Como o minimalismo de garagem de cinco jovens de Nova York rejeitou os excessos do mainstream, resgatou a urgência do rock alternativo e ditou as regras da música indie no século XXI
“Is This It”, o álbum de estreia da banda nova-iorquina The Strokes, foi um divisor de águas na cena roqueira. Possivelmente o último. Composto por Julian Casablancas (vocal), Albert Hammond Jr (guitarra), Nick Valensi (guitarra), Fabrizo Moretti (bateria) e Nikolai Fraiture (baixo), o grupo foi rapidamente catapultado do status de jovens novatos de Nova York para a verdadeira realeza do rock ‘n’ roll. Esse fenômeno aconteceu, em grande parte, graças ao sucesso estratosférico de singles inesquecíveis como “Last Nite”, “Hard to Explain” e “Someday”.
Curiosamente, embora o álbum tenha conquistado um sucesso gigantesco em ambos os lados do Atlântico — alcançando o segundo lugar nas paradas de álbuns do Reino Unido e chegando à 33ª posição na Billboard 200 dos Estados Unidos —, o seu lançamento original ocorreu primeiro na Austrália, no dia 30 de julho de 2001. Nos EUA só chegaria às lojas (a mídia física ainda era o formato dominante) em 9 de outubro, 14 dias após a data marcada por conta dos atentados de 11 de setembro. Hoje, duas décadas e meia depois, o disco é amplamente reverenciado como um dos trabalhos mais influentes de todos os tempos. Ele é imediatamente reconhecido pelo seu inconfundível som de guitarra distorcida e por sua icônica e famosa capa, que exibe uma mão enluvada repousando sobre o quadril de uma mulher.
LEIA MAIS
Primavera Sound 2026 | Line-up por Dia é Divulgada Pela Organização
20 one hit wonders esquecidos dos anos 2000
O Mistério de 28 Anos | Qual é a Verdadeira Origem do Nome Gorillaz?
A Estética Indie e a Revolução Cultural nos Anos 2000
O impacto cultural de “Is This It” foi imensurável. O álbum conseguiu tornar a música baseada em guitarras algo “legal” novamente. Além disso, ele deu origem a toda uma nova era de jovens “indies”, caracterizados pelo uso de calças jeans justas (skinny), jaquetas jeans e tênis Converse desgastados. Esse movimento popularizou uma nova geração de bandas de guitarra, influenciando diretamente grupos como o Arctic Monkeys e The Killers, e ajudando a reviver as noites de discotecas focadas em música independente.
Bastidores da Gravação: Do Porão no East Village ao Perfeccionismo em Estúdio
Para entender essa revolução, é preciso voltar ao porão no East Village, em Nova York, onde o álbum ganhou vida. O produtor Gordon Raphael, que hoje reside em Londres, comandou as gravações entre março e abril de 2001. Naquela época, a banda já havia gerado um grande burburinho com o seu EP de estreia, “The Modern Age”. Segundo Raphael, a música de guitarra estava extremamente fora de moda, mas os rapazes estavam se esforçando muito e criando algo de fato interessante.
O produtor lembra que eles eram músicos fantásticos, muito bem preparados, inteligentes e possuíam uma atitude “durona de Nova York”, o que significava que sabiam exatamente o que queriam e não podiam ser enganados em relação a nenhum detalhe musical. A busca pela perfeição era tão alta que a banda não deixava passar absolutamente nada: não toleravam notas rápidas demais, notas erradas ou timbres inadequados. Mesmo antes de tocarem em grandes clubes nova-iorquinos, já havia uma enorme expectativa mundial em torno deles, impulsionada por turnês no Reino Unido e pela assinatura com uma gravadora.
O Efeito Dominó: Como os Strokes Moldaram o Rock Alternativo
Esse sentimento de algo revolucionário é ecoado pelo lendário DJ de rádio Steve Lamacq, carinhosamente apelidado de Lammo. Ele, que apresentava o Lamacq Live na BBC Radio 1 na época do lançamento e hoje está na BBC Radio 6 Music, acredita que a chave para o sucesso dos Strokes era a forma como eles pareciam não fazer esforço algum para estarem ali. Eles pareciam elegantes, mas ao mesmo tempo davam a impressão de que tinham acabado de sair da cama, uma artimanha incrível e sem afetação.
Para Lamacq, “Is This It” moldou tudo o que aconteceu na cena de guitarras pelo resto da década de 2000 em ambos os lados do Atlântico. A influência fluiu como uma reação em cadeia: The Strokes pavimentou o caminho para o The Libertines, que por sua vez influenciou o Arctic Monkeys. O álbum de estreia dos Strokes foi a primeira peça de dominó a cair, abrindo espaço para o surgimento de grupos como The Cribs, Jet, Maximo Park, The Hives, The Vines e Franz Ferdinand. O DJ aponta que a banda abriu novamente as pistas de dança para os discos de guitarra, gerando hinos que ainda tocamos hoje, como “Take Me Out” e “Time for Heroes”.

Do ponto de vista dos músicos da época, a chegada dos Strokes representou um divisor de águas e um momento de iluminação. Felix White, guitarrista do The Maccabees, lembra que, por causa da revista NME e do acesso mais restrito à música na época, ele leu muito sobre a banda antes mesmo de ouvi-la, um tipo de misticismo impensável nos dias de hoje. Quando finalmente os escutou, com o The Maccabees apenas começando, sentiu como se a música deles se encaixasse perfeitamente, como um quebra-cabeça. Para ele e sua banda, a inspiração ia além do visual de jaquetas de couro e calças rasgadas; tratava-se de como a música era brilhantemente arranjada e pensada.
O desafio para as bandas daquela geração era abraçar a paixão por aquele som, mas lutar para não soar exatamente como eles. Anos mais tarde, o The Maccabees teve a oportunidade de abrir para os Strokes na turnê First Impressions of Earth, no Brighton Centre. White descreveu a experiência como avassaladora e mágica, observando as silhuetas perfeitas e quase irreais dos nova-iorquinos no palco.
Impacto na Imprensa Especializada e o Fenômeno entre os Fãs
Na imprensa musical, o sentimento de mudança brusca não era diferente. Conor McNicholas, ex-editor da NME entre 2002 e 2009, sentiu o impacto em primeira mão. Ele começou na revista durante o Reading Festival de 2002, quando os Strokes — com pouco mais de um ano na cultura pop — já eram os headliners da noite de sexta-feira, superando o Pulp em um verdadeiro momento de “troca de guarda”. McNicholas afirma que existe, sem dúvida, um mundo “antes dos Strokes” e outro “depois dos Strokes“.
O disco foi um ponto de transição tão marcante que ele o compara à sensação de quando os Beatles surgiram. Repentinamente, estar em uma banda voltou a ser legal, os jovens mudaram suas roupas e pegaram em guitarras, fazendo com que a cena do Reino Unido decolasse rapidamente em menos de um ano. Além disso, The Strokes se tornaram os artistas que mais impulsionaram vendas de capas da NME nos primeiros anos de sua gestão.
Por fim, essa reverência profunda se estende aos próprios fãs que viveram o período. Rory McKeown, um fã e escritor millennial de 40 anos, confessa que milhares de “indie kids” das discotecas tentavam replicar o visual da banda, e ele continua vestindo calças skinny e jaquetas jeans graças ao estilo inegavelmente legal de Julian Casablancas e companhia. Como Alex Turner do Arctic Monkeys cantou certa vez: “Eu só queria ser um dos Strokes”. O memorável videoclipe de “Last Nite” rodava sem parar na MTV2 no início dos anos 2000, chegando até a ser parodiado pela banda Sum 41.
O Antídoto ao Nu-Metal: A Economia Sonora de um Clássico

Sob a ótica da crítica musical e do cenário fonográfico da virada do século, “Is This It” atuou como um elemento de ruptura estrutural. No início dos anos 2000, o mainstream do rock encontrava-se saturado pelas superproduções do nu-metal e pela estética altamente processada do pós-grunge. O que os Strokes entregaram foi o exato oposto: um antídoto minimalista.
APROVEITE JÁ
JBL, Caixa de Som, Boombox 4, Bluetooth
Luz de vídeo ULANZI VL120 RGB, Luzes de vídeo de bolso LED On-Camera
Hollyland Lark M2 Microfone de Lapela sem Fio(2TX+3RX)
Através da captação espartana de Gordon Raphael, o grupo resgatou a urgência do pós-punk e do garage rock nova-iorquino dos anos 70, baseando-se em guitarras simétricas, timbres secos e arranjos onde nenhuma nota era desperdiçada. Quando músicos da geração seguinte — como Alex Turner — admitiam em suas composições que “só queriam ser um dos Strokes“, isso atestava uma mudança de paradigma técnico e criativo em toda a cena, e não apenas uma idolatria estética. Mais do que gerar alta rotação na MTV2, o álbum redefiniu a economia sonora de sua era. Ao rejeitar os excessos do rock contemporâneo em favor da crueza e da sofisticação melódica, “Is This It” transcendeu o hype inicial para se consolidar como o verdadeiro manual de instruções da música alternativa do século XXI.
Imagem destacada: Reprodução/The Strokes


Sem comentários! Seja o primeiro.