De mocinhas que dão a volta por cima a vilãs marcantes, humor, bordões e guerras de bolo, veja os elementos que ajudaram a criar o estilo de Walcyr Carrasco
Reconhecer uma novela de Walcyr Carrasco nem sempre depende de saber quem está por trás do texto. Em meio a uma reviravolta, uma personagem exagerada ou uma situação que transforma o drama em comédia, existem elementos que parecem familiares ao público. Desde sua estreia na TV Globo com “O Cravo e a Rosa”, em 2000, o autor passou por diferentes horários e propostas, mas manteve algumas características que ajudam a identificar sua maneira de contar histórias. O próprio Walcyr já afirmou que o humor está presente em suas novelas e que não consegue escrever apenas drama.
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O humor como parte da identidade de Walcyr
Uma das características mais evidentes da dramaturgia de Walcyr Carrasco é a maneira como o humor aparece mesmo quando a história envolve conflitos dramáticos. O autor já explicou que suas novelas têm sempre humor e que precisa rir enquanto escreve cenas cômicas, justamente porque não consegue trabalhar somente com o drama.
Essa característica pode ser percebida desde “O Cravo e a Rosa”, sua primeira novela na Globo, uma comédia romântica que acompanhava o tumultuado relacionamento entre Petruchio e Catarina. A trama combinava o romance dos protagonistas com personagens e situações de forte apelo cômico.
Anos depois, o mesmo princípio apareceria de maneiras diferentes em produções como “Chocolate com Pimenta”, “Caras & Bocas” e “Êta Mundo Bom!”. Em “Caras & Bocas”, por exemplo, o própria Memória Globo destaca as “pinceladas de comédia” da trama, especialmente através da dupla formada por Denis e o chimpanzé Xico.
O interessante é que o humor não precisa ocupar toda a novela. Ele pode surgir dentro de uma situação dramática, em um personagem secundário ou em uma sequência completamente inesperada. É justamente essa mistura que ajuda a criar uma das características mais reconhecíveis do autor: uma novela pode estar tratando de um conflito sério e, poucos minutos depois, transformar a situação em uma grande confusão cômica.
E é a partir dessa combinação entre drama e humor que aparecem outras marcas recorrentes da obra de Walcyr, entre elas, um recurso que se tornou especialmente lembrado pelo público: as guerras de bolo.
A famosa guerra de bolo
Poucos elementos traduzem tão bem o lado mais exagerado e popular do humor de Walcyr Carrasco quanto as cenas em que uma simples torta ou bolo acaba virando uma verdadeira arma. O recurso apareceu em diferentes novelas do autor e ganhou força justamente por transformar situações que poderiam ser dramáticas em sequências de comédia física, com personagens cobertos de comida e uma confusão que rapidamente foge do controle.
Um dos exemplos mais lembrados está em “Chocolate com Pimenta”. A novela de 2003 teve diversas situações envolvendo tortas e bolos, incluindo uma guerra generalizada durante a revolta dos funcionários da fábrica e outra sequência marcante no casamento de Olga (Priscila Fantin) e Danilo (Murilo Benício). O próprio Vídeo Show resgatou uma dessas cenas ao relembrar a “guerra de bolo” da novela.
Mas a tradição não terminou ali. Em “Caras & Bocas”, exibida em 2009, Walcyr voltou a utilizar o recurso e duas situações diferentes da novela acabaram envolvendo bolo e comida em meio a grandes confusões.
A primeira aconteceu durante o noivado de Gabriel (Malvino Salvador) e Laís (Fernanda Machado). A comemoração, que reunia diversos personagens, acabou se transformando em uma sequência de humor quando uma discussão envolvendo Bianca (Isabelle Drummond), Gabriel, Laís e Dafne (Flávia Alessandra) saiu do controle. A situação evoluiu para uma verdadeira guerra de comida, com tortas atingindo personagens que estavam no meio da confusão.
O interessante nessa sequência é justamente o caráter coletivo da cena. Não era apenas uma gag envolvendo dois personagens: o elenco se encontrava reunido e a comemoração acabou virando um caos, com um conflito importante da história sendo convertido em uma situação cômica e visualmente exagerada.
Meses depois, “Caras & Bocas” voltou a explorar o mesmo tipo de humor. Dessa vez, durante o casamento de Judith (Deborah Evelyn) e Edgar (Júlio Rocha), Pelópidas (Marcos Breda) colocou em prática um plano para impedir a cerimônia. Ele detonou uma bomba que destruiu o bolo e lançou pedaços do doce e glacê para todos os lados. O próprio Globoplay descreve a sequência destacando justamente os pedaços de bolo atingindo os convidados.
A repetição do recurso dentro da própria novela é curiosa: duas situações diferentes, dois conflitos diferentes e duas maneiras de transformar o bolo em instrumento de comédia.
E Walcyr ainda levaria essa característica para outras histórias. Em “Êta Mundo Bom!”, por exemplo, Sandra (Flávia Alessandra) protagoniza uma nova guerra de tortas depois de ser deixada no altar. A confusão envolve diversos personagens e até quem não tinha relação direta com o problema acaba atingido. A sequência chegou a ser descrita na imprensa como uma situação que fazia parte das “marcas” do autor.
Por isso, quando se fala nas características recorrentes de Walcyr Carrasco, a guerra de bolo não precisa ser entendida apenas como uma brincadeira que o autor repetiu algumas vezes. Ela representa uma maneira específica de construir humor: pegar um conflito, aumentar suas proporções e transformá-lo em uma sequência visual, caótica e inesperada.
É o tipo de cena em que a discussão começa por um motivo sério, mas termina com personagens cobertos de bolo e justamente essa mistura entre drama e absurdo ajuda a explicar uma das características mais reconhecíveis do estilo de Walcyr.
Bordões que ultrapassam a novela
Outra característica que aparece em diferentes novelas de Walcyr Carrasco é a criação de personagens com uma maneira muito própria de falar. Em alguns casos, uma expressão se transforma em bordão e passa a ser tão associada ao personagem que continua na memória do público mesmo anos depois do fim da novela.
Um dos exemplos mais conhecidos está em “Caras & Bocas”. Bianca (Isabelle Drummond) popularizou a expressão “É a treva!”, utilizada pela personagem em momentos de irritação, indignação ou diante de alguma situação que considerava absurda. A frase se tornou uma das marcas de Bianca e é lembrada entre os bordões que marcaram a teledramaturgia.
Em “Chocolate com Pimenta”, o exemplo mais emblemático é Márcia, interpretada por Drica Moraes. A manicure, que tinha mania de grandeza e se considerava uma mulher sofisticada, repetia a frase “Eu sou chique, benhê!”. O bordão se tornou tão associado à personagem que, anos depois, Drica recebeu do Canal Viva o prêmio de Melhor Bordão pela expressão.
O mais interessante, porém, está na origem da frase. Em entrevista ao Gshow, Drica Moraes explicou que o bordão nasceu de uma combinação entre sua interpretação e o texto de Walcyr. Segundo a atriz:
“Quando eu coloquei o sotaque na prosódia, resolvi incluir o ‘bem’ e aí eu e Walcyr casamos nesse bordão, foi um meio a meio de criação.” revelou a atriz.
A declaração mostra que a construção de um bordão pode ir além do que está originalmente escrito no roteiro. A maneira como o ator desenvolve a voz, o sotaque, a personalidade e o ritmo de fala também pode contribuir para transformar uma expressão em uma característica definitiva do personagem.
O próprio Walcyr Carrasco também reconheceu a importância da frase. Em 2010, ao comentar o trabalho de Drica Moraes, o autor relembrou a parceria entre os dois e citou diretamente a personagem de “Chocolate com Pimenta”:
“Chocolate com Pimenta! Quem não se lembra dela dizendo: ‘Eu sou chique benhê!’?” concluiu o autor.
A fala de Walcyr é especialmente interessante porque demonstra que o bordão já havia se incorporado à memória do próprio autor como uma das marcas mais reconhecíveis da personagem.
Anos depois, em “Amor à Vida” em 2013, Walcyr voltou a criar um personagem cuja maneira de falar se tornou fundamental para sua popularidade. Félix, interpretado por Mateus Solano, ficou conhecido pelo sarcasmo, pelo humor ácido e pelas expressões que ajudavam a traduzir sua personalidade.
Entre as frases associadas ao personagem está “Eu salguei a Santa Ceia”, utilizada por Félix em momentos de desespero ou quando acreditava estar sendo perseguido pelo azar. A expressão aparece em listas de bordões marcantes da teledramaturgia.
Félix mostra que esse recurso não ficou limitado às comédias ou às novelas de época. “Amor à Vida” possuía uma trama marcada por conflitos familiares e dramas intensos, mas o personagem conseguia introduzir humor por meio de sua personalidade e de uma maneira muito particular de se expressar.
No fim, Bianca, Márcia e Félix são personagens bastante diferentes, de novelas distintas e de fases diferentes da carreira de Walcyr. Ainda assim, existe um ponto em comum entre eles: cada um ganhou uma linguagem própria, capaz de fazer o público reconhecer imediatamente quem estava falando.
É assim que um bordão deixa de ser apenas uma frase repetida no roteiro e passa a funcionar como parte da identidade do personagem e, em alguns casos, como uma das lembranças mais duradouras de toda a novela.
A mocinha sofre, dá a volta por cima e volta para se vingar
Uma das características mais associadas pelo público às novelas de Walcyr Carrasco é a trajetória da mocinha injustiçada que sofre uma grande queda, se transforma e retorna disposta a acertar as contas. O recurso aparece de forma evidente em “Chocolate com Pimenta”, “O Outro Lado do Paraíso” e, atualmente, em “Quem Ama Cuida”.
Em “Chocolate com Pimenta” (2003), Ana Francisca (Mariana Ximenes) é humilhada, deixa Ventura e retorna anos depois rica e determinada a se vingar daqueles que a fizeram sofrer. Em “O Outro Lado do Paraíso” (2017), Clara (Bianca Bin) passa por uma situação ainda mais extrema: é internada injustamente, perde anos de sua vida e volta a Palmas depois de recuperar a liberdade e a fortuna, decidida a enfrentar seus algozes.
A semelhança entre as duas trajetórias foi percebida pelo público, que comparou o retorno de Clara ao de Ana Francisca. A estrutura também tem uma explicação dada pelo próprio Walcyr. Ao falar sobre “O Outro Lado do Paraíso”, o autor definiu a trama como um “folhetim clássico” e explicou:
“Através da saga da heroína Clara (Bianca Bin) temos os elementos do folhetim clássico em uma estrutura romântica por excelência, mas com temáticas modernas.”
Walcyr também revelou diretamente a inspiração para a trajetória de Clara. Ao comentar “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, escreveu:
“O Conde de Monte Cristo é um folhetim clássico francês que adoro e que me inspirei para criar a história de Clara em O Outro Lado do Paraíso.”
A referência é bastante significativa: no romance de Dumas, Edmond Dantès é preso injustamente, consegue escapar depois de anos e retorna rico para se vingar daqueles que destruíram sua vida. A estrutura foi adaptada por Walcyr para a trajetória de Clara.
A fórmula reaparece, com diferenças, em sua novela atual, “Quem Ama Cuida”. Adriana (Letícia Colin) é condenada injustamente pela morte de Arthur Brandão, passa seis anos presa e, depois de conquistar a liberdade, decide descobrir os responsáveis e se vingar.
Ao apresentar a protagonista, Walcyr fez questão de destacar que ela não seria uma mocinha passiva:
“Adriana não é uma mocinha frágil, mas uma mulher empoderada, capaz de enfrentar tudo na vida.”
Assim, as histórias não são iguais, mas repetem uma estrutura reconhecível: a protagonista sofre uma grande injustiça, passa por uma transformação e retorna em uma posição de força. No caso de Walcyr, a vingança não aparece apenas como recurso dramático: em “O Outro Lado do Paraíso”, o próprio autor assumiu a inspiração em um dos grandes clássicos de vingança da literatura.
Mulheres fortes que não ficam em segundo plano
Outra característica bastante presente nas novelas de Walcyr Carrasco é a construção de personagens femininas que movimentam a história e não ficam apenas esperando que os acontecimentos decidam seu destino.
Catarina, em “O Cravo e a Rosa”; Ana Francisca, em “Chocolate com Pimenta”; Clara, em “O Outro Lado do Paraíso”; Maria da Paz, em “A Dona do Pedaço”; e Adriana, de “Quem Ama Cuida”, são exemplos de protagonistas que passam por conflitos muito diferentes, mas ocupam o centro de suas próprias histórias.
Em entrevista sobre “A Dona do Pedaço”, Walcyr resumiu essa característica de sua dramaturgia:
“Todas as minhas tramas, ou a maioria delas, destacam a força do feminino.” conta Walcyr.
Essa força, porém, não aparece apenas nas protagonistas. Walcyr também criou vilãs que assumem um papel central nas histórias e conseguem marcar tanto quanto as mocinhas.
Um dos melhores exemplos está em “Alma Gêmea”. Cristina (Flávia Alessandra) é a grande vilã da novela, movida pela ambição e pelo desejo de se casar com Rafael (Eduardo Moscovis). Inconformada com a riqueza e a felicidade da prima Luna (Liliana Castro), ela passa a agir contra aqueles que considera obstáculos para seus planos.
Cristina chega a participar da trama que provoca a morte de Luna e, depois, continua perseguindo Serena (Priscila Fantin), sem aceitar que a jovem possa ocupar o lugar que ela sempre desejou. A Memória Globo destaca justamente suas armações e o papel central que a personagem desempenha na história.
Ela representa um outro lado dessa característica: a mulher que não aceita ficar em segundo plano, mesmo quando ocupa o papel de antagonista. Cristina não está apenas no caminho da protagonista; suas ambições ajudam a movimentar boa parte da trama.
O mesmo pode ser observado em personagens como Sophia, de “O Outro Lado do Paraíso“; Josiane, de “A Dona do Pedaço“; e Irene, de “Terra e Paixão“. Em suas novelas, as mulheres podem ocupar diferentes posições na história, mas raramente passam despercebidas.
Assim, a força feminina aparece de vários lados nas histórias de Walcyr: na mocinha que enfrenta uma injustiça, na mulher que luta pela própria independência, na personagem que defende sua família e também na vilã que não aceita perder.
O que faz uma novela ter “cara de Walcyr”?
Depois de tantas novelas, alguns elementos acabam ficando fáceis de reconhecer. Uma mocinha que passa por uma grande injustiça, uma vilã que não mede esforços para conseguir o que quer, personagens que roubam a cena pelo humor, bordões que pegam e aquelas situações que parecem ter saído diretamente de uma novela de Walcyr Carrasco.
Isso não significa que o autor conte sempre a mesma história. “O Cravo e a Rosa”, “Chocolate com Pimenta”, “Alma Gêmea”, “Caras & Bocas”, “Amor à Vida” e “O Outro Lado do Paraíso” têm propostas bem diferentes.
Em uma entrevista sobre “Caras & Bocas”, o próprio Walcyr explicou que não estava preocupado em repetir uma identidade de novela para novela:
“Não estou de fato preocupado em criar uma identidade diferente e sim em criar um estilo.” afirma o autor.
A frase ajuda a entender justamente o que o público percebe ao longo dos anos. As histórias mudam, os personagens mudam e até o tom pode ser diferente, mas alguns elementos acabam reaparecendo.
Talvez seja por isso que certas cenas provoquem aquela sensação imediata de familiaridade. O público reconhece o jeito de contar a história, mesmo quando os personagens e os conflitos são outros.
No final das contas, é essa mistura que ajuda a explicar o chamado “estilo Walcyr”. Pode mudar a época, o horário, a protagonista, a vilã ou o conflito principal, mas alguns ingredientes continuam aparecendo pelo caminho.
E talvez a melhor prova de que esse estilo existe seja simples: quando uma cena começa e o público já pensa “isso é muito Walcyr”, o autor conseguiu criar uma identidade própria.

Imagem Destacada: Divulgação/Globo (Fotografia: Kiko Cabral / Via Gshow)


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