P!nk voou sobre o público, Anitta levou o funk ao Palco Mundo, Iron Maiden trouxe um avião e a Cidade do Rock cresceu como nunca até então
Rock in Rio 2019 aconteceu entre 27 de setembro e 6 de outubro em uma Cidade do Rock que já havia crescido bastante dois anos antes, mas ainda encontrou espaço para ficar maior. A oitava edição brasileira recebeu 700 mil pessoas durante sete dias, ocupou 385 mil m² do Parque Olímpico (60 mil a mais que em 2017), espalhou a programação por nove palcos e 17 áreas e somou cerca de 300 horas de música. A própria história oficial do festival registra aquele ano como uma edição de recordes.
Os números impressionam, mas explicam somente uma parte da importância daquele Rock in Rio. Em 2017, a mudança definitiva para o Parque Olímpico havia dado ao evento uma área muito maior e incorporado estruturas deixadas pelos Jogos Olímpicos. Dois anos depois, o festival começou a entender melhor o que fazer com aquele território. Arenas receberam atrações próprias, novos palcos surgiram e a distância entre “ir a um show” e “passar um dia inteiro na Cidade do Rock” ficou maior.
O line-up acompanhava essa expansão de identidade. Drake abriu a edição como headliner de uma noite dominada por pop, rap e eletrônica. Foo Fighters comandou o segundo dia. Bon Jovi, Red Hot Chili Peppers, Iron Maiden, P!nk e Muse completaram uma sequência de encerramentos que oscilava entre veteranos do rock, fenômenos de streaming e espetáculo pop. Anitta e Alok estrearam no Palco Mundo, enquanto nomes como Seal, Jessie J, Slayer, King Crimson, Charlie Puth, Whitesnake, IZA, Alcione, Mano Brown e Elza Soares ajudavam a transformar o Sunset em um palco cada vez menos secundário.
LEIA MAIS
Rock In Rio 2024 | Os Shows, Encontros e Momentos Que Marcaram a Edição de 40 Anos
A Hora do Boi | Quando Existir Não Basta
Black Pantera no Rock in Rio 2026 | Conheça a História e o Peso da Banda de Uberaba
A Cidade do Rock Cresceu Porque o Festival Já Não Cabia Só nos Palcos

A mudança física talvez seja a melhor maneira de compreender 2019. O Espaço Favela estreou com uma programação dedicada a artistas vindos das periferias cariocas, batalhas de poesia, teatro e funk. A cenografia, baseada numa representação estilizada dos morros do Rio, também gerou críticas por sua leitura considerada estereotipada por parte do público. A própria cobertura da Woo! Magazine registrou essa discussão, ao mesmo tempo em que apontou a boa recepção dos shows, como o encontro do Heavy Baile com MC Carol e Tati Quebra Barraco.
O New Dance Order ampliou o espaço da música eletrônica e permaneceu ativo até as 4h, com nomes como Vintage Culture, Cat Dealers, KVSH, Dubdogz, Chemical Surf e Tropkillaz. A Woo! acompanhou o palco de perto e registrou uma cena eletrônica brasileira que já chegava ao festival com público próprio e artistas capazes de ocupar posições de destaque.
Nas arenas olímpicas apareceram a NAVE, o espetáculo argentino Fuerza Bruta e a Oi GamePlay Arena. Vieram ainda Rota 85, Rock Street Ásia, Palco Supernova e uma Gourmet Square maior. A ideia de festival começava a incluir games, performances, instalações, gastronomia e experiências imersivas dentro do mesmo ingresso.
Essa expansão ajudou a definir o Rock in Rio das edições seguintes. O nome continuava carregando “rock”, mas a curadoria já tratava essa palavra mais como herança histórica do que como fronteira musical. Metal ainda ganhava um dia próprio; funk, rap, pop e eletrônica ocupavam áreas cada vez maiores sem precisar se comportar como convidados temporários.
P!nk, Iron Maiden e Foo Fighters Entregaram o Tipo de Show Que o Rock in Rio Pede

Toda edição cria suas próprias lembranças, e 2019 deixou algumas imagens difíceis de apagar.
P!nk talvez tenha produzido a mais espetacular. Em sua primeira apresentação no Brasil após 19 anos de carreira, a cantora encerrou a noite de 5 de outubro com acrobacias aéreas, coreografias, banda, sucessos e um número final em que literalmente sobrevoava parte da plateia presa a cabos. A apresentação encerrava a turnê Beautiful Trauma no país e transformou o gigantesco Palco Mundo em extensão de um espetáculo pensado para arenas.
No dia anterior, o Iron Maiden trouxe a Legacy of the Beast Tour para sua quarta participação no festival. Um avião cenográfico surgiu sobre a banda durante “Aces High”, Eddie apareceu em diferentes formas, Bruce Dickinson empunhou lança-chamas e os cenários passaram por guerra, religião e inferno. A relação entre Maiden e Rock in Rio vinha desde 1985 e já havia produzido o histórico registro ao vivo de 2001; 2019 acrescentou uma apresentação construída em escala quase teatral.
O Foo Fighters seguiu outro caminho. A banda sustentou o show pela relação direta de Dave Grohl com a plateia, um catálogo repleto de refrões conhecidos e a impressão de que poderia continuar tocando por mais algumas horas. Houve até pedido de casamento no palco. A cobertura da Woo! colocou a apresentação entre os grandes momentos do primeiro fim de semana, e a volta do grupo em 2019 permanece entre as participações mais lembradas da banda no festival.
Aquela mesma noite ainda produziu um momento que ninguém conseguiria planejar numa reunião de produção: Júnior Groovador tocando com Tenacious D. Jack Black havia descoberto o baixista potiguar através de sua versão de “Smells Like Teen Spirit” e levou o brasileiro ao Palco Mundo. O público rapidamente começou a gritar seu nome, e o encontro de Nirvana, forró, humor e baixo virou um dos memes afetivos da edição.
COMPRE AQUI
Amazon Echo Show 8 (Geração mais recente) – Com novo design, tela vibrante HD de 8,7
Hollyland Lark M2 Microfone de Lapela sem Fio(2TX+3RX), Transmissão Sem Fio de 1000ft
Soundbar TCL com Subwoofer sem fio Bluetooth 2.1 Canais HDMI ARC S55H
Anitta Levou o Funk ao Palco Mundo e 2019 Mudou uma Discussão Antiga

A apresentação de Anitta teve um peso que ultrapassava repertório e cenografia. Era a primeira vez que o funk ganhava um show próprio no Palco Mundo da edição brasileira, depois de anos de discussões sobre a presença do gênero no festival. A cantora entrou em cena com um paredão inspirado na Furacão 2000, abriu espaço para referências ao funk carioca e priorizou sucessos em português.
Na cobertura da Woo!, o show foi tratado como um dos símbolos da noite feminina do Palco Mundo, que também recebeu H.E.R. e terminou com P!nk. A análise da época apontou excessos no uso de bases vocais durante a apresentação de Anitta, mas reconheceu a força da cenografia, da banda e da celebração do funk.
Olhando em retrospecto, aquela participação ganha ainda mais peso. O funk já circulava por outras áreas da Cidade do Rock – Heavy Baile, ativações de marcas e o próprio Espaço Favela mostravam isso, mas o Palco Mundo continua sendo uma espécie de declaração institucional do festival. Colocar Anitta ali indicava uma mudança pública de posição.
A mesma edição recebeu Karol Conká, Linn da Quebrada, Gloria Groove, Mano Brown, Bootsy Collins, Baco Exu do Blues, Rincon Sapiência, Ludmilla, Fernanda Abreu, Buchecha e Kevinho em outros palcos. A diversidade musical que edições atuais apresentam como parte natural da programação estava ganhando musculatura em 2019.
LEIA TAMBÉM
Rock in Rio 2026 | Marvvila Retorna Quatro Anos Após Realizar Um Sonho Que Parecia Impossível
Meu Remédio | Ou a História de Um Homem Chamado Mouhamed
Dennis DJ | Do Baile de Caxias ao Rock In Rio: Como o Produtor Virou o Próprio Headliner
Drake Trouxe um Grande Show e uma das Maiores Polêmicas da Edição
A estreia de Drake no Brasil abriu o festival cercada por expectativa e terminou dividida entre a força do show para quem estava no Parque Olímpico e a irritação de quem esperava acompanhá-lo pela televisão.
Pouco antes da apresentação, o rapper retirou a autorização para a transmissão ao vivo pelo Multishow. O canal precisou substituir o show por uma reprise de Rihanna. Drake atribuiu posteriormente a decisão às condições provocadas pela chuva; Boninho contestou publicamente essa versão e afirmou que a transmissão já havia sido barrada antes.
A situação acabou dominando parte da conversa sobre uma apresentação que, dentro da Cidade do Rock, teve boa recepção. O UOL colocou Drake entre os shows memoráveis do ano e destacou a estreia brasileira de um artista que naquele momento ocupava o centro do pop mundial.
O metal também guardou uma despedida. O Slayer encerrou sua passagem pelos palcos brasileiros no Sunset durante a turnê final da banda. Poucas semanas depois, faria seu último show da carreira em Los Angeles. Na mesma edição, o King Crimson finalmente se apresentou no Brasil, encerrando o Sunset no último dia durante a turnê de 50 anos do grupo.
São detalhes que ajudam a perceber quanto 2019 misturava começo e despedida. Drake e P!nk estreavam no país. Anitta estreava na edição carioca. King Crimson finalmente chegava. Slayer dizia adeus.
Imagine Dragons Transformou o Penúltimo Show em Clímax da Noite
O Imagine Dragons chegou ao Rock in Rio 2019 para sua estreia no festival e encontrou um público que, em muitos momentos, parecia tratá-lo como a principal atração daquele domingo. Escalado antes do Muse no último dia, o grupo abriu com “Believer”, “It’s Time” e “Whatever It Takes”, uma sequência que colocou a plateia em coro desde os primeiros minutos. A apresentação ainda passou por “Natural”, “Bad Liar”, “Shots”, “Thunder”, “Demons”, “On Top of the World” e terminou com “Radioactive”. Houve até uma versão curta de “Every Breath You Take”, do The Police, fugindo da tradição quase automática de recorrer ao Queen quando uma banda internacional quer prestar homenagem à história do festival.
O repertório funcionou, mas a força daquele show veio principalmente de Dan Reynolds. O vocalista passou boa parte da apresentação ocupando a passarela, conversando com a plateia e tratando o tamanho do Palco Mundo como se estivesse tentando reduzir a distância até as primeiras fileiras. Em “Birds”, falou sobre perdas pessoais antes da música; em outro momento, levantou bandeiras LGBTQIA+ e defendeu que cada pessoa tivesse liberdade para ser quem é. Reynolds ainda contou que seu pai havia vivido durante dois anos no Rio de Janeiro décadas antes e estava nos bastidores naquela noite, lembrando que cresceu em uma casa onde havia carinho particular pelo Brasil. A proximidade poderia facilmente cair em discurso protocolar de artista internacional, mas encontrou respaldo na entrega física do cantor e na resposta contínua da plateia.
A própria Woo! Magazine registrou na época que o Imagine Dragons entregou um dos shows mais celebrados pelo público daquele último dia. A reta final explica a lembrança: “Thunder” abriu uma sequência que passou pelo peso emocional de “Demons”, pela euforia de “On Top of the World” e terminou com “Radioactive”, usando percussão, luzes e o refrão gigantesco da música para fechar a apresentação no ponto mais alto de energia. O impacto foi tamanho que uma parcela considerável do público deixou a área do Palco Mundo antes da entrada do Muse, comportamento raro quando ainda falta justamente o headliner responsável por encerrar o festival.
Visto dentro da história do Rock in Rio 2019, o show também representa bem a forma como o festival já havia ampliado sua definição de rock. O Imagine Dragons mistura pop, eletrônica, indie e estruturas pensadas para arenas, carregando guitarras sem depender delas para justificar sua presença. Naquela noite, essa linguagem encontrou exatamente o tipo de espaço para o qual foi construída. Entre tantas produções grandiosas daquela edição, a banda conseguiu algo menos dependente de cenografia: transformou hits radiofônicos em músicas de multidão e fez o penúltimo show do último dia parecer, por quase duas horas, o verdadeiro encerramento da Cidade do Rock.
APROVEITE JÁ
Apple iPhone 17 de 256 GB — Preto
Celular Samsung Galaxy S26+ 5G, 512GB, 12GB RAM, Câmera Tripla
Smartphone Motorola Razr 60-256GB 24GB (12GB RAM+12GB Ram Boost) Tela dobrável
Os Números Mostram um Festival Que Já Era Maior Que uma Semana de Shows

O balanço econômico também colocou 2019 em outra escala. Dados divulgados após o evento apontaram 457 mil turistas vindos de 73 países, 25 mil empregos e impacto estimado em R$ 1,7 bilhão na economia. A segunda semana chegou a registrar média de 87% de ocupação hoteleira no Rio, com picos de 96% nos dias 4 e 5 de outubro.
A gestão de resíduos ganhou ações próprias. Dez toneladas de copos plásticos utilizados para cerveja foram posteriormente recicladas numa parceria com Natura e Heineken e transformadas em matéria-prima para 670 mil tampas de desodorante. O balanço municipal registrou centenas de toneladas de resíduos coletados entre evento-teste e festival, com grande parcela destinada à reciclagem.
Esses números mostram o tamanho operacional que o Rock in Rio havia adquirido. A Cidade do Rock funcionava como destino turístico, centro gastronômico, parque de diversões, feira de marcas, palco esportivo e espaço de música durante quase 14 horas por dia.
Essa lógica também ajuda a ligar 2019 às edições posteriores. 2017 havia colocado o festival dentro do Parque Olímpico. 2019 ensinou o Rock in Rio a ocupar o Parque Olímpico. Em 2022, depois do intervalo imposto pela pandemia, o evento voltou com novas mudanças de estrutura. Em 2024, o aniversário de 40 anos levou 730 mil pessoas à Cidade do Rock e criou pela primeira vez um dia inteiro dedicado à música brasileira. Em 2026, a programação avança outra vez sobre fronteiras de gênero, com uma noite liderada pelo Stray Kids e outra encerrada por Calvin Harris no Palco Mundo.
Por isso, 2019 ocupa uma posição peculiar na cronologia do festival. A edição ainda carregava muitos símbolos históricos do Rock in Rio: Iron Maiden, Bon Jovi, Scorpions, Whitesnake, Red Hot Chili Peppers, enquanto experimentava uma Cidade do Rock que começava a apontar para outra década.
O rock continuava ali, alto e cercado de guitarras. Só já não estava sozinho no centro da festa.E nenhuma imagem resume melhor aquele ano do que olhar para a mesma edição e encontrar um avião do Iron Maiden sobre o palco, P!nk voando sobre a plateia, Anitta diante de um paredão da Furacão 2000 e Júnior Groovador fazendo Jack Black tocar Nirvana com levada de forró.
Em 2019, o Rock in Rio descobriu que sua história podia ficar maior sem precisar apagar o que veio antes.
Imagem: Divulgação/Rock in Rio


Sem comentários! Seja o primeiro.