Guitarrista detalha o novo álbum da banda, o resgate de baterias inéditas de Charlie Watts, colaborações com Paul McCartney e Robert Smith, e explica por que recusa a aposentadoria aos 79 anos: “O tempo é apenas um número”
Ronnie Wood atesta, mais de meio século após sua entrada na maior banda do planeta, que os Rolling Stones vivem uma fase de rara efervescência criativa com “Foreign Tongues”, sucessor direto de “Hackney Diamonds” (2023). Confrontar o presente sem o freio da nostalgia é a palavra de ordem e o combustível para essa arrancada nos estúdios atende pelo nome de Andrew Watt, jovem produtor que resgatou o rigor da era Jimmy Miller nos anos 1970.
Watt assumiu uma postura firme na mesa de som, peitando até a lendária obstinação de Keith Richards: “Ele disse: ‘Não, você vai fazer suas partes de guitarra quando eu mandar. E vai começar agora’. E Keith respondeu: ‘Ah, tudo bem então'”, contou Wood, divertindo-se, em entrevista à LouderSound. O resultado é um álbum gravado sob a disciplina de uma banda iniciante, mas carregado pelo peso e pela bagagem de gigantes.
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A “doença da terra” e o olhar crítico sobre 2026
Se no aspecto musical a banda resgata as raízes do blues urbano e homenageia ícones como Chuck Berry e Amy Winehouse – em uma versão de You Know I’m No Good -, a lírica de “Foreign Tongues” mira as feridas abertas de 2026. Faixas como “Mr. Charm” e “In The Stars” abordam o cinismo dos bilionários da tecnologia, a dependência de fármacos e o colapso climático.
Para Ronnie, tratar desses temas é um dever artístico: “Temos que tentar manter o sorriso no rosto das pessoas, além de sermos escancaradamente honestos sobre essa doença na terra. Há muitas coisas ruins acontecendo.” Entre riffs em afinação aberta, os Stones contrapõem o caos geopolítico contemporâneo com a honestidade crua do rock ‘n’ roll.
Arquivos de Charlie Watts, bastidores de elite e o retorno dos Faces

A produção do disco transformou-se em um ponto de encontro de gerações. Além de utilizar registros póstumos de bateria deixados por Charlie Watts — “Mick tem um pequeno arquivo e tenho certeza de que há mais faixas dele por vir” —, o álbum reúne colaborações de Steve Winwood, Bruno Mars, Robert Smith (The Cure) e Paul McCartney.
Sobre a presença do ex-Beatle, Wood relembra com carinho: “Ele ficou tão orgulhoso de si mesmo. Ele disse: ‘Eu toquei com os Rolling Stones'”. Paralelamente aos planos de turnê com os Stones para o próximo ano, Ronnie projeta excursionar com seu grupo solo e confirma que voltará ao estúdio no final do ano ao lado de Rod Stewart para concluir o aguardado novo disco dos Faces.
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A recusa do tempo e a vitória sobre a mortalidade
Recentemente curado de um segundo diagnóstico de câncer, Ronnie Wood repele qualquer conversa sobre aposentadoria ou o peso da idade, evocando a física moderna para justificar seu apetite insaciável pela música. “Não dá para ligar para números. É só um número. O tempo não existe de fato; fomos nós, humanos, que colocamos um rótulo nele. Einstein disse que o tempo é o que você faz dele”, dispara o guitarrista.
Aos 79 anos, encarando a artrite de Richards e as cicatrizes do passado com altivez, Wood sintetiza o espírito de sobrevivência que o mantém de pé: “Venci o câncer duas vezes, botei para fora e aqui estou. Sem arrependimentos. Você tem que passar por isso para chegar até aqui.”
A entrada de Ronnie Wood nos Rolling Stones, em 1975, pós a saída dos Faces, levou não só o domínio das afinações abertas, além uma telepatia imediata com Keith Richards — resgatando a antiga arte de trançar guitarras (guitar weaving) que definira os anos de ouro do grupo. Com seu temperamento leve e diplomático, assumiu a função de amortecer as crescentes tensões entre Richards e Mick Jagger. Seu primeiro álbum foi “Black and Blue”, de 1976, que trazia forte influência da música negra.
Ronnie Wood fará um show único no Brasil no dia 1º de novembro, no Espaço Unimed, em São Paulo


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