Em sua estreia tardia no festival, a lenda do big beat, Fatboy Slim, transforma o New Dance Order no afterparty definitivo após as despedidas de Elton John e Gilberto Gil, provando que o groove permanece como o ritual mais democrático da cultura pop
Fatboy Slim assumiu as picapes pouco depois de as luzes do Palco Mundo se apagaram e a poeira baixou após a celebração histórica de Elton John, a Cidade do Rock encontrou-se em um ponto de inflexão. O encerramento do primeiro final de semana do Rock in Rio 2026 havia sido um desfile de majestades: João Bosco levara a sofisticação octogenária da MPB ao Global Village; o Roupa Nova erguera um templo de harmonias vocais ao lado de Guilherme Arantes no Sunset; e Gilberto Gil entronizara sua realeza antes de o astro britânico entregar seu adeus em grande estilo.
Faltava, porém, a peça final para selar a travessia. O rito de passagem derradeiro não veio da canção tradicional, mas das frequências graves do New Dance Order, onde Norman Cook transformou a madrugada em uma celebração rave.
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Aos 63 anos, o famoso DJ realizou uma estreia curiosamente tardia no festival carioca. Embora já tenha desembarcado no Brasil dezenas de vezes ao longo de quatro décadas — construindo uma simbiose tão visceral com o público local que o próprio produtor costuma brincar, em tom irônico, que sua mãe deve ter dormido com um brasileiro sem contar a ninguém —, pisar pela primeira vez na Cidade do Rock carregava o peso de uma dívida histórica. Para Cook, que descreve suas vindas ao país como o reencontro com uma família cuja existência desconhecia, a apresentação foi a coroação de um caso de amor recíproco que ultrapassa a mera rotina de turnês corporativas.
Compreender a presença de Fatboy Slim no encerramento de uma noite comandada por Elton John e Gilberto Gil exige olhar para o passado. O britânico é uma das poucas figuras da cena eletrônica noventista que carrega o status de lenda viva com a mesma dignidade dos gigantes da canção. Afinal, foi ele quem ajudou a desenhar o conceito moderno do DJ como headliner absoluto de multidões.
O lendário evento Big Beach Boutique II, em julho de 2002, quando Cook atraiu mais de 250 mil pessoas para as areias de sua natal Brighton — episódio eternizado no documentário “Right Here, Right Now” —, redefiniu para sempre a escala da música eletrônica no planeta. O New Dance Order, em última análise, é um herdeiro direto dessa revolução estética.

Consciente desse peso, o artista tratou a escalação como uma missão de alta responsabilidade. Dividir a data com patrimônios da música mundial não foi encarado por ele como mero detalhe de camarim, mas como a honra de representar a cultura de pista britânica em um altar sagrado. Essa conexão com o presente e com o solo brasileiro se reflete também em sua produção recente: a faixa “Funk Drunk”, assinada em parceria com a DJ paulista Carola e o produtor Felix Da Housecat, é a prova de que Norman Cook recusa o papel de peça de museu. Ele permanece atento às pulsações urbanas do Brasil contemporâneo, integrando o balanço local à sua arquitetura sonora.
Na prática, o set entregue no New Dance Order funcionou como o afterparty definitivo para um festival exausto, mas insaciável. Sem pausas ou concessões ao facilismo das produções genéricas do EDM moderno, Fatboy Slim desfilou uma aula magistral de big beat, colagens de samples e quebras de bateria. Clássicos atemporais como “The Rockafeller Skank”, “Right Here, Right Now” e a catártica “Praise You” foram costurados a faixas recentes e grooves envolventes (incluindo a versão de “Satisfaction” que depois de anos foi liberada oficialmente pelos Rolling Stones), atraindo um mosaico humano fascinante: de ravers veteranos com estampas dos anos 1990 a jovens e jovens inteiras que se recusavam a ir embora antes da última batida.
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Encerrar a etapa inicial do festival com Norman Cook no comando foi um tiro certeiro de curadoria. Se o Rock in Rio 2026 usou seus primeiros dias para celebrar a memória, a poesia e o lirismo de ícones imortais, cabia à música eletrônica garantir a libertação física do corpo. Sem demagogia, sem pirotecnia excessiva e guiado puramente pelo groove, Fatboy Slim provou que a pista de dança continua sendo o espaço mais democrático da cultura pop.
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio


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