivos diferentes que passou em sua infância. Além disso, pagou um preço muito alto para viver o seu sonho – sofreu manipulação de diversos homens poderosos do show business, que a viam apenas como um objeto sexual e uma fonte de publicidade e lucro.

Em uma de suas centenas de entrevistas, apesar de ter sido vítima e experimentado como nenhuma outra atriz o lado negro de Hollywood, Marilyn nunca se arrependeu de suas escolhas e sempre viu o cinema e a atuação como sua única fonte de clareza e real felicidade em sua vida: “Quando eu tinha cinco anos, eu acho, foi quando eu comecei a querer me tornar uma atriz. Eu gostava de brincar. Eu não gostava do mundo em torno de mim, porque era algo desagradável, e eu gostava de brincar de casinha. Era como se você pudesse criar seus próprios limites… Quando eu soube que estava atuando, eu disse que era o que eu queria fazer. Algumas das minhas famílias adotivas usavam o cinema para me tirar de casa, e lá estava eu sentada na frente daquela tela grande, sozinha, e eu amava”.

A indústria cultural fez fortuna com a vida atormentada de uma jovem que usava seu sonho como uma fuga de sua própria realidade insatisfatória – algo que muitos podem se identificar. Todavia, apesar das intenções mesquinhas e capitalistas por trás de sua imagem, a criação do mito de Marilyn Monroe, também pode ser considerado um tipo de milagre, que transformou a vida conturbada da jovem Norma Jeane, primeiramente em um nirvana, mas, que depois transformou-se em uma busca infindável, por uma espécie de oásis nas terras áridas da fama.

Por Thayane Maria