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Crítica

Crítica: A Grande Mentira

Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures

[dropcap size=big]E[/dropcap]m um de seus primeiros encontros, Betty McLeish (Helen Mirren) e Roy Courtnay (Ian McKellen) vão ao cinema assistir a “Bastardos Inglórios”, primeiro filme da trilogia revisionista de Quentin Tarantino. Ao sair da sessão, Roy comenta: “Hitler não morreu metralhado em um cinema francês. Os jovens olham isso e pensam que foi assim que a história aconteceu”. Mais adiante na trama, a mesma personagem afirma que “a história está feita e não há como desfazê-la”. Esses dois momentos, em que Roy nega a possibilidade de reescrever acontecimentos passados ou de abordá-los a partir de uma outra perspectiva, ajudam a compreender o ponto-de-vista do protagonista de “A Grande Mentira”.

Não é mistério algum que Roy é um exímio golpista. Afinal de contas, em menos de dez minutos de filme, ele é mostrado indo de um almoço com Betty – no qual ele encarna a humilde figura do viúvo idoso – a um escuso encontro de negócios em um bar de strip-tease. De forma a deixar isso ainda mais óbvio, o diretor Bill Condon não economiza nos símbolos que representam essa personalidade misteriosa, enganosa e perigosa corporificada pela personagem de McKellen: ao conversar com Betty pelo computador, ele usa óculos (transparentes, mas que representam uma barreira entre o interior e o exterior); a já citada reunião ocorre em um reservado separado do resto do bar por cortinas; ao fechar um negócio fraudulento, atrás de si há uma pintura de um grupo de tigres; ao visitar a casa de Betty pela primeira vez, através de um plano aéreo, percebe-se que o condomínio onde sua vítima mora lembra um labirinto circular (de onde sua presa tem poucas chances de escapar). A partir dessa descrição, percebe-se o motivo para o desprezo de Roy por qualquer tipo de revisionismo histórico: ele trabalha com a construção de narrativas, e para que elas se sustentem (e ele não seja pego), ele deve garantir que a sua visão dos acontecimentos seja a única possível, impassível de dúvidas ou questionamentos.

Por sua vez, Betty encarna plenamente a figura da presa que, graças à sua vontade cega em deixar a solidão de lado, toma decisões extremamente ingênuas. Ao contrário do universo de Roy, marcado pela constante oscilação entre o teatrinho da vida pacata e os esquemas do submundo clandestino, o ambiente que cerca Betty é monótono e previsível. Não à toa, ela mora em um condomínio onde todas as casas são praticamente idênticas, isoladas do movimento e da agitação do centro de Londres, num mundo de paredes beges e móveis planejados. A única aparente disrupção nessa dinâmica é Roy, que representa uma nova e excitante possibilidade afetiva para Betty e uma possível ameaça para seu neto, Stephen (Russell Tovey), que desde o primeiro momento suspeita (com razão) das reais intenções do idoso.

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Em teoria, essas são as bases para um interessante suspense, porém é uma pena que Condon e o roteirista Jeffrey Hatcher tenham dificuldades em torna-lo envolvente. Apesar das boas atuações do trio principal, “A Grande Mentira” tem um sério problema de ritmo, tornando-o enfadonho diversas vezes ao longo da projeção – até mesmo quando as revelações começam a se acumular e as posições das personagens (e os elementos que as caracterizam) são alteradas e ressignificadas, fazendo jus à ambiguidade do título original do longa (“The Good Liar”, o bom mentiroso).

Além disso, a dinâmica entre Roy e Betty custa a empolgar, mesmo com a boa química entre McKellen e Mirren. Muito disso se deve à construção da personagem feminina, que por larga parte da trama apenas assume a posição de vítima ingênua que comete um erro atrás do outro. Por causa disso, os momentos de maior embate do filme ocorrem, em geral, entre Roy e Stephen, o que ocasionalmente acarreta em trechos mais envolventes. Ainda assim, a personagem de Tovey é decididamente coadjuvante, o que garante que esses momentos sejam poucos e bastante espaçados entre si.

No todo, “A Grande Mentira” lembra aqueles filmes que a antiga Miramax de Harvey Weinstein costumava lançar nos anos 1990 e início dos anos 2000: uma mistura de diretor competente, elenco estrelado e roteiro meia-boca sob uma pátina de prestígio, mas que, na verdade, não passa de um projeto decepcionante e indigno dos talentos envolvidos. Nesse caso, como diria Roy, o estrago está feito e não há como desfazê-lo.


Imagens e vídeo: Divulgação/Warner Bros. Pictures

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Crítica: A Grande Mentira
Sinopse
Prós
Contras
2.5
Nota
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Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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