Cinema para cinéfilos

O dia 14 de abril trará grandes estreias ao circuito nacional de cinema, uma delas será a comédia “Ave, Cesar!”, que com um que de prêmios futuros, traz a produção, o roteiro e a direção assinados por Ethan e Joel Coen e um elenco repleto de estrelas hollywoodianas.

“Ave, Cesar!” era uma saudação muito usada pelos gladiadores antes de entrarem na arena, dirigida ao imperador. A expressão significa “Salve, César! Os que vão morrer te saúdam”. Mas agora vocês se perguntam o que um nome com tal peso tem a ver com uma comédia sobre a Hollywood dos anos 50. Pois é, inegavelmente, essa pergunta pode vir à cabeça antes de assistir ao filme e, talvez, depois de vê-lo ainda assim você buscará o significado. Afinal, não há um “Cesar” como personagem e (spoiler)…. ninguém morre.

A trama se desenvolve através de histórias paralelas, mas todas circundadas por Edward Mannix (Josh Brolin), responsável por cuidar da vida pessoal dos famosos para que seus nomes não sejam manchados nos tabloides da época. É ele quem gerencia as produções da Capitol Pictures, uma espécie de “MGM” fictícia, onde estão as maiores estrelas e são feitas as principais produções. Porém, além das muitas polêmicas internas, os problemas aumentam quando o grande astro Baird Whitlock (George Clooney), que está filmando “Hail, Ceaser! (Ave, Cesar!) é sequestrado durante as gravações por uma organização chamada de “O Futuro”.

Opa! Então, é daí que vem o significado da película? O ator sequestrado é o astro da produção que dá título ao filme que estou assistindo. Não! A resposta é mais profunda. Quem acompanha os longas escritos e dirigidos pelos irmãos Coen, sabe que existe algo muito maior do que parece. “Onde os Fracos Não Têm Vez”, “Bravura Indômita” e o louco “Queime Depois de Ler” são só alguns dos títulos, de uma longa filmografia dos irmãos, que podem te provar que nada é exatamente aquilo que parece na tela.

O despretensioso roteiro escrito por eles, ainda que se perca no ritmo, é encharcado de tanto humor perspicaz que seu desenvolvimento torna-se um primor representativo sobre a Era de Ouro em Hollywood. Mesmo sendo retratado como década de 50, é preciso perceber que um espectador comum não irá assimilar tantas referências intrínsecas no texto e na direção. Mesmo que se apresentem muitas vezes de forma escancarada, “olha só, essa cena, esse formato é típico de uma perseguição à noite nos filmes das décadas de 30 a 70”, possivelmente passarão despercebidas, assim como o próprio humor e as inúmeras menções indiretas aos famosos da época.

Não há novidades na direção da irmandade, pois ela é formada por recortes de outras clássicas direções americanas, de renomados filmes, mesmo que eles não sejam verdadeiramente bons. Talvez o ganho mais significativo para a direção seja a excelente fotografia de Roger Deakins, que conseguiu narrar um pouco da história do cinema americano através das composições nas cenas.

Outro ponto positivo é a ótima trilha composta por Carter Burwell, outro que foi capaz de escancarar características da época na trama. Aplicada nos momentos certos e com uma melodia que seria quase reconhecida como de outro filme (não estamos falando de plágio), como se ao escutar fosse capaz de associar a música a outro longa. O que faz de suas composições um espécie de arma narrativa explicativa e ao mesmo tempo subentendida pelo consciente do expectador.

Olhando as atuações, com exceção de Josh Brolin, todas estão propositalmente “acima do tom”. Não há exatamente um destaque no longa. Todos possuem ótimas oportunidades para se destacarem e conseguem realizar isso com uma ótima intensão. Enquanto George Clooney é o galã quarentão Baird Whitlock (o “pegador”) e protagonista de uma superprodução épica, Channing Tatum é o jovial e poser galã Burt Gurney. Alden Ehrenreinch, interpreta Hobie Doyle, um famoso protagonista de uma séries de filmes de faroeste que foi repentinamente escalado para seu primeiro drama dirigido por Laurece Laurentz, vivido por Ralph Fiennes, onde estrelam juntos duas das melhores cenas de todo o filme. Outra ótima cena é quando a atriz Frances McDormand, interpretando a montadora C.C. Calhoun, tem sua micro participação e faz daquele momento um trecho inesquecível do filme.

Scarllet Johansson, como DeeAna Morran, é uma gritante referência à atriz Esther Williams; Tilda Swinton mais uma vez maravilhosa, interpreta as irmãs gêmeas arqui-inimigas Thora e Thessaly Thacker, que são outra referência histórica associada às colunistas sociais Hedda Hopper e Louella Parsons, as principais da época e que não eram gêmeas. Há até uma “Carmen Miranda”, cujo nome da personagem não me vem agora à cabeça.

Olhando como um todo, “Ave, Cesar!” é cinema para cinéfilos. Mesmo que apresente personagens caricatos, exemplares perfeitos de biografias hollywoodianas esquecidas nas livrarias, o filme consegue manter o ar de glamour e falsidade em perfeita sintonia, coisa que os estúdios americanos sempre conseguiram conciliar muito bem. Mas não se pode afirmar que é uma homenagem, nem mesmo uma crítica ao sistema.


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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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