Trama de Antônio Calmon estreou em 2002 e apostou em romance, humor e vampiros antes de Os Mutantes levar o universo sobrenatural para a Record
Exibida na faixa das sete da TV Globo, a novela “O Beijo do Vampiro” chamou atenção ao colocar os vampiros no centro de uma trama que misturava fantasia, romance, humor e drama. Escrita por Antônio Calmon, a produção também marcou o retorno do autor ao universo dos vampiros, 11 anos depois de “Vamp”, novela de 1991
24 anos de uma novela diferente
Há 24 anos, a televisão brasileira ganhava uma novela que fugia do tradicional. Em 26 de agosto de 2002, a TV Globo estreava “O Beijo do Vampiro“, trama de Antônio Calmon que misturava romance, humor, fantasia e criaturas sobrenaturais.
Exibida na faixa das 19h, a novela ficou no ar até 3 de maio de 2003 e contou com 215 capítulos. A história se passava em “Maramores“, uma cidade fictícia habitada por humanos e vampiros, onde romances, disputas e segredos movimentavam a trama.
A produção chamou atenção justamente por levar os vampiros para uma novela diária, combinando elementos de fantasia com situações típicas das novelas das sete.
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Uma história de amor que atravessou séculos
A história de “O Beijo do Vampiro” brincava com a ideia de que alguns amores podem atravessar o tempo. No século XII, Cecília (Flávia Alessandra) era uma princesa que despertava a paixão do vampiro Bóris (Tarcísio Meira). Séculos depois, ela reaparecia em outra vida, agora como Lívia, uma mulher casada e mãe de três filhos.
Lívia, portanto, não era apenas uma personagem que se parecia com a antiga paixão de Bóris: ela era a própria reencarnação de Cecília. O mesmo acontecia com Beto (Thiago Lacerda), marido de Lívia, que também carregava a ligação com o passado ao ser a reencarnação do conde Rogério.
É a partir dessa ligação entre passado e presente que a novela desenvolvia seu universo fantástico. A volta de Bóris colocava novamente em jogo um amor que parecia ter ficado no passado, enquanto a vida de Lívia e sua família passava a ser afetada pelos segredos que envolviam sua existência anterior.
Antes de Os Mutantes, os vampiros já tinham espaço na TV
Quando “Os Mutantes – Caminhos do Coração” chegou à TV Record, em 2008, o público já conhecia histórias de vampiros na televisão brasileira. Seis anos antes, “O Beijo do Vampiro” havia levado o tema para o horário das sete da Globo.
A relação de Antônio Calmon com o universo dos vampiros, porém, começou ainda antes. Em 1991, o autor escreveu Vamp, novela que também apostava em criaturas sobrenaturais. Onze anos depois, ele retomou a temática em “O Beijo do Vampiro”, mas com uma abordagem diferente, mais voltada ao romance e aos conflitos familiares.
Assim, a novela de 2002 ocupa um lugar interessante nessa trajetória: veio antes da produção da Record e mostrou que os vampiros já podiam fazer parte de uma novela diária brasileira.

O universo dos vampiros ganhou suas próprias regras
Um dos diferenciais de “O Beijo do Vampiro” estava na maneira como a novela criou um universo próprio para seus personagens sobrenaturais. Os vampiros tinham hábitos e regras específicas e, ao mesmo tempo em que eram apresentados como seres perigosos, também apareciam em situações bem-humoradas.
Eles usavam um protetor solar especial para conseguir andar durante o dia e até produtos para evitar queimaduras provocadas pela água-benta. O núcleo também tinha uma característica curiosa: os vampiros não mordiam crianças, idosos ou gestantes.
Antonio Calmon buscou referências em obras conhecidas do gênero, como “Drácula”, de Bram Stoker, e O “Baile dos Vampiros”, de Roman Polanski. A proposta era justamente misturar o lado sombrio dos vampiros com humor e elementos contemporâneos.
Zeca e a chegada de Kayky Brito à Globo
Outro personagem importante da novela era Zeca, vivido por Kayky Brito. O jovem fazia parte da família de Lívia e Beto, mas sua verdadeira origem estava diretamente ligada ao universo dos vampiros.
O personagem ganhou destaque ao descobrir sua condição e começar a desenvolver poderes, como ler pensamentos e ouvir através das paredes. A transformação também servia como uma metáfora para a adolescência: segundo Antônio Calmon, o vampirismo de Zeca representava a fase em que o jovem começa a desafiar os pais e os valores da família.
Para Kayky Brito, a novela também teve um significado especial: “O Beijo do Vampiro” marcou sua estreia na TV Globo. O trabalho ainda lhe rendeu o Prêmio Contigo! de 2003 na categoria de ator revelação.
Claudia Raia estava grávida de Sophia durante as gravações
Uma das histórias mais curiosas dos bastidores de “O Beijo do Vampiro” aconteceu fora das telas. Claudia Raia estava grávida de Sophia, sua segunda filha com o ator Edson Celulari, quando começou a gravar a novela. Na época, a atriz já era mãe de Enzo, nascido em 1997.
O detalhe acabou provocando uma mudança na própria história. Claudia interpretava Mina, uma vampira que, inicialmente, não poderia engravidar. Ao descobrir que estava esperando Sophia, a atriz contou a Antônio Calmon, que decidiu adaptar a trama para aproveitar a gravidez real.
Em entrevista publicada em 2002, Claudia revelou que o autor chegou a mudar os rumos da personagem para que ela pudesse continuar na novela.
“Ele mudou até a história porque eu era a cara do papel”, contou a atriz.
Na mesma entrevista, ela explicou que não pretendia esconder a barriga e que a gravidez fazia parte das condições para aceitar o trabalho.
A solução encontrada pelo autor foi fazer Mina também engravidar. Assim nasceu Pandora, personagem que tinha uma característica inusitada: ainda na barriga da mãe, ela conversava com Mina. O própria Memória Globo confirma que Antonio Calmon decidiu engravidar Mina depois de saber da gravidez de Claudia.
A gravidez acabou sendo incorporada de vez à novela. Claudia deixou as gravações quando estava com oito meses de gestação para dar à luz Sophia e voltou posteriormente para participar do final da produção. Depois do nascimento da filha, chegou a ser maquiada em casa e fez aparições mais curtas para conseguir amamentar o bebê.
Anos depois, ao relembrar a novela para o Gshow, Claudia falou sobre a experiência e destacou a reação do público às cenas de Mina com a filha ainda na barriga:
“O público adorava e foi um registro lindo de um momento da minha vida pessoal e também profissional.” contou Claúdia.
A história acabou transformando uma situação da vida real da atriz em um dos elementos mais lembrados de “O Beijo do Vampiro”. E, no caso de Claudia Raia, a gravidez de Sophia não apenas aconteceu durante a novela: ela ajudou a mudar os rumos de sua personagem.

Maramores ganhou uma cidade cenográfica própria
Para criar o universo de “O Beijo do Vampiro”, a Globo construiu a cidade fictícia de “Maramores” no Projac. O espaço foi dividido em duas partes: uma área moderna e outra inspirada em construções antigas, separadas por uma ponte baseada na arquitetura de Praga, na República Tcheca.
A equipe também pesquisou livros sobre a estética gótica e filmes ambientados na Idade Média para desenvolver os cenários. Vielas e becos foram planejados para facilitar as cenas envolvendo os vampiros e dar mais movimento à cidade.
A novela criou um universo próprio para os vampiros
Os vampiros de “O Beijo do Vampiro” não seguiam exatamente as regras tradicionais conhecidas pelo público. Antônio Calmon criou características próprias para eles, misturando elementos clássicos do gênero com situações de humor.
Na novela, os vampiros utilizavam protetor solar especial para circular durante o dia, tinham produtos para evitar queimaduras provocadas pela água-benta e bebiam sangue importado da Suíça. Eles também não mordiam crianças, idosos ou gestantes.
Para construir esse universo, Calmon buscou referências em obras como Drácula, de Bram Stoker, e O Baile dos Vampiros, de Roman Polanski.
Uma novela que também conquistou o público jovem
Embora fosse exibida no horário das sete, “O Beijo do Vampiro” conseguiu chamar a atenção de crianças e adolescentes. Segundo dados citados pela Wikipédia com base em informações da época, a novela registrou crescimento de 33% no número de telespectadores infantis em comparação com produções anteriores do horário, e, ao final da exibição, cerca de 30% do público tinha entre 4 e 17 anos.
Esse interesse também ajudou a produção a explorar outros formatos. A novela teve um site próprio, o “Vampiromania”, criado para divulgar conteúdos sobre os bastidores e o universo dos vampiros, além de produtos relacionados à trama, como o gibi As Aventuras de Bóris.
A trilha sonora também entrou no clima da novela
A música teve um papel importante na identidade da produção. A trilha sonora reuniu nomes conhecidos da música brasileira, como Adriana Calcanhotto, Titãs, Fábio Jr. e Alcione.
A abertura ficou marcada por “Blue Moon”, na versão do grupo “The Marcels”, uma escolha que combinava com a atmosfera vampiresca da novela e acabou se tornando uma das lembranças associadas à produção.
O reconhecimento veio com prêmios
O elenco e a produção também receberam reconhecimento durante e depois da exibição da novela. Tarcísio Meira ganhou o Prêmio Austregésilo de Athayde por sua atuação como Bóris, enquanto Kayky Brito recebeu o Prêmio Contigo! de 2003 como ator revelação.
Cecília Dassi foi premiada como melhor atriz infantil por Beatriz, e Marcos Paulo recebeu o prêmio de melhor diretor. A maquiagem da novela também foi reconhecida no Prêmio Contigo!.

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24 anos depois, a novela continua na memória
Ao completar 24 anos, “O Beijo do Vampiro” permanece como uma produção que marcou uma fase em que a televisão brasileira se permitia experimentar mais com fantasia e elementos sobrenaturais.
A novela conseguiu transformar vampiros em personagens de uma história diária, combinando romance, humor, drama e conflitos familiares. E, anos antes de “Os Mutantes” levar uma nova onda de criaturas sobrenaturais para a Record, “O Beijo do Vampiro” já havia mostrado que esse universo poderia ocupar um espaço de destaque na televisão brasileira.
Imagem destacada: Divulgação / TV Globo


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