Fjord,vencedor em Cannes, ataca o Estado de bem-estar social e poupa a igreja, em um dos filmes mais controversos da 50ª Mostra
“Fjord”, do celebrado cineasta romeno Cristian Mungiu, conquistou a Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes e chegou à 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como uma das maiores atrações do evento. Em todas as Mostras, a expectativa em torno de um Palma de Ouro é sempre elevada, e os filmes que ostentam esse “selo de qualidade” raramente decepcionam por completo, pois quase sempre reúnem virtudes estéticas e narrativas, ou abordam temas tão relevantes que se sobressaem. Quando todos os quesitos se alinham, costuma nascer uma obra-prima. No caso do longa de Mungiu (“4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, 2007), é possível apontar alguns acertos temáticos, mas também equívocos graves, sobretudo na narrativa, que tenta manipular o espectador para que ele endosse as opiniões dos realizadores.

Na trama, o romeno Mihai Gheorghiu (um irreconhecível Sebastian Stan) muda-se com a esposa norueguesa Lisbet (a sempre excelente Renate Reinsve) e os cinco filhos para uma pequena cidade da Noruega. Pouco depois da família se instalar e as crianças começarem a frequentar a nova escola, uma professora nota hematomas no corpo de uma delas e decide acionar o serviço de proteção à infância do país nórdico, já que as marcas podem indicar maus-tratos por parte dos pais, conforme as regras previstas para casos do tipo. Após a avaliação dos profissionais do governo, a investigação policial preliminar e o depoimento das próprias crianças, decide-se que elas serão encaminhadas a uma família de acolhimento até que os processos criminal e social sejam concluídos. A medida inclui o caçula, ainda bebê.
A partir dessa premissa, “Fjord” converte-se em uma peça contra o Estado norueguês (e o europeu em geral), construída por um Mungiu que, em sua visão, retrata um sistema xenófobo e antirreligioso. A maior parte dos artifícios do filme serve para transformar leis e regras estatais em vilãs, empenhadas em destruir famílias e interferir nas escolhas religiosas dos cidadãos, ditando o que é certo e errado, o que é cristão ou não. Numa cena bastante significativa, logo no início, Lisbet é entrevistada em uma sala privada pela funcionária responsável por decidir sobre o afastamento das crianças. A câmera do cineasta permanece imóvel e enquadra as personagens de modo que se enxerga, pela janela de vidro, a bandeira da Noruega tremulando do lado de fora. Quando a funcionária interroga a mãe sobre possíveis agressões ou assume um tom mais duro, a bandeira se agita com violência, a ponto de o espectador ouvir o tecido chicoteando ao vento. Quando Lisbet responde, o pano “se acalma” no mastro. Trata-se, claramente, de uma alusão à mão pesada do Estado diante de uma cidadã supostamente inocente.

Outro indício evidente de que Mungiu prefere ver a religião, e não o governo, cuidando dos jovens surge em um personagem idoso, que vive sozinho, e está em uma cadeira de rodas. Visivelmente deprimido, o homem é, na leitura do roteiro, o produto do programa de bem-estar social norueguês, que, embora ampare bem as pessoas até o fim da vida, falha ao tratá-las em sua dimensão psicológica ou, quem sabe, espiritual. É de conhecimento geral que os países nórdicos, apesar do elevado padrão de vida, registram altos índices de suicídio, mas não é razoável supor que o problema decorra da ausência de religião em um Estado acertadamente laico.
Para não ser injusto com as pretensões dos realizadores, há em “Fjord” alguns momentos de crítica à religião, sobretudo quando o caso das crianças ganha repercussão internacional e a igreja frequentada pela família envia outros fiéis para auxiliá-la. Fica evidente o ar de embuste com que eles conduzem a situação, e até a intenção de aproveitar o episódio para promover uma idéia desnecessária caça às bruxas. Contudo, a quantidade de reparos à religião é tão inferior à dos dirigidos ao Estado que se torna difícil sustentar que o roteiro tenha buscado algum equilíbrio. Enquanto a igreja é tratada com parcimônia, o Estado vira até motivo de piada, como no curso de controle da raiva que Mihai precisa fazer, transformado em uma tentativa patética de humor constrangedor.
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Portanto, em “Fjord”, a verve de Mungiu contra países em que a religião não ocupa papel central na vida social, como ocorre em sua terra natal, é extremamente irritante, sobretudo diante de uma plateia brasileira, que acompanha diariamente os estragos que pastores e suas igrejas caça-níqueis causam nas comunidades, sugando-as até a última moeda de real. Talvez a intenção do diretor não fosse evangelizar e fazer uma defesa tão apaixonada de Deus e de seus asseclas mortais, mas, como a câmera é a caneta do cineasta, é difícil ignorar uma escrita tão explícita. No fim, a mensagem é inequívoca, e o filme só não se torna ruim porque provoca debate e permanecerá na memória por um bom tempo, ainda que sua visão de mundo seja tão controversa.
“Fjord” foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
imagem destacada de “Fjord”: Divulgação/Diamond Films Brasil



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