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CríticaFilmes

Crítica: Batman vs Superman – A origem da Justiça

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
25 de março de 2016 6 Mins Read

O tão aguardado embate entre heróis

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Nos anos 80, quando surgiu a primeira hipótese de uma revista que abordava o tema do combate entre dois dos super-heróis mais amados da DC Comics, os fãs ficaram eufóricos só de imaginar àquela possibilidade. Quando a HQ “The Dark Knight returns” (O cavaleiro das Trevas) saiu do forno, em 1986, o resultado foi extremamente positivo, pois trazia uma versão mais experiente e poderosa do personagem Batman, bem como a participação de um Superman superior a qualquer expectativa. Criado por Frank Miller, o encontro resultaria em uma luta épica que entraria para história dos quadrinhos.

Com a “retomada heroica” no mercado cinematográfico, a partir dos anos 2000, na qual os estúdios perceberam, de fato, o poder que os heróis também exerciam sobre as bilheterias, uma potente tempestade de produtos (mascarados ou não) caiu em cheio sobre o colo da população. Apaixonados por histórias em quadrinhos passaram então a criar possibilidades para uma adaptação da famigerada epopeia de Miller para as telonas. E eis que quase 30 anos depois, a DC Comics e a Warner Brothers, em meio a uma invasão temática ainda maior em Hollywood, realizam o sonho dos DCnautas e de outros cinéfilos de plantão. O encontro entre os homens morcego e de aço, enfim, sai das sombras e o embate acontece pelas mãos do ostentoso Zack Snyder.

“Batman vs Superman” preenche muito bem algumas expectativas como, também, frustra bastante com um produto repleto de exageros, do qual foi extraído mais tiros e explosões do que estrutura narrativa, contrariando bastante os anteriores filmes das marcas.

Além da já citada o enredo bebe em uma fusão de outras hq’s, escritas ao longo do tempo, focando de forma original na aversão que Bruce Wayne (Batman) contrai perante ao Superman (Clark Kent), ao observar de perto a destruição criada pela magnificência de seu combate contra o General Zod, vilão que esteve presente no último filme d’O homem de aço. A partir daí, enquanto o mundo passa a dividir opiniões sobre a necessidade do alienígena no planeta terra, Batman se vê determinado a acabar com sua existência. Mesmo sabendo de suas limitações, finda por não encontrar outra solução a não ser enfrenta-lo de uma vez por todas. Nesse meio tempo, Lex Luthor se aproveita das desavenças entre os dois para poder descobrir o ponto fraco de seus inimigos, criando assim uma alternativa para liquida-los.

A produção surge como uma espécie de sequência de “Man of Steel – O homem de aço”, dirigida pelo próprio Snyder em 2013, mas sobressai facilmente como um produto solitário gerando oportunidades, independente de crítica, para outra franquia além daquelas já consideradas. Com grandiosos efeitos, capazes de deixar qualquer um de boca aberta, o filme facilmente irá agradar o público comum e alguns fãs. Mesmo pecando em outros pontos, ao deixar de lado alternativas que poderiam ser abordadas, o projeto cumpre em boa parte com o prometido, explicando alguns detalhes e abrindo “alas” para os demais filmes do Universo estendido DC, incluindo a própria “Liga da Justiça”.

Os roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer, de forma bastante comercial, são os responsáveis por possibilitar o início da expansão das demais obras da DCC, ao proporcionar pela primeira vez a reunião cinematográfica desses dois personagens (Isso sem considerar a presença da “Mulher Maravilha”, um prazer a parte, formando a tão conhecida trindade). Entretanto, perdem uma grande brecha ao não aprofundar no teor psicológico que marca a estrutura dos heróis nos quadrinhos. Mesmo que a ideia inicial dos profissionais fosse uma façanha mais original, o que seria perfeito, eles abraçam diferentes clássicos para cria-la e, mesmo assim, deixam de lado indiscutíveis questões existenciais que caberiam como uma luva no contexto.

A direção de Zack Snyder, talvez seja o maior erro do filme, apesar de ter sido ele o responsável pelo considerável e satisfatório retorno de Superman aos cinemas (depois de tantos fracassos). O diretor perde a mão, e seu olhar visionário, ao tentar proporcionar um espetáculo de efeitos e movimentos. Se o filme mostra algo em demasia é por conta de sua falha ao não conseguir arquitetar uma narrativa precisa e sustentável, no que diz respeito sua decupagem de direção, optando por ângulos errados, “close-ups” desnecessários e uma overdose de câmera lenta que busca forçar um tom “poético” na história, mas acaba afogando a mesma com alguns clichês já cometidos em outras versões de super-heróis feitas para o cinema.

O ótimo Larry Fong, responsável pelas belíssimas fotografias de “Watchmen” e “Super 8”, retrata de forma eloquente a fotografia de “BvS”, ao mesclar tons neutros, com cores frias e quentes, sinalizando com exatidão a esfera vivida por Bruce e Clark. A nuance acinzentada, funciona perfeitamente como a atmosfera futurista pretendida pela obra, oferecendo o ar sombrio e nostálgico que essa merece.

O elenco, tirando Henry Cavill, funciona quase que em sincronia perfeita. Além de determinados personagens coadjuvantes que estão bem na história, Jeremy Irons é um dos pontos altos da mesma, não devendo muito para Sir Michael Caine, o anterior Alfred, ao interpretar com fluidez o tom sarcástico do mordomo da família Wayne. A ótima Amy Adams, como sempre, convence em suas personagens, ainda mais na pele da insistente Lois Lane. Já Gal Gadot é uma grande surpresa do filme, além de instigar bastante como Mulher Maravilha, proporciona algumas das melhores cenas da produção. Jesse Eisenberg, que foi muito comentado ao ser escolhido para o papel de Luthor, não decepciona completamente mas, em algumas de suas falas atravessadas, não é difícil comparar sua interpretação com diversos outros personagens que já fez, incluindo o dono da rede social mais famosa do mundo. Henry Cavill, acaba por ser um peixe fora d’água. É nítido a queda de seu personagem em relação ao filme anterior, deixando-o perdido para fornecer um versão insossa do papel. Outra escolha que também não foi muito apoiada pelos fãs é a Ben Affleck, ao ser convidado para interpretar Batman. Entretanto, o criticado ator fez bonito ao fornecer ao já envelhecido herói o espirito durão, obsessivo e amargo, característica primordial da personagem na obra de Frank Miller.

Outro ponto positivo, e que enriquece bastante o projeto, é o casamento entre a direção de arte de Carolyn “Cal” Loucks e o figurino de Michael Wilkinson. A impecável concepção artística de Loucks, recupera as características do primeiro filme (esse somente com Superman) e nos envolve com categoria em um novo e criativo âmbito gerado para o vigilante de Gotham. Já Wilkinson merece um destaque ainda maior pela veracidade oferecida as cenas através de suas criações. Além dos fidelíssimos trajes desenvolvidos para Batman, em especial o uniforme principal feito com tecido ao invés das convencionais armaduras, ele também ousou ao desenvolver uma roupa menos vergonhosa para o salvador de Metrópolis e, ainda, contradisse ao propor uma cor mais fechada sobre tons neutros para a vestimenta usada pela Mulher Maravilha.

A trilha sonora criada por Hans Zimmer e Junkie XL é repetitiva e enfadonha, tornando-se o segundo grande problema do filme. Através do persistente (quase) motif, somos apresentados a uma tentativa frustrada de estabelecer um clima apocalíptico que, aos poucos, torna-se desnecessário e cansativo.

Independente de exageros e/ou erros de construção dramática, “Batman vs Superman” é bom e, como já disse, vai funcionar para os fãs e grande parte do público que for prestigiar a produção nos cinemas. Mesmo não sendo o filme perfeito, o que muitos outros também estão longe de ser, principalmente quando criam adaptações do universo das histórias em quadrinhos, seja elas criadas pela DC, Marvel ou qualquer outra empresa, a possibilidade de ver encontros como esse é transformadora. Sempre mexeu e continuará mexendo com o imaginário de qualquer um.

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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