Dave Grohl transformou o limite de tempo do festival em vantagem, revisitou três décadas de carreira e ainda encontrou espaço para “Marigold”, “Exhausted” e Taylor Hawkins
Foo Fighters começou seu show no Rock in Rio 2026 sem gastar tempo preparando terreno. Uma explosão de fumaça rosa tomou o Palco Mundo, as guitarras entraram pesadas e Dave Grohl apareceu cheio de energia como se duas horas diante de uma Cidade do Rock lotada fossem um recurso escasso demais para desperdiçar. Àquela altura, boa parte da área em frente ao palco já estava ocupada havia horas por fãs que atravessaram Nova Twins, The Hives e Rise Against guardando posição para o último show da noite. A escolha de abrir com “All My Life” recompensou imediatamente essa espera.
O início encontrou uma banda disposta a eliminar qualquer período de adaptação. “The Pretender”, “Times Like These” e “Rope” vieram na sequência, formando um bloco em que refrões gigantes, guitarras pesadas e o público já completamente entregue estabeleceram o ritmo da apresentação. O Foo Fighters costuma fazer shows próprios que passam com tranquilidade das duas horas e meia e podem chegar perto de três; no festival, Grohl chegou a comentar que teria apenas duas horas e queria usar esse tempo para tocar o máximo possível. O resultado foi um repertório de 19 músicas, com menos solos prolongados e improvisações extensas do que aqueles encontrados na atual turnê. A restrição produziu um efeito curioso: o Foo Fighters ficou mais afiado.
Existe uma tendência histórica da banda de esticar músicas, interromper o repertório para apresentações dos integrantes, inserir covers e transformar determinados sucessos em longas jams. É parte do charme de seus shows próprios, mas pode quebrar o fluxo dentro de um festival. No Rock in Rio, o cronômetro obrigou o grupo a chegar mais rápido aos refrões, preservar as melhores interações e reduzir excessos. A sensação de urgência combinou muito bem com uma noite aberta por guitarras desde a tarde.
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Dave Grohl Ainda Consegue Fazer uma Multidão Parecer Parte da Banda

Poucos frontmen transformaram a própria exaustão em linguagem de palco com tanta eficiência quanto Dave Grohl. Aos 57 anos, ele continua correndo, berrando, tocando guitarra, provocando o público e ocupando praticamente todas as áreas disponíveis do palco. Em alguns momentos, mascava chiclete enquanto comandava milhares de pessoas com uma naturalidade quase engraçada, como se aquela combinação de suor, gritos e guitarras fosse apenas mais uma noite comum de trabalho.
A grande habilidade de Grohl está menos em pedir que o público participe e mais em perceber quando deve fazê-lo. Ele levanta os braços, interrompe frases, recua do microfone e deixa a Cidade do Rock assumir trechos inteiros. “My Hero” foi um dos exemplos mais fortes. A banda entregou o início, mas o refrão ganhou outra dimensão quando milhares de vozes ocuparam a música e Grohl passou a conduzir aquilo como alguém observando uma reação que conhece muito bem, mas ainda parece apreciar.
Em determinado ponto, perguntou quantas pessoas estavam vendo o Foo Fighters ao vivo pela primeira vez. A quantidade de braços levantados chamou atenção e ajudou a explicar o desenho do repertório. O show precisava atender quem acompanha a banda desde os anos 1990 e, ao mesmo tempo, apresentar sua história para uma parcela do público que conhecia os discos, mas nunca havia encontrado aqueles músicos diante de um palco.
Esse equilíbrio aparece na escolha de músicas de várias fases. “There Is Nothing Left to Lose” ganhou presença forte com “Stacked Actors”, “Learn to Fly”, “Breakout” e “Aurora”. “The Colour and the Shape” apareceu através de “My Hero”, “Monkey Wrench” e “Everlong”, enquanto “Wasting Light” trouxe “Rope”, “These Days” e “Walk”. “One by One” abriu espaço para “All My Life” e “Times Like These”.
Há uma escolha conservadora aí. O álbum de 2026, “Your Favorite Toy”, apareceu somente com “Window”. Para uma banda em turnê de disco novo, é pouco. Para um headliner de festival diante de um público formado também por ouvintes casuais, funciona. O problema artístico está em outro lugar: o show celebra tão bem o passado que quase não oferece uma visão de presente. “Window” precisou até de um pequeno ensaio conduzido por Grohl para que a plateia acompanhasse a melodia, deixando evidente a diferença de reconhecimento em relação aos clássicos. Como espetáculo de festival, a decisão é eficiente. Como retrato do Foo Fighters de 2026, fica incompleta.
Marigold Faz Dave Grohl Encontrar uma História Anterior ao Foo Fighters

O show poderia seguir confortavelmente pelo caminho dos grandes sucessos. “Marigold” interrompeu essa previsibilidade com um peso histórico que poucos itens do repertório conseguem carregar.
A música nasceu antes do Foo Fighters. Dave Grohl escreveu a composição ainda durante sua passagem pelo Nirvana e a lançou originalmente em “Pocketwatch”, gravação solo de 1992 publicada sob o nome Late!. O Nirvana registraria depois outra versão, lançada em 1993 como lado B de “Heart-Shaped Box”. A faixa voltou a aparecer com frequência nos shows de Grohl somente na turnê atual, depois de muitos anos praticamente ausente de seus repertórios.
No Rock in Rio, Grohl contextualizou a música lembrando que sua primeira passagem pelo Brasil havia acontecido em 1993, com o Nirvana, e contou ter escrito “Marigold” quando dividia espaço com Kurt Cobain, precisando tocar baixo para não acordá-lo.
Chamá-la simplesmente de “música do Nirvana” reduz uma história bem mais curiosa. “Marigold” pertence à fase em que Grohl ainda ocupava a bateria de outra banda enquanto começava a experimentar silenciosamente as composições que acabariam abrindo caminho para o Foo Fighters. Quando ele toca essa música mais de três décadas depois diante do maior palco do Rock in Rio, passado e presente se encontram sem precisar de uma homenagem formal.
Pat Smear amplia essa sensação. Companheiro de Grohl nos últimos anos do Nirvana e parte importante da história do Foo Fighters, o guitarrista aparecia sorrindo frequentemente nos telões. O repertório ganha profundidade nesses momentos porque deixa de funcionar como coleção de singles e passa a revelar etapas de uma vida musical.
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Ilan Rubin Injeta Outra Pressão na Bateria
O Rock in Rio também apresentou ao público brasileiro uma nova configuração do Foo Fighters. Ilan Rubin, que entrou para a banda em 2025 após a saída de Josh Freese, fez sua primeira apresentação do grupo no festival. O músico já passou pelo Nine Inch Nails, Angels & Airwaves e outros projetos, e chega ao Foo Fighters com um tipo de ataque bastante diferente daquele que a banda teve em fases anteriores.
Sua presença apareceu com força desde “All My Life”. Rubin toca pesado, possui grande precisão e trabalha viradas rápidas sem deixar a bateria perder corpo. Em “Monkey Wrench”, recebeu espaço para um solo que elevou ainda mais uma música já naturalmente construída para o caos coletivo. A faixa acabou reunindo vários dos melhores elementos do show: velocidade, participação da plateia, um Dave Grohl berrando por mais resposta e uma banda tocando com agressividade sem perder nitidez.
A comparação com Taylor Hawkins é inevitável, mas precisa ser feita com cuidado. Rubin não tenta reproduzir Taylor. Sua bateria possui outra personalidade e o Foo Fighters atual parece compreender isso. A banda continua encontrando uma maneira de reorganizar sua força sem transformar o novo integrante em substituto emocional de alguém insubstituível. Essa diferença torna “Aurora” ainda mais forte.
Taylor Hawkins Está Presente Sem Transformar o Show em Memorial

Desde a morte de Taylor Hawkins, em 2022, “Aurora” ganhou outro lugar nos shows do Foo Fighters. A faixa de “There Is Nothing Left to Lose” era uma das favoritas do baterista, e Grohl já declarou que a banda pretende continuar tocando-a em sua memória.
No Rock in Rio, a homenagem apareceu dentro do fluxo da apresentação, sem modificar completamente o tom da noite. Isso faz diferença.
A perda de Taylor poderia dominar emocionalmente qualquer reencontro da banda com o público brasileiro, principalmente porque sua morte aconteceu poucos dias antes da apresentação que o Foo Fighters faria no Lollapalooza Brasil de 2022. O retorno aconteceu no The Town em 2023, ainda carregado por uma proximidade maior com o luto. Três anos depois, “Aurora” preserva essa lembrança, mas o show encontrou um modo mais sereno de incorporá-la.
O clima muda, a atenção se volta para a música e existe uma emoção evidente no público, porém a banda segue adiante.
Esse movimento combina com a forma como o Foo Fighters tem tratado sua própria história. Taylor permanece dentro dela sem congelar o grupo no momento da perda. O baterista que está ali é Ilan Rubin. A música continua sendo dedicada a Hawkins. As duas verdades convivem no mesmo palco.
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Exhausted Transforma um Cartaz em uma das Melhores Histórias da Noite
Na reta final, quando “Best of You” já havia criado o tipo de catarse que normalmente anuncia o encerramento, Grohl viu um cartaz na plateia pedindo “Exhausted”.
Poderia ignorá-lo, mas não ignorou. O vocalista localizou o fã, comentou o pedido e resolveu tocar a faixa do primeiro álbum do Foo Fighters, lançado em 1995.
O valor daquele momento está justamente na ausência de preparação. O Foo Fighters vinha executando um repertório claramente comprimido para caber nas duas horas de festival, e ainda assim encontrou espaço para alterar o roteiro por causa de uma pessoa segurando um cartaz. É o tipo de espontaneidade que protege shows de grandes bandas contra a sensação de produto repetido.
Para o fã casual, “Exhausted” provavelmente não possui o impacto imediato de “Learn to Fly” ou “Best of You”. Para quem conhece profundamente o catálogo, a escolha encontra a banda voltando ao disco de estreia, quando Foo Fighters ainda era praticamente Dave Grohl tentando descobrir o que existiria depois do Nirvana.
O posicionamento antes de “Everlong” deixou a surpresa ainda melhor. A reta final caminhou do gigantesco coro de “Best of You” para uma faixa rara de 1995 antes de entregar a música que há anos encerra boa parte dos shows da banda. Nesse intervalo, três décadas de Foo Fighters caberam em poucos minutos.
O Novo Palco Mundo Ficou Gigante — Mesmo Quando o Show Visual Foi Simples

A apresentação foi também o primeiro grande teste da nova estrutura do Palco Mundo. Em 2026, a fachada ganhou cerca de 2.400 m² de painéis de LED de alta definição, cobrindo praticamente toda a frente da estrutura. As imagens ampliadas de Grohl, dos demais músicos e do próprio público permitiram que quem estava muito distante acompanhasse detalhes que normalmente desapareceriam naquela escala.
Para uma banda cuja performance depende muito de expressão corporal, isso funcionou muito bem. Grohl correndo, Smear sorrindo, Rubin atacando a bateria e os closes na plateia transformavam o telão numa extensão da relação entre banda e público.
A direção visual, porém, poderia explorar melhor aquele equipamento. Durante boa parte do show, os painéis funcionaram principalmente como grandes telas de transmissão, acompanhadas por fundos geométricos e alterações de cor. “Rope” foi uma das exceções mais fortes, com a multiplicação das imagens criando uma composição mais próxima de um videoclipe realizado em tempo real.
Isso estabelece um pequeno paradoxo. O Foo Fighters foi uma das bandas que melhor utilizou o tamanho da nova fachada para aproximar os músicos de quem estava longe, mas não apresentou uma concepção visual especialmente ambiciosa para explorar todas as possibilidades daquele palco.
Também é verdade que a banda nunca dependeu muito desse tipo de espetáculo. A principal cenografia continua sendo Dave Grohl.
Duas Horas Foram Suficientes e Talvez Tenham Melhorado o Show
A maior limitação da noite acabou funcionando como qualidade. Os shows da atual turnê podem passar de duas horas e meia, com apresentações de integrantes, longos solos, covers, mudanças de instrumentos e músicas bastante esticadas. No Rock in Rio, o Foo Fighters teve aproximadamente duas horas. A banda cortou boa parte dessas digressões e tocou 19 faixas.
Isso produziu um show com muito menos gordura. A sequência inicial quase não oferece descanso. O miolo encontra espaço para “Wheels” e “Marigold”. “Monkey Wrench” e “Breakout” recuperam a pressão, enquanto “Window” oferece o único olhar substancial para o trabalho novo. Depois, “The Sky Is a Neighborhood”, “Aurora”, “Best of You”, “Exhausted” e “Everlong” constroem uma reta final em que cada música possui uma função diferente.
O ponto fraco dessa estratégia está na pouca representação da fase atual. Uma banda com 31 anos de carreira precisa escolher o que sacrificar, mas apresentar somente uma faixa do disco recém-lançado transforma o Rock in Rio mais em retrospectiva do que em fotografia de 2026. Também houve pouco risco fora das duas raridades, e quem acompanha a banda de perto reconhece boa parte da arquitetura do show.
Só que festival pede outro tipo de precisão. A pergunta de Grohl sobre quem estava assistindo ao Foo Fighters pela primeira vez oferece a melhor justificativa para esse repertório. Havia muita gente descobrindo a dimensão ao vivo dessas músicas naquela madrugada. Para esse público, guardar “Learn to Fly” ou “My Hero” para abrir espaço a lados B seria uma demonstração de purismo bem menos divertida. A banda soube para quem estava tocando.
Everlong Fecha uma Noite Sobre Memória Sem Transformá-la em Nostalgia

Depois de aproximadamente duas horas, “Everlong” chegou no lugar que praticamente todos esperavam. E ninguém pareceu se importar com a previsibilidade.
Há músicas cuja função dentro de um show supera a surpresa. “Everlong” carrega décadas de história, diferentes gerações de fãs e uma relação muito específica com a própria trajetória de Dave Grohl. Encerrar com ela transforma o último refrão em despedida coletiva, algo que a banda domina depois de anos utilizando a faixa dessa maneira.
Quando terminou, os integrantes se reuniram no palco, ficaram lado a lado e se abraçaram diante da plateia. Depois de uma apresentação comandada pela movimentação quase incessante de Grohl, a imagem encontrou outra temperatura. Era menos sobre performance e mais sobre a banda que ainda existe depois de 31 anos, mudanças de formação, perdas e diferentes fases.
A história está sempre presente, mas raramente funciona como um peso. “Marigold” recupera um Dave Grohl anterior ao grupo. “Exhausted” retorna ao primeiro disco. “Aurora” mantém Taylor Hawkins dentro do repertório. Ilan Rubin representa uma formação que precisa continuar construindo capítulos novos. Os grandes sucessos ligam tudo isso ao público que acompanhou a banda em diferentes épocas.
Por isso, aquela pergunta sobre quem estava vendo Foo Fighters pela primeira vez acabou dizendo muito sobre o show. Para uma parte da Cidade do Rock, aquela madrugada era memória. Para outra, era descoberta. Dave Grohl conseguiu fazer as duas experiências caberem dentro do mesmo repertório.
E o limite de duas horas, que poderia diminuir um show conhecido por sua duração generosa, acabou obrigando o Foo Fighters a lembrar uma velha qualidade do rock: às vezes, tocar até o público perder o fôlego funciona melhor do que tocar até olhar para o relógio.
Foo Fighters | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Lali_Moss)


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