Da inspiração no cinema cult ao caos real no estúdio em Culver City, os bastidores de uma gravação em que Kurt Cobain, um diretor iniciante e centenas de figurantes revoltados transformaram um pep rally no marco de uma geração
O Nirvana escolheu “Smells Like Teen Spirit” para ser o primeiro single de seu segundo álbum, “Nevermind”, que catapultaria a banda para o estrelato, transformando Seattle em um grande polo musical. Era manhã de 17 de agosto de 1991 quando Kurt Cobain (voz e guitarra), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria) se encontravam no GMT Studios, em Culver City, Califórnia, para rodar o clipe da música. A premissa, desenhada quadro a quadro pelo próprio Cobain em um storyboard meticuloso, previa uma sátira anárquica às reuniões escolares norte-americanas – o “pep rally do inferno”. A inspiração vinha direta do filme cult “Over The Edge” (1979) e de “Rock ‘n’ Roll High School” (1979), dos Ramones.
“Lembro de sair daquele cinema e quase todo mundo que estava lá dentro saiu gritando, quebrando janelas, vandalizando e querendo se drogar”, relatou Cobain em 1993. “Isso os afetou e os influenciou totalmente. Pode não ter sido a intenção de quem fez o filme, mas foi o que aconteceu.” Para mobilizar a figuração necessária, o grupo distribuiu panfletos dois dias antes na porta do clube Roxy, em Los Angeles, convocando jovens de 18 a 25 anos dispostos a encarnar estereótipos de colégio – de punks a atletas – sob o aviso de estarem prontos para passar horas no set.
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O confronto no set com o diretor Samuel Bayer
A direção ficou a cargo de Samuel Bayer, recém-formado pela School of Visual Arts de Nova York e estreante na indústria da música. O choque entre a inexperiência do diretor e a energia da banda traduziu-se em tensão imediata no estúdio. Conforme contaria Dave Grohl anos mais tarde, Bayer usava um megafone para exigir que o público parecesse “entediado, complacente e infeliz” durante o primeiro verso, antes de desmoronar no caos do refrão. A tentativa de manter o controle ruiu rapidamente.
Do tédio encomendado ao caos descontrolado no estúdio

Conforme as horas se arrastavam e Cobain alimentava sua frustração com goles de uísque Jim Beam entre os takes, o vocalista incentivou os figurantes a abandonarem as arquibancadas e invadirem a área da banda. Burton C. Bell, futuro vocalista do Fear Factory e um dos jovens presentes na gravação, resumiu a virada: “Ouvir a música repetidamente tornou-se contagioso. O diretor perdeu o controle da multidão e o caos se instalou.”
A destruição do cenário, longe de arruinar o projeto, tornou-se seu núcleo visual. Percebendo que a raiva genuína da plateia espelhava a irritação do próprio Nirvana com o processo de filmagem, Bayer decidiu rodar as câmeras no meio da confusão. “Eu estava exausto no final do dia. Pensei: ‘Tudo bem, vocês querem destruir o cenário? Vá em frente, destruam o cenário’”, recordaria o diretor em 2010. “E os garotos desceram das arquibancadas sob a minha iluminação. Foi a coisa mais linda que já vi.”
A edição final e o close-up sarcástico de Kurt Cobain
Na ilha de edição, Cobain reassertou o controle criativo ao impor, contra a vontade do diretor, a inserção do plano de encerramento: um close-up de seu próprio rosto ironizando a câmera. O enquadramento fechado com o sorriso sarcástico sob o cabelo loiro funcionou como um convite definitivo para a ruptura cultural que o single provocaria semanas depois.
O estopim na MTV e a transformação do público do Nirvana
Exibido pela primeira vez na MTV americana no final de setembro de 1991, o clipe atuou como o estopim para a explosão comercial do Nirvana. Enquanto músicos como Josh Homme assistiam à transmissão na madrugada sem acreditar no apelo massivo daquela sonoridade, a rotação contínua no canal transformou o ecossistema dos shows do grupo de forma irreversível.
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“O clipe foi provavelmente o elemento-chave para a música se tornar um hit”, pontuou Dave Grohl. “Quando os garotos viram na MTV, pensaram: ‘Isso é legal. Esses caras são meio feios e estão destruindo o colégio deles’.” A mudança ficou evidente na transição rápida de casas de show de 500 pessoas para grandes arenas lotadas. “Começamos a notar que havia pessoas normais ali. Pensávamos: ‘O que esse cara com cara de atleta está fazendo aqui?’ E então percebemos: ‘Talvez aquele negócio de clipe esteja atraindo essa… gentalha’.”
Imagem Destacada: Divulgação/Netflix


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