Da série que marcou a televisão nos anos 1980 ao reboot produzido pela The CW, a história dos Carrington ganhou uma nova versão sem abandonar a essência de sua trama
Quando “Dinastia” chegou à televisão em 1981, o público conheceu uma família milionária cercada por negócios, disputas, romances e conflitos pelo poder. Criada por Richard e Esther Shapiro e produzida por Aaron Spelling, a série original acompanhava principalmente os Carrington, uma poderosa família ligada à indústria do petróleo em Denver, no Colorado. Exibida pela ABC entre 1981 e 1989, a produção se tornou um dos grandes exemplos do chamado prime-time soap, formato que levava o melodrama e as grandes disputas familiares para o horário nobre da televisão americana.
Mais de três décadas depois, os Carrington voltaram à televisão. Em 2017, a The CW estreou um reboot de “Dinastia”, produzido pela CBS Studios em associação com a Fake Empire e desenvolvido por Josh Schwartz, Stephanie Savage e Sallie Patrick, com a participação dos criadores da série original, Richard e Esther Shapiro.
A nova versão manteve no centro da história a disputa entre os Carrington e os Colby, mas atualizou personagens, relações e conflitos para uma nova geração. Elizabeth Gillies assumiu o papel de Fallon Carrington, enquanto Grant Show interpretou uma nova versão de Blake Carrington. A produção estreou em 11 de outubro de 2017 e teve cinco temporadas, encerradas em 2022.
Assim, embora separadas por 36 anos, as duas versões compartilham personagens, famílias e conflitos que fazem parte da identidade de “Dinastia”. O reboot, porém, encontrou novas maneiras de apresentar esse universo ao público de seu tempo.
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Uma história que ganhou uma nova versão
A proposta da produção de 2017 não era simplesmente reproduzir a “Dinastia“ dos anos 1980. Antes de desenvolver o reboot, Josh Schwartz, Stephanie Savage e Sallie Patrick passaram um período discutindo o que havia tornado a série original tão marcante e quais elementos poderiam ser atualizados para 2017. Eles também conversaram com Richard e Esther Shapiro, criadores da produção original e produtores executivos do reboot.
Essa preocupação aparece na própria construção da nova série. Personagens conhecidos foram reinterpretados, relações familiares ganharam novas configurações e a história passou a acontecer em outro cenário. A intenção era preservar o espírito de “Dinastia”, mas permitir que os Carrington existissem em uma televisão diferente daquela dos anos 1980.
Um dos exemplos mais claros dessa atualização está em Fallon. Na visão de Josh Schwartz, a personagem original já tinha características que poderiam funcionar em 2017. A nova produção aproveitou essa personalidade para colocá-la ainda mais diretamente no centro da disputa familiar, ao lado de Cristal, formando uma das principais rivalidades do início da série.
A mudança também pode ser percebida na forma como a produção trabalha o luxo. Se a “Dinastia” original ficou conhecida pelo excesso de seus figurinos e pelo glamour de seus personagens, o reboot levou essa característica para uma estética contemporânea, incorporando grifes, peças mais modernas e referências aos anos 1980. A figurinista Meredith Markworth-Pollack explicou que o guarda-roupa de Fallon, por exemplo, foi construído com cores fortes, estampas marcantes e peças estruturadas, enquanto Cristal recebeu uma estética mais suave.

A abertura ganhou uma nova cara
A música de abertura de “Dinastia”, composta por Bill Conti para a produção original, ganhou uma nova versão no reboot de 2017. O conhecido trompete foi mantido, mas passou a aparecer acompanhado por uma batida mais percussiva e contemporânea.
O responsável pela nova versão foi o compositor Paul Leonard-Morgan, que trabalhou sobre o tema original para aproximá-lo da sonoridade da nova série. A versão mais curta chegou a ter apenas 15 segundos, refletindo também o formato mais rápido das aberturas de séries contemporâneas.
A ideia era preservar uma referência reconhecível da “Dinastia” original, mas dar à música uma identidade compatível com o reboot. Como explicou Paul Leonard-Morgan, o objetivo era levar o tema de Bill Conti para uma nova geração, mantendo sua essência, mas com uma sonoridade atual.
De Denver a Atlanta: uma nova casa para os Carrington
Uma das primeiras mudanças percebidas pelo público foi o endereço da família. Enquanto a “Dinastia” original era ambientada em Denver, no Colorado, o reboot produzido pela The CW levou os Carrington para Atlanta, na Geórgia.
A mudança não aconteceu apenas por uma questão estética. Sallie Patrick, showrunner da nova produção, explicou que Denver fazia sentido para a série original por sua ligação com a indústria do petróleo, enquanto Atlanta oferecia um cenário mais contemporâneo e diverso para a nova versão.
A escolha também foi comentada por Grant Show, intérprete de Blake Carrington. Em entrevista publicada em outubro de 2017, o ator foi questionado sobre a mudança de Denver para Atlanta e se os Carrington continuavam envolvidos com o setor petrolífero. A resposta foi direta:
“Ainda estamos na distribuição de petróleo, mas acho que Atlanta é um cenário melhor do que Denver porque Atlanta está realmente muito vibrante atualmente. Há um grande movimento cultural na cidade, um importante centro musical. A vida noturna é ótima e isso permite que muitas coisas mais extravagantes aconteçam na série” explica Grant Show.
A declaração ajuda a entender que a mudança não significou abandonar completamente uma das características da família. Os Carrington continuavam ligados ao petróleo, mas agora estavam inseridos em uma cidade que, na visão do ator, oferecia mais possibilidades para o tom contemporâneo e extravagante que a nova produção pretendia explorar.
Assim, Atlanta não serviu apenas como um novo endereço para os Carrington. A cidade também ajudou a estabelecer a identidade da “Dinastia” de 2017, que buscava se afastar visualmente da produção dos anos 1980 sem romper com o universo criado pela série original.

Fallon Carrington ganha uma nova dimensão
Fallon Carrington sempre esteve entre os personagens centrais de “Dinastia“, mas a versão de 2017 encontrou uma maneira de colocá-la ainda mais no centro da história. Interpretada por Elizabeth Gillies, a personagem ganhou uma personalidade marcada pela ambição, pelo sarcasmo, pela segurança e pela disposição de enfrentar o próprio pai quando seus interesses estavam em jogo.
Antes de assumir Fallon, Gillies já havia conquistado uma geração de adolescentes como Jade West, de Brilhante Victória (Victorious), personagem conhecida pelo humor ácido, pela personalidade forte e pela pouca paciência para levar desaforo para casa. Em “Dinastia“, algumas dessas características que o público já reconhecia na atriz permaneceram, mas ganharam outra dimensão. Fallon não era mais uma adolescente em uma escola de artes: era uma jovem adulta inserida no mundo dos negócios e determinada a conquistar seu espaço dentro do império da família.
Em entrevista à Paste Magazine, Gillies falou sobre a intensidade da personagem e sobre a quantidade de situações diferentes que Fallon precisava enfrentar em um único episódio. Ao explicar como era interpretá-la, a atriz disse:
“Eu tinha um roteiro na semana passada em que ela estava rindo em uma cena, chorando em outra, comandando uma reunião na sala de diretoria e, depois, sussurrando baixinho para um homem que ama antes de flertar com outro homem. Ela é exaustiva de interpretar, e digo isso da melhor maneira possível. Chego em casa completamente acabada, então nem consigo imaginar como ela faz isso todos os dias. Essa personagem é durona” afirma Elizabeth.
A atriz também fez questão de diferenciar Fallon de outras personagens de personalidade forte com as quais já havia sido comparada. Segundo Gillies, Fallon e Blair Waldorf, de “Gossip Girl”, por exemplo, são mulheres inteligentes e fortes, mas Fallon transmite uma maturidade diferente.
“Fallon provavelmente parece muito mais velha do que sua idade (…) ela se comporta como uma mulher de 60 anos às vezes e é uma mulher de negócios”, explicou Liz.
A própria Gillies ainda resumiu uma característica importante da personagem ao dizer que:
“Fallon está assumindo a personalidade incisiva de Alexis na série”.
A declaração ajuda a entender como o reboot reorganizou algumas características que pertenciam a diferentes personagens na produção original.
Duas Fallons, duas épocas
Na produção original, Pamela Sue Martin interpretou Fallon nos primeiros anos da série, enquanto Emma Samms assumiu posteriormente o papel. A personagem já era uma jovem herdeira dos Carrington, mas a Fallon de 2017 recebeu uma participação muito mais diretamente ligada aos negócios e à disputa pelo poder dentro da família.
A diferença não está apenas na personalidade, mas também no espaço que a personagem ocupa na narrativa. A Fallon de Elizabeth Gillies é apresentada desde o início como alguém que deseja ser reconhecida profissionalmente e que não aceita facilmente as decisões do pai, especialmente quando elas interferem em sua posição dentro da empresa.
O figurino virou parte da personagem
A personalidade de Fallon também ganhou uma tradução visual muito forte. O figurino da série se tornou um dos elementos mais comentados do reboot, com roupas sofisticadas, peças de grife, cores marcantes e produções diferentes praticamente a cada episódio.
A figurinista Meredith Markworth-Pollack explicou que Fallon se vestia principalmente para si mesma e que seu guarda-roupa era mais estruturado, com cores fortes, tons de joias e estampas chamativas. Entre as marcas utilizadas estavam Balmain, Saint Laurent, Marc Jacob e Alexandre Vauthier.
E Elizabeth Gillies reconheceu que o figurino de Fallon acabou influenciando sua própria relação com a moda. Em entrevista à Modern Luxury, a atriz contou que antes de “Dinastia” usava praticamente apenas preto.Depois de começar a interpretar Fallon, passou a experimentar mais cores e novas possibilidades.
“Fallon é praticamente destemida quando se trata de moda. Ela faz escolhas ousadas e assume grandes riscos. Eu nunca fui assim”, afirmou Liz Gillies.
Em outra entrevista, à Who What Wear, Gillies explicou ainda que “Fallon e eu temos gostos parecidos, mas ela definitivamente vai a lugares aos quais eu normalmente nunca iria na vida real” e acrescentou que a personagem influenciou bastante seu próprio estilo.
A quantidade de roupas também impressionava. Em entrevista à Fashion Week Daily, Gillies revelou que alguém chegou a contar seus figurinos e o número já estava “bem na casa das centenas”. Entre seus favoritos, ela citou o vestido preto e branco assinado pela marca de luxo “Thierry Mugler” do episódio piloto, que também funcionava como uma homenagem à “Dinastia” original.
O resultado foi uma Fallon que não dependia apenas de seus diálogos para chamar atenção. As roupas, a postura e a maneira como ela ocupava os espaços ajudavam a construir a personagem.
A personalidade forte que Elizabeth Gillies já havia demonstrado como ganhou, portanto, outra função. Em vez de desaparecer com a mudança de personagem, aquela energia foi transportada para uma mulher adulta, ambiciosa e inserida em uma disputa por dinheiro, poder e reconhecimento.

Krystle e Cristal: uma personagem que ganhou novos rostos
Na Dinastia original, Krystle Carrington, interpretada por Linda Evans, era a secretária que se apaixonava por Blake e entrava para a poderosa família Carrington. No reboot de 2017, a personagem ganhou uma nova identidade. Cristal Flores, interpretada inicialmente por Nathalie Kelley, foi apresentada como uma mulher de origem venezuelana que trabalhava na empresa de Blake e se tornava sua nova esposa.
A mudança não ficou apenas no nome. A nova “Dinastia” também transformou a relação entre a personagem e Fallon. Desde o início, Cristal e a filha de Blake entram em choque, criando uma das relações que ajudam a movimentar a primeira temporada.
Mas o reboot ainda reservaria uma particularidade para essa personagem: Cristal teria três intérpretes ao longo das temporadas iniciais.
Na primeira temporada, Nathalie Kelley interpretou Cristal Flores, personagem que posteriormente revelou ser, na verdade, Celia Machado, uma mulher que havia assumido a identidade de Cristal. Ao final dessa fase da história, uma nova Cristal foi introduzida.
Na segunda temporada, Ana Brenda Contreras assumiu o papel de Cristal Jennings, apresentada como a verdadeira Cristal. Já na terceira temporada, Daniella Alonso passou a interpretar a personagem, permanecendo no papel até o final da série.
Assim, embora a ideia de uma mulher ocupando o lugar de esposa de Blake permaneça como uma ligação com a Krystle da produção original, o reboot levou essa personagem por caminhos próprios. A troca de intérpretes acabou se tornando uma das características mais curiosas da “Dinastia” de 2017 e também um dos assuntos que marcaram a trajetória da série.

Novos rostos para uma velha família
O reboot também reinterpretou personagens conhecidos da produção original, mantendo algumas conexões com o passado, mas dando a eles novas identidades e relações.
Um dos exemplos mais evidentes é Sammy Jo. Na série original, a personagem foi interpretada por Heather Locklear. Em 2017, Sammy Jo passou a ser Sam Jones, interpretado por Rafael de la Fuente, um homem gay e sobrinho de Cristal. A mudança também transformou sua relação com Steven: os dois se envolvem logo no início da série e acabam se casando.
A nova configuração alterou completamente o lugar de Sam na história. Em vez de repetir a trajetória de Sammy Jo da produção original, o reboot o integrou ao núcleo dos Carrington por meio de sua família e de seu relacionamento com Steven. Mesmo quando Steven deixa a narrativa por um período, Sam permanece ligado à família e continua tendo espaço próprio dentro da trama.
Outro personagem que passou por uma transformação significativa foi Jeff Colby. Na produção original, ele era interpretado por John James. Em 2017, o papel passou para Sam Adegoke, e Jeff passou a fazer parte de uma família Colby negra, uma mudança que ampliou a representação de personagens negros dentro do universo de riqueza, negócios e poder da série.
A nova configuração dos Colby também permitiu que “Dinastia” apresentasse uma família negra ocupando uma posição de destaque dentro da elite econômica da trama, em igualdade de condições com os Carrington na disputa por influência e poder.

Jeff Colby também ganhou uma nova identidade
Outro personagem que passou por uma transformação significativa foi Jeff Colby. Na produção original, ele era interpretado por John James. Em 2017, o papel passou para Sam Adegoke, e Jeff foi reimaginado como um homem negro e integrante de uma poderosa família negra, os Colby. A mudança ajudou a ampliar a diversidade do universo de “Dinastia” e colocou uma família negra no mesmo espaço de riqueza, influência e poder ocupado pelos Carrington.
Para Sam Adegoke, essa representação tinha um significado especial. O ator destacou que Jeff era um personagem que ele raramente havia visto na televisão: um homem negro, jovem, inteligente e bilionário, inserido em um universo de luxo e grandes negócios. Em entrevista à PhotoBook Magazine, Adegoke afirmou que nunca havia visto na TV um personagem com esse perfil e ressaltou o potencial de inspirar jovens negros.
A importância da mudança estava também em mostrar uma família negra que não era definida apenas por dificuldades econômicas ou por histórias de superação. Os Colby já aparecem como uma família rica e influente, capaz de disputar espaço com os Carrington nos negócios e na sociedade. Para Adegoke, essa representação permitia apresentar personagens negros a partir de diferentes experiências e perspectivas.
A participação do ator ainda foi importante para construir a identidade cultural dos Colby. Sam Adegoke sugeriu que Jeff e sua família tivessem origem nigeriana, proposta aceita pela produção. A partir daí, o personagem passou a incorporar elementos da cultura iorubá, incluindo o uso da língua em algumas cenas ao lado de Cecil Colby, interpretado por Hakeem Kae-Kazim. Adegoke destacou que, até então, não havia visto a cultura nigeriana ganhar esse espaço em uma grande produção televisiva americana.
A mudança, portanto, foi além da escalação de um novo ator para Jeff Colby. O reboot transformou o personagem em uma oportunidade de apresentar uma família negra, rica e de origem nigeriana dentro do universo de luxo e poder de “Dinastia“, ampliando a representação da série sem retirar dos Colby sua função de família rival dos Carrington.
O luxo continuou, mas a estética mudou
Se existe um elemento que continua imediatamente associado a “Dinastia“, é o luxo.
A produção de 2017 preservou mansões, festas, roupas sofisticadas, joias, carros e o universo de riqueza que fazia parte da identidade da série. Ao mesmo tempo, o figurino ganhou uma linguagem contemporânea, com referências às grandes grifes e uma releitura da estética exagerada dos anos 1980.
Essa atualização visual ajudou o reboot a construir sua própria identidade. O objetivo não era fazer os personagens parecerem presos aos anos 1980, mas utilizar elementos reconhecíveis do clássico dentro de uma produção contemporânea.
Uma homenagem ao clássico sem repetir o passado
Mesmo com tantas mudanças, a versão de 2017 não rompeu completamente com sua antecessora. A produção incorporou referências à série original em personagens, situações, figurinos e outros detalhes, criando uma espécie de ligação entre as duas épocas.
A família Carrington continua cercada por dinheiro, poder, romances e disputas. O que muda é a época, o cenário e a forma como esses conflitos são apresentados ao público.
E é a partir dessa nova versão que a história dos Carrington ganhou novos personagens, romances, alianças e rivalidades um universo que ainda rende muitas histórias para conhecer.
Imagem destacada: Divulgação/The CW


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