Primeiro dia trouxe uma Cidade do Rock mais enxuta, avanços nas filas digitais e um Sunset melhor distribuído, antes de o Foo Fighters mostrar todo o potencial do novo Palco Mundo
Rock in Rio 2026 encerrou seu primeiro dia na madrugada deste sábado (5) deixando algumas mudanças bastante perceptíveis para quem já está acostumado a circular pela Cidade do Rock. E comparar é praticamente inevitável.
Depois de acompanhar outras edições do festival, especialmente a de 2024, a primeira sensação deste ano é de uma Cidade do Rock mais concisa.
Não necessariamente menor em área. A diferença aparece na ocupação dos espaços, na quantidade de grandes estruturas pelo caminho e na forma como algumas regiões parecem visualmente menos carregadas do que há dois anos. O entorno do Espaço Favela talvez seja o exemplo mais evidente.
Em 2024, aquela região reunia diversos estandes grandes e ativações que ajudavam a transformar o percurso em outra área de entretenimento. Em 2026, existem marcas e experiências por ali, mas a impressão é de estruturas menores e mais espaçadas.
Os números oficiais ajudam a colocar essa percepção em perspectiva. Em 2024, o festival anunciou 85 marcas e 130 ativações. Para 2026, são mais de 90 marcas e mais de 100 experiências.
Ou seja: não se trata simplesmente de dizer que “há menos marcas”. A diferença está muito mais em como essas ativações aparecem na Cidade do Rock.
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O Palco Mundo demorou, mas finalmente mostrou para que servem 2.400 m² de LED

Uma das grandes novidades estruturais desta edição está no Palco Mundo. A organização anunciou que toda a frente da estrutura seria revestida por aproximadamente 2.400 metros quadrados de painéis de LED, formando uma única grande superfície visual. A expectativa, naturalmente, era enorme.
Durante boa parte do primeiro dia, porém, aquilo ainda não parecia tão impressionante quanto no anúncio. Em vários shows, a imagem dos artistas transmitida para o público ficou concentrada principalmente nas extremidades do palco, em duas grandes áreas verticais. Visualmente, parecia quase um Story gigante de cada lado do Palco Mundo.
E aí chegou o Foo Fighters. No último show da noite, finalmente ficou claro o que aquela estrutura inteira pode entregar. A produção da banda ocupou o palco de forma muito mais ampla, utilizando os painéis como parte integral da experiência visual. Imagens, câmeras e elementos gráficos se espalharam pela frente da estrutura e fizeram o Mundo funcionar, de fato, como aquela enorme superfície de LED prometida antes da abertura dos portões.
Foi uma diferença enorme em relação às primeiras horas do festival. Talvez o problema, portanto, não esteja no palco. A estrutura está ali e funciona. O impacto depende de como cada artista escolhe utilizá-la ou o próprio festival.
Depois do Foo Fighters, aquela primeira sensação de “era isso?” virou outra pergunta: por que não explorar dessa maneira com mais frequência?
A melhor inovação está no celular
Se existe uma mudança de 2026 que funcionou imediatamente, está no uso da tecnologia para tentar reduzir filas. O aplicativo oficial ganhou um papel muito maior na experiência do festival. Parte das ativações trabalha com agendamento, filas digitais ou reserva de horário. O público também pode utilizar recursos digitais para brinquedos e até para organizar a retirada de alimentos e bebidas.
Na prática, faz diferença. Em vez de passar uma hora parado em uma fila, existe a possibilidade de marcar um horário, continuar circulando pela Cidade do Rock e retornar depois. Para um festival com dezenas de shows acontecendo simultaneamente, isso significa recuperar uma das moedas mais valiosas dali dentro: tempo.
O sistema ainda não é universal. Nem todas as marcas adotaram a mesma lógica, e algumas filas tradicionais continuaram fazendo parte da paisagem durante o primeiro dia. Ainda existem pessoas esperando por ativações, brindes e experiências. Mas a direção parece certa.
Se mais marcas aderirem ao modelo em próximas edições, aquela clássica escolha entre “ficar 50 minutos na fila por um brinde” e “assistir ao show” pode finalmente começar a desaparecer.
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O Sunset está mais longe e isso foi uma ótima notícia
Outra mudança que se mostrou positiva depois de um dia inteiro de festival foi a nova relação entre Palco Mundo e Palco Sunset. A distância entre os dois aumentou. Consequentemente, também aumentou a caminhada. Mas o Sunset ganhou algo de que precisava há bastante tempo: espaço para respirar.
Em 2024, alguns dos maiores shows do palco transformavam a região próxima à roda-gigante em um verdadeiro aperto. Dependendo da apresentação, acompanhar o Sunset significava entrar em uma concentração gigantesca de pessoas em uma área que parecia pequena demais para a importância que aquele palco já havia conquistado.
Em 2026, a sensação é diferente. O público ganhou mais espaço diante do palco, os fluxos parecem menos comprimidos e o Sunset finalmente parece ocupar uma área compatível com o tamanho dos artistas que recebe. A caminhada ficou maior. Mas valeu a troca.
Sol, rock e a decisão coletiva de usar preto no Rio de Janeiro

O primeiro dia também teve uma característica visual impossível de ignorar. Era o dia de Foo Fighters, Rise Against, The Hives e Nova Twins no Palco Mundo. O público respondeu de maneira bastante previsível ao dress code informal do rock: preto. Muito preto. Camisa preta, calça preta, coturno, camiseta de banda e todas as escolhas de roupa que funcionariam maravilhosamente em um clube fechado, só que debaixo do sol carioca.
O tempo aberto foi ótimo para a Cidade do Rock. A luz ajudou as fotos, deixou o festival visualmente bonito e permitiu circular sem a preocupação com chuva. Em compensação, transformou a combinação “multidão vestida de preto + concreto + poucas sombras em alguns trechos” em um belo teste de resistência térmica.
Rock também é sofrimento. Às vezes literalmente.
E no Espaço Favela, os rockeiros foram de funk
Uma das cenas mais divertidas do primeiro dia aconteceu justamente longe das guitarras. O Hitmaker assumiu o Espaço Favela durante a tarde e conseguiu levantar um público que circulava pela região. E pouco importava que aquela sexta-feira fosse essencialmente dedicada ao rock.
Tinha gente usando camiseta de banda, gente claramente esperando Foo Fighters e uma boa quantidade de rockeiro simplesmente aceitando o chamado do funk. O público dançou, cantou e entrou na proposta.
É uma imagem pequena, mas bastante representativa daquilo que o Rock in Rio se tornou. A pessoa pode comprar o ingresso por causa de uma banda específica. Depois que entra na Cidade do Rock, inevitavelmente acaba esbarrando em outros sons. Às vezes literalmente no caminho entre um palco e outro.
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Os shows que fizeram o primeiro dia acontecer
Se a estrutura da Cidade do Rock trouxe novidades, musicalmente a sexta-feira deixou pouca dúvida sobre a proposta: foi um primeiro dia de guitarra alta, nostalgia e plateia disposta a participar.
O Palco Mundo começou ainda relativamente vazio com o Nova Twins, que fez sua estreia no Brasil diante de um público espalhado pelo gramado. O tamanho da plateia não acompanhava o tamanho do palco, mas perto da grade houve até uma pequena roda de mosh. Foi um começo mais discreto em público, mas bastante barulhento em cima do palco.
Algumas horas depois, o The Hives fez praticamente o oposto: pegou uma plateia que não necessariamente conhecia todas as músicas e trabalhou para conquistá-la na força do espetáculo. O vocalista Pelle Almqvist comandou a apresentação com aquela mistura de arrogância teatral e humor que já virou assinatura da banda, interagiu com o público até em português e transformou músicas como “Hate to Say I Told You So”, “Walk Idiot Walk” e “Tick Tick Boom” em um show que cresceu enquanto acontecia.
Mas uma das histórias mais improváveis da noite aconteceu com o Rise Against. A banda quase entrou no Palco Mundo sem aquilo que parece um pequeno detalhe para uma banda de rock: seus próprios instrumentos.
Tim McIlrath contou durante o show que o equipamento do grupo havia sido extraviado. Segundo o vocalista, a colaboração da produção e de pessoas no Brasil permitiu que a apresentação acontecesse mesmo assim. E aconteceu como se nada tivesse dado errado nos bastidores. O grupo passou por músicas como “Ready to Fall”, “Like the Angel”, “Satellite” e “Savior”, enquanto rodas de mosh apareciam no público.
McIlrath também contou que sonhava havia cerca de 25 anos com a possibilidade de tocar no Rock in Rio depois de ouvir registros do Iron Maiden no festival.
É difícil encontrar uma história mais rock do que perder os instrumentos antes de um dos maiores shows da carreira e subir no palco mesmo assim.
O Sunset apostou forte na memória afetiva

Do outro lado da Cidade do Rock, o Palco Sunset mostrou durante todo o dia por que precisava daquele espaço maior. Di Ferrero abriu a programação misturando a fase solo com músicas do NX Zero, recebeu Danilo Cutrim, do Forfun, e transformou boa parte da apresentação em reencontro com o rock brasileiro dos anos 2000.
Mais tarde, Detonautas e Biquini continuaram puxando justamente esse fio de nostalgia nacional. Mas o encerramento do palco talvez tenha sido o encontro que melhor explicou a proposta dessa sexta-feira.
O Capital Inicial recebeu Dado Villa-Lobos para revisitar a história compartilhada do rock de Brasília. O repertório passou por sucessos do Capital e por músicas da Legião Urbana como “Será”, “Tempo Perdido”, “Quase Sem Querer” e “Que País É Este?”. Mesmo com problemas de som durante a apresentação, a plateia respondeu em coro. Foi daqueles shows em que o convidado não aparece como enfeite de três minutos, ele realmente participa.
A presença de Dado fazia sentido dentro da própria história do Capital Inicial, da Legião Urbana e do Aborto Elétrico, e colocou diferentes pedaços do rock brasileiro diante de uma plateia que conhecia muito bem aquelas músicas.
Enquanto isso, outros palcos lembravam que o primeiro dia não precisava ficar preso ao gênero estampado nas camisetas da maioria. O Hitmaker, no Espaço Favela, conseguiu colocar até parte da turma vestida para Foo Fighters para dançar funk.
E esse foi um dos melhores retratos do festival durante a tarde: a programação dizia “dia do rock”, mas a Cidade do Rock continuava sendo grande demais para obedecer completamente ao rótulo.
Foo Fighters fecha o primeiro dia lembrando por que ainda é gigante

E se o dia começou levantando algumas dúvidas sobre a nova Cidade do Rock, terminou com poucas dúvidas sobre seu principal show. O Foo Fighters voltou ao festival sete anos depois da apresentação de 2019 e entregou praticamente duas horas de show, das 0h05 às 2h.
Foram 19 músicas em um repertório muito mais interessado em tocar canções do que em estender interminavelmente cada intervalo.
Vieram “All My Life”, “The Pretender”, “Times Like These”, “My Hero”, “Learn to Fly”, “Walk”, “Monkey Wrench”, “Best of You” e, inevitavelmente, “Everlong” para fechar a noite. Era praticamente uma sucessão de lembretes de quantas músicas enormes essa banda acumulou ao longo de três décadas. Mas não foi apenas um greatest hits.
O show trouxe “Window”, faixa do novo álbum “Your Favorite Toy”, além de escolhas menos óbvias como “Marigold” e “Exhausted”. Esta última, lançada originalmente no primeiro álbum do Foo Fighters, foi tocada pela primeira vez no Brasil.
Também houve espaço para memória. “Aurora” foi dedicada a Taylor Hawkins, baterista da banda morto em 2022, mantendo uma homenagem que passou a ocupar um lugar especial nos shows do grupo.
A presença de Ilan Rubin na bateria também ajudou a dar outra energia ao espetáculo, com uma apresentação mais direta e menos dependente de longas improvisações. E Dave Grohl continua Dave Grohl. Corre, grita, conversa, conduz o público e parece absolutamente confortável diante de uma multidão daquele tamanho.
Foi um show direto, generoso nos clássicos e forte o suficiente para justificar sozinho a espera até duas da manhã.
Uma Cidade do Rock menos carregada, mas talvez mais funcional

Depois do primeiro dia completo, o Rock in Rio 2026 deixa duas impressões acontecendo ao mesmo tempo. A primeira está fora dos palcos: uma Cidade do Rock aparentemente menor em algumas regiões, mais digital, com melhor circulação e um Sunset que finalmente ganhou espaço proporcional à importância que conquistou.
A segunda apareceu quando as guitarras começaram. The Hives ganhou uma plateia no carisma. Rise Against transformou um problema enorme de bastidores em um dos shows mais intensos do dia. Capital Inicial e Dado Villa-Lobos acionaram a memória do rock brasileiro. Hitmaker provou que nem todo mundo vestido de preto estava disposto a passar doze horas ouvindo apenas guitarra.
E o Foo Fighters fechou tudo com repertório absurdo, raridades, música nova, homenagem e uma sequência de clássicos difícil de competir. De quebra, foi justamente no último show que o gigantesco LED do Palco Mundo finalmente mostrou todo o potencial que havia prometido antes do festival.
A Cidade do Rock de 2026 ainda tem decisões que podem ser questionadas e espaços que parecem menos impressionantes do que há dois anos. Mas quando os shows funcionam, continua sendo muito difícil olhar para qualquer outra coisa. E depois de quase doze horas dentro da Cidade do Rock, o primeiro dia terminou da maneira mais simples possível.
Com uma multidão cantando “Everlong” às duas da manhã. Difícil reclamar desse fechamento.
Letreiro | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@OxiDany)


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