Da verdadeira Annabelle à família Perron, passando pelo poltergeist de Enfield e pelo assassinato que terminou nos tribunais, conheça as histórias que inspiraram a franquia de terror
Invocação do Mal construiu uma das franquias mais conhecidas do cinema de terror explorando uma ideia que mexe com a curiosidade de qualquer espectador: e se aquelas coisas realmente tivessem acontecido? Desde o primeiro filme, lançado em 2013, as produções acompanham Ed e Lorraine Warren, interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga, em investigações envolvendo famílias aterrorizadas, bonecas supostamente amaldiçoadas e manifestações demoníacas. A cada novo capítulo, a promessa de uma história inspirada em fatos ajuda a tornar tudo ainda mais assustador.
Mas existe uma distância considerável entre os acontecimentos que deram origem aos filmes e aquilo que aparece nas telas. Os Warren realmente existiram, assim como as famílias retratadas, as casas investigadas e alguns dos objetos que ganharam destaque nas produções. Isso, porém, não significa que as manifestações sobrenaturais tenham sido comprovadas. Boa parte das histórias depende de depoimentos pessoais, interpretações religiosas e conclusões dos próprios investigadores.
O cinema também fez sua parte. Exorcismos ganharam proporções muito maiores, acontecimentos foram reorganizados e personagens como a freira demoníaca Valak se tornaram símbolos de histórias nas quais originalmente não apareciam daquela maneira.
Para entender essa mistura, vale voltar aos principais casos que inspiraram a franquia e descobrir o que foi documentado, o que permanece apenas nos relatos dos envolvidos e onde os roteiristas decidiram deixar a imaginação trabalhar.

A família Perron: a casa de Invocação do Mal era realmente assombrada?
O primeiro filme acompanha Roger e Carolyn Perron e suas cinco filhas depois que a família se muda para uma antiga propriedade rural em Harrisville, Rhode Island, nos Estados Unidos. A mudança aconteceu de verdade, em janeiro de 1971, e os relatos de acontecimentos estranhos começaram pouco tempo depois.
Segundo a família, a casa apresentava ruídos sem explicação, objetos que pareciam mudar de lugar e manifestações interpretadas como aparições de espíritos. Carolyn e as filhas relataram algumas das experiências mais intensas, enquanto Roger demonstrava maior resistência à explicação sobrenatural. A história acabou chegando aos Warren, que visitaram o imóvel e participaram de uma investigação.
Andrea Perron, uma das filhas, também publicou uma série de livros sobre o período em que viveu na propriedade. Entretanto, os relatos da família não constituem comprovação independente de que a residência fosse assombrada.
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A situação fica ainda mais complicada quando chegamos a Bathsheba Sherman, a principal antagonista do primeiro filme. Na produção, ela é apresentada como uma mulher que teria sacrificado uma criança, realizado um pacto demoníaco e passado a atormentar os moradores da propriedade após sua morte.
Bathsheba realmente existiu, mas sua história foi profundamente distorcida. Uma investigação publicada pelo Skeptical Inquirer examinou registros históricos e não encontrou documentação que sustentasse as acusações de bruxaria ou assassinato de uma criança. Também não há evidências de que Bathsheba tenha vivido na casa ocupada pelos Perron.
Os documentos disponíveis apontam que ela morreu em 1885, provavelmente após um acidente vascular cerebral, e não por enforcamento, como algumas versões da lenda afirmavam. As pesquisas também não confirmaram diversos assassinatos e suicídios que passaram a ser associados à propriedade.
O caso fica ainda mais curioso porque a própria história de Bathsheba parece ter sido construída por meio de relatos transmitidos ao longo dos anos. Carolyn pesquisou a mulher antes da chegada dos Warren, e o casal passou a utilizar seu nome na interpretação paranormal dos acontecimentos.
Já o desfecho cinematográfico, com Ed realizando um exorcismo para salvar Carolyn, foi amplamente dramatizado. Na realidade, a família permaneceu na propriedade por vários anos, e os Warren não resolveram a situação por meio de uma cerimônia como a apresentada no longa.
A casa existe, os Perron viveram nela e afirmaram ter passado por experiências perturbadoras. A suposta bruxa responsável por tudo, entretanto, pertence a uma história que não encontrou sustentação nos registros históricos.

Annabelle: a boneca existiu, mas Hollywood deixou tudo muito mais assustador
Se existe um objeto capaz de provocar desconforto antes mesmo de aparecer na tela, é Annabelle. Com seu rosto de porcelana, olhos arregalados e sorriso perturbador, a boneca se tornou uma das imagens mais reconhecidas do universo de Invocação do Mal.
Só que a verdadeira Annabelle tem uma aparência completamente diferente.
O brinquedo associado ao caso é uma Raggedy Ann, boneca de pano com cabelos vermelhos de lã, vestido colorido e um rosto que dificilmente seria escolhido para protagonizar um filme de terror. Sua aparência foi modificada pelos produtores para criar um efeito visual mais ameaçador.
Segundo a versão divulgada pelos Warren, a história começou por volta de 1970, quando uma estudante de enfermagem identificada como Donna recebeu a boneca de presente. Ela dividia um apartamento com uma colega e teria percebido que o brinquedo mudava de posição enquanto ninguém estava observando.
As duas também afirmaram encontrar mensagens aparentemente inexplicáveis e passaram a acreditar que algo estranho estava acontecendo. Depois de procurarem ajuda, os Warren foram chamados para investigar o objeto.
O casal concluiu que a boneca não estaria possuída pelo espírito de uma menina, como uma explicação anterior sugeria. Segundo sua interpretação, uma entidade demoníaca utilizava o brinquedo para se aproximar das pessoas.
Annabelle foi posteriormente incorporada à coleção de objetos paranormais dos Warren. A boneca original permaneceu associada à família, que continuou exibindo o objeto e divulgando sua história.
Mas o que existe de comprovado nessa narrativa? A boneca é real, assim como sua associação com os Warren. Já os movimentos, as mensagens e a suposta presença demoníaca dependem dos relatos de quem afirmou ter presenciado os acontecimentos. Não existem evidências independentes que demonstrem uma possessão sobrenatural.
O cinema acrescentou várias outras camadas. Em “Annabelle”, de 2014, a história envolve um casal, uma invasão domiciliar e uma seita. “Annabelle 2: A Criação do Mal”, de 2017, apresenta uma origem completamente diferente, envolvendo uma família, a morte de uma criança e um fabricante de bonecas.
Esses acontecimentos não correspondem à história contada pelos Warren. São elementos desenvolvidos para criar uma mitologia própria e conectar o brinquedo aos demais filmes.
A diferença entre realidade e ficção é tão grande que a verdadeira Annabelle pode surpreender quem só conhece a versão de porcelana. Hollywood conseguiu transformar um objeto de aparência inocente em um dos rostos mais assustadores do terror contemporâneo.

O poltergeist de Enfield: o que realmente aconteceu em Invocação do Mal 2?
Em “Invocação do Mal 2“, os Warren viajam até a Inglaterra para investigar acontecimentos na casa da família Hodgson. A história apresenta uma menina que passa a manifestar comportamentos estranhos e uma presença demoníaca que ameaça todos os moradores.
O caso que inspirou a produção começou em 1977, em Enfield, no norte de Londres. Peggy Hodgson e seus filhos afirmaram ouvir batidas nas paredes, presenciar movimentos inexplicáveis de móveis e experimentar outros acontecimentos que interpretaram como manifestações sobrenaturais.
Janet Hodgson, uma das filhas, estava no centro de muitos desses episódios. A menina chegou a ser fotografada em situações interpretadas como levitação e foi associada a gravações de uma voz grave que os investigadores consideravam incomum.
Ao contrário de muitas histórias de assombração transmitidas apenas por relatos posteriores, Enfield recebeu atenção jornalística enquanto os acontecimentos estavam sendo investigados. Maurice Grosse e Guy Lyon Playfair, ligados à Society for Psychical Research, acompanharam a família e produziram registros durante o caso.
Isso fez com que Enfield ganhasse fama como uma das histórias paranormais mais documentadas do Reino Unido. Entretanto, a existência de fotografias, gravações e depoimentos não resolve a questão sobre a origem dos fenômenos.
A própria Janet reconheceu que ela e sua irmã simularam alguns acontecimentos, embora tenha continuado afirmando que outros episódios eram genuínos. A história passou a ser disputada entre investigadores que acreditavam na existência de manifestações paranormais e pessoas que identificavam possibilidades de encenação ou outras explicações.
Uma reportagem da BBC News, reproduzida pelo UOL recupera esses depoimentos e apresenta as controvérsias sobre o caso.
A participação dos Warren também foi ampliada no cinema. Eles realmente se envolveram com a história, mas não foram os principais responsáveis pela investigação prolongada na residência. O trabalho de Grosse e Playfair teve um papel muito mais extenso do que aquele apresentado pela franquia.
E a freira Valak? Sua presença na trama de Enfield é uma construção cinematográfica. A criatura, que depois ganhou filmes próprios, não foi identificada naquela casa da maneira como o longa sugere.
A família Hodgson relatou acontecimentos assustadores e investigadores registraram parte dessas experiências. A existência de uma entidade demoníaca, porém, não foi demonstrada.

Invocação do Mal 3: o assassinato que chegou aos tribunais
O terceiro filme, “Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio“, parte de uma história especialmente perturbadora porque envolve um crime real.
Em fevereiro de 1981, Arne Cheyenne Johnson matou Alan Bono, em Connecticut, nos Estados Unidos. A repercussão do caso aumentou quando sua defesa tentou utilizar uma alegação de possessão demoníaca para explicar o assassinato.
Antes do crime, Johnson havia se envolvido com os acontecimentos relatados pela família de sua namorada. David Glatzel, irmão dela, era uma criança quando seus familiares passaram a acreditar que ele estava possuído por uma entidade.
Os Warren participaram da investigação, e a família afirmou que Johnson teria desafiado a suposta presença a abandonar o menino e entrar em seu próprio corpo. Segundo essa interpretação, o assassinato estaria relacionado à possessão.
A Justiça, entretanto, não aceitou a explicação. Em outubro de 1981, o juiz Robert Callahan rejeitou a tentativa de apresentar a possessão demoníaca como defesa, considerando que esse argumento não era relevante para o julgamento e poderia confundir os jurados.
A decisão foi registrada pela agência UPI na época do processo. Johnson acabou condenado por homicídio culposo, conforme a classificação jurídica aplicada nos Estados Unidos.
O filme recupera esse episódio, mas acrescenta uma investigação sobrenatural que envolve uma maldição e uma personagem ligada ao ocultismo. Essa trama foi desenvolvida para o cinema e não corresponde aos acontecimentos documentados no processo criminal.
É uma diferença importante. Existe um assassinato comprovado, assim como uma tentativa de relacioná-lo a uma suposta possessão. Não existe, porém, comprovação de que uma entidade tenha provocado o crime.
O caso mostra como a franquia utiliza acontecimentos de naturezas muito diferentes para construir sua mitologia. Enquanto algumas histórias envolvem famílias que relatam experiências inexplicáveis, a terceira produção parte de uma morte real e das consequências judiciais de um argumento sobrenatural.

Invocação do Mal 4: a família Smurl e o caso que virou despedida dos Warren
Lançado em 2025, “Invocação do Mal 4: O Último Ritual” encerrou a história principal de Ed e Lorraine Warren no cinema. Para construir essa despedida, o filme recuperou um caso envolvendo a família Smurl, que viveu em West Pittston, na Pensilvânia.
Jack e Janet Smurl afirmaram ter passado por uma série de experiências assustadoras durante os anos 1980. Seus relatos incluíam ruídos, odores desagradáveis, movimentos de objetos e episódios que interpretavam como agressões provocadas por entidades.
Os acontecimentos ganharam repercussão na imprensa norte-americana. Os Warren participaram da investigação em 1986 e afirmaram que a propriedade estaria sendo atormentada por diferentes espíritos, incluindo uma presença demoníaca.
A família também buscou ajuda religiosa, e sua história acabou inspirando um livro e uma produção televisiva antes de chegar à franquia de cinema.
O quarto filme aproveita essa narrativa para colocar os Warren diante de uma investigação que ameaça sua própria família. Entretanto, vários elementos foram reorganizados ou criados para dar à história um encerramento cinematográfico.
Um dos pontos mais importantes é que o caso Smurl não foi literalmente a última investigação do casal. Os Warren continuaram associados a outros episódios paranormais depois dele.
Além disso, o desfecho da história real não corresponde à resolução apresentada no filme. A família atribuiu a melhora da situação às orações e à assistência de religiosos, enquanto os Warren não conseguiram oferecer uma solução conclusiva.
As alegações sobrenaturais também foram contestadas. O caso recebeu questionamentos de céticos, e uma moradora posterior da propriedade afirmou não ter experimentado acontecimentos semelhantes.
A Entertainment Weekly reuniu os relatos e as controvérsias sobre a família Smurl, incluindo as mudanças feitas na adaptação.
No cinema, o episódio funciona como uma despedida emocional de personagens acompanhados pelo público durante mais de uma década. Fora das telas, a história é mais complexa e não possui um encerramento sobrenatural comprovado.
Afinal, os casos de Invocação do Mal são reais?
A resposta depende do que estamos chamando de real.
As famílias Perron, Hodgson e Smurl existiram. Annabelle é um objeto verdadeiro. Arne Johnson foi julgado e condenado por um assassinato. Ed e Lorraine Warren participaram de investigações e divulgaram relatos sobre acontecimentos que consideravam paranormais.
Esses elementos estão na origem dos filmes. O que não foi demonstrado é que espíritos, demônios ou maldições tenham provocado os episódios apresentados pela franquia.
Também seria equivocado tratar todas as histórias da mesma maneira. O caso Johnson envolve um crime documentado e um processo judicial. O episódio de Enfield possui gravações, fotografias e depoimentos, mas também admissões de encenação e interpretações conflitantes. Já a história de Bathsheba Sherman apresenta acusações graves que não encontraram sustentação nos registros históricos.
Hollywood pegou essas narrativas e construiu um universo próprio. A boneca de pano ganhou rosto de porcelana, os Warren se tornaram protagonistas de confrontos demoníacos e uma freira passou a representar uma entidade que sequer fazia parte dos relatos originais de Enfield.
Nada disso impede que os filmes funcionem como entretenimento. Pelo contrário, a liberdade criativa permitiu que Invocação do Mal desenvolvesse personagens, criaturas e situações que conquistaram espaço no cinema de terror.
Mas conhecer a origem dessas histórias torna a experiência ainda mais interessante. O medo não depende de acreditar que uma boneca realmente se moveu sozinha ou que uma bruxa atormentou uma família décadas depois de morrer.
Talvez a parte mais curiosa de Invocação do Mal esteja justamente nessa mistura: pessoas reais, acontecimentos documentados, relatos difíceis de verificar e um cinema que soube transformar tudo isso em histórias capazes de deixar muita gente pensando duas vezes antes de apagar a luz.
Imagem Destacada: Divulgação/Warner Bros. Pictures Brasil


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