Um dos maiores monstros da história do cinema, Godzilla, não é apenas um lagarto colossal do tamanho de um prédio que está pronto para destruir cidades. Ele é um símbolo para a cultura e o cinema japonês e tudo isso se dá por conta do sentimento de luto da época de sua criação. Muito mais que personagem, ele é uma crítica.

Em 1954, o filme de Godzilla era rodado e acabou sendo lançado no final do mesmo ano. O enredo fala de um monstro pré-histórico que acorda após uma série de testes com bombas nucleares no oceano pacifico, o Japão começa a ser destruído por essa calamidade ambulante, e cabe a ciência desenvolver uma arma (com um potencial extremamente devastador) que dê um fim a esse monstro que traz o horror para o país.

Ao contrário do que uma pessoa acostumada com o cinema atual possa imaginar, o filme original de 1954 é extremamente melancólico e triste. Não tem o tom de uma aventura blockbuster do cinema de verão, cheia de alívios cômicos e um herói carismático como o “The Rock”. O tom é realista, mostrando Tóquio sendo despedaçada e sua população fugindo com medo e desespero, bombeiros correndo para o socorro imediato e personagens tendo diálogos graves e tensos com momentos de atmosfera noir. Tudo isso é fruto da época que o Japão estava passando, fazia menos de 10 anos que a segunda guerra tinha terminado e que as bombas atômicas tinham sido lançadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. Os japoneses tinham acabado de enterrar suas vítimas e de assistir os efeitos nocivos do envenenamento por radiação e passaram ainda por um período de ocupação americana em seu território por alguns anos, o sentimento coletivo no pais não era positivo e o assunto das bombas atômicas ainda era um tabu proibido de se falar abertamente e para completar tudo isso, os americanos realmente estavam testando armas nucleares perto do mar do Japão.

No ano que o filme estava sendo produzido um dos produtores tomou conhecimento da história do navio Daigo Fukuryu Maru, que zarpou da cidade de Yaizu para pescar perto da costa, porém a maior parte das redes do navio rasgaram por conta dos corais, então a tripulação decidiu ir para alto mar para ver se conseguiria pescar melhor. O navio acabou indo pescar perto da região onde estavam acontecendo os testes com as armas nucleares, mas por causa de um problema com os aparelhos de comunicação acabaram não sendo alertados. Os tripulantes não foram acertados pela explosão, porém a chuva radioativa alcançou a área onde eles se encontravam, por falta de informação esse fato foi ignorado e eles continuaram sua pescaria.

Quando voltaram para a costa todos começaram a sentir enjoos fortes e ninguém conseguiu comer, nos dias seguintes os outros sintomas do envenenamento radioativo começaram a aparecer nas pessoas, como queimaduras pelo corpo, sangramento pelas gengivas e olhos extremamente inchados que quase saiam de suas orbitas. Os pescadores foram colocados em quarentena, porém o peixe fruto da pescaria tinha sido vendido para população local e várias mortes se sucederam nas semanas seguintes, há quem diga que a primeira vítima da tripulação de pescadores foi o operador de rádio do navio.

Essa é a razão para o filme original de Godzilla abrir com a cena em que um navio pesqueiro é destruído, dando destaque para a morte do operador de rádio. A história na maioria das vezes é escrita pelos vencedores, mas a arte (nesse caso o cinema) pode abrigar a voz de todos, até daqueles que são vítimas e não podem falar abertamente dos seus agressores ou de seus erros. O monstro colossal que destrói tudo no filme de 1954 apareceu em mais de 30 filmes produzidos no Japão e no ocidente nas décadas seguintes, mas em grande parte deles Godzilla tomou o papel de herói e até salvou o Japão de outras ameaças. Talvez a gratidão do povo japonês a esse agente da denúncia engasgada tenha feito eles quererem agradecer mostrando que ele foi o herói que deixou eles lamentarem o trauma que as bombas atômicas deixaram neles no momento que eles tentavam se reerguer.


Por Fernando Targino


Apoia-se

Show Full Content
Previous Crítica: Ibiza – Tudo pelo DJ
Next Resenha: O Jardim das Borboletas, de Dot Hutchison

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close