Em uma demonstração irretocável de virtuosismo e entrega, o gênio de New Orleans conecta o jazz da Louisiana à bossa nova carioca, ignora a ditadura dos hits radiofônicos e transforma o Palco Mundo no ritual mais pulsante do festival
Primeira atração internacional desse dia 7 de setembro, Jon Batiste pisou firme no Palco Mundo no Rock in Rio, provavelmente ciente da missão difícil de se apresentar logo após o concorrido e emocionante show do Roupa Nova com Guilherme Arantes no Sunset. “Isso não é um show, é uma prática espiritual. E de onde eu venho, quando a gente toca esse tipo de música, as pessoas não ficam paradas. Preciso sentir sua liberdade.” Foi com essa invocação, entoada durante a execução de “Freedom”, que Jon Batiste sintetizou a essência de sua passagem pelo Palco Mundo. Em um festival marcado por superproduções frequentemente engessadas por cronogramas rígidos, o virtuoso de New Orleans ofereceu algo cada vez mais raro na música pop contemporânea: a catarse imprevisível, orgânica e curativa de uma celebração erguida unicamente sobre a excelência instrumental e a comunhão com o público.
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Forjado na tradição dos desfiles de rua, do jazz e do gospel de sua Louisiana natal, Batiste entende que a música de sua terra não aceita a passividade. A plateia não é mera espectadora, mas elemento percussivo indispensável. Ainda que não ostente uma coleção de hits de rádio massivos no Brasil — o que acabou dividindo uma parcela do público com o show de Belo no Palco Favela —, o norte-americano ignorou as fronteiras do repertório. Trajando uma camiseta azul do Brasil, fez do palco a sua congregação. Com um sorriso constante de quem se diverte sem esforço, o músico alternou-se entre o piano, a bateria, a escaleta e a regência de sua impecável banda, provando que quando a técnica atinge o estado de arte, os artifícios visuais tornam-se redundantes.

Essa versatilidade atingiu picos de pura erudição pop no momento mais contemplativo da noite. A ponte estética entre o Rio e New Orleans ganhou ainda mais calor quando o artista cedeu a voz principal à brasileira Nêgah Santos para uma versão contagiante de “Mas Que Nada”, de Jorge Ben Jor — curiosamente, a segunda vez que a composição ressoou nesta edição do festival, após a leitura pop do Black Eyed Peas no domingo (6). Já em “I Need You”, bastou a entrada firme do contrabaixo e da percussão para que o gramado respondesse em peso, transformando a Cidade do Rock em um templo de palmas e dança.
Imerso em seu ambicioso projeto de releitura dos cânones da música ocidental — cristalizado em trabalhos como Beethoven Blues e Black Mozart —, Batiste dedilhou os compassos de “Für Elise” ao piano enquanto, simultaneamente, operava as frequências graves de um synth pad com a outra mão. Sem sobressaltos, a citação clássica desaguou na harmonia imortal de “Chega de Saudade”. Já em “I Need You”, bastou a entrada firme do contrabaixo e da percussão para que o gramado respondesse em peso, transformando a Cidade do Rock em um templo de palmas e dança. “Always Known” e “Butterfly” contaram com a performance da bailarina Ingrid Silva.
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O encerramento do rito deu-se à moda das tradicionais second lines de sua terra natal. Alinhado com sua banda em cortejo de metais, Jon Batiste avançou pelo palco promovendo o que batizou de “love riot” — uma rebelião de afeto e ritmo e um lembrete vívido de que o groove continua sendo a linguagem universal mais poderosa do planeta. O público não foi dos maiores, mas certamente foi conquistado, lembrando muito o que Janelle Monáe, ainda relativamente desconhecida dos brasileiros, realizou em 2011, abrindo o mesmo palco na noite de Stevie Wonder.
Setlist:
- Worship
- AMERIICAN REQUIEM (Interlude)
- FREEDOM
- All the Things You Are / Chopin in Brazil
- Mas que nada (cover de Jorge Ben Jor) (com Nêgah Santos)
- BIG MONEY
- How Come U Don’t Call Me Anymore (cover de Prince)
- I NEED YOU
- Night Time Is the Right Time (cover de Roosevelt Sykes)
- Für Elise – Batiste
- Alla Blues
- Batiste Improvised Movement
- Chega de saudade (cover de Antônio Carlos Jobim)
- Always Know (com Ingrid Silva)
- Butterfly


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