Com Anne Hathaway e Ewan McGregor, produção aposta na nostalgia dos anos 80, sobrevivência e criaturas convincentes para construir sua própria identidade
A nova produção de J. J. Abrams, “O Fim da Rua“, com David Robert Mitchell no roteiro e grandes estrelas no elenco, consegue surpreender ao trabalhar com um tema que, durante muitos anos, praticamente virou sinônimo de uma única franquia. Quando alguém fala em filmes com dinossauros, é quase impossível não pensar imediatamente em “Jurassic Park” ou “Jurassic World“. Então, partir para esse universo e tentar criar uma identidade própria já seria um desafio enorme para qualquer produção.
A sinopse de “O Fim da Rua” é relativamente simples. Uma família vive durante os anos 80 em uma cidade chamada Oak Street, levando uma rotina aparentemente normal, até que alguns acontecimentos muito bizarros começam a surgir do nada. E esses acontecimentos são nada mais, nada menos, do que dinossauros invadindo a cidade.
Parece absurdo? Parece. Mas funciona muito melhor do que poderia parecer apenas lendo essa premissa.
LEIA MAIS
A Mulher Mais Rica do Mundo | O Equilibrio Entre a Comédia Ácida e o Drama Burguês!
O Convite | Um Jantar Caótico Sobre Intimidade e Relacionamentos
Enola Holmes 3 | Elementar, Meu Caro Espectador: Muito Alarde pra Pouco Mistério!

A ambientação dos anos 80 funciona muito bem
O filme se passa durante a década de 80 e essa ambientação é um dos grandes acertos da produção. Existe um capricho enorme para fazer com que praticamente tudo remeta ao período.
As casas, as roupas, os carros, os objetos utilizados pelos personagens e até a forma como as famílias interagem ajudam muito nessa construção. As crianças brincando pelas ruas e andando de bicicleta também trazem imediatamente aquela pegada dos filmes americanos que retratam os anos 80. E isso está muito bem executado.
Você realmente consegue entrar naquele período sem parecer apenas que colocaram algumas roupas antigas nos personagens e disseram que o filme se passa nos anos 80. Existe uma preocupação de toda a produção em fazer com que aquele universo pareça verdadeiro.
A fotografia também ajuda bastante nisso. O filme utiliza uma iluminação que combina com a época e consegue fazer Oak Street parecer uma cidade extremamente comum antes de toda a loucura começar. Essa normalidade inicial é importante justamente porque aumenta o impacto de tudo que acontece depois.

A construção da história prepara bem o caos
O desenvolvimento da narrativa também é bem construído desde o começo.
Primeiro, o filme apresenta uma cidade simples vivendo sua rotina. Você conhece aquela família, entende alguns de seus problemas e percebe que não existe nada extremamente fora do comum naquele ambiente.Até que tudo começa a mudar.
E o longa vai aumentando essa sensação de estranheza aos poucos antes de realmente mostrar qual é o principal problema daquela cidade. Quando os dinossauros entram de vez na história, o filme muda completamente sua dinâmica e assume uma pegada muito mais de sobrevivência.
Essa transição funciona porque o público já teve tempo suficiente para conhecer os personagens antes de começar toda a confusão. Não parece apenas que o filme colocou pessoas aleatórias correndo de criaturas gigantes. Existe uma família ali e você já entende o que cada um deles representa dentro daquela história.

Os dinossauros realmente funcionam
Se existe uma coisa que precisava dar certo em “O Fim da Rua“, eram os dinossauros. E nesse ponto, o CGI teve um capricho muito grande.
As criaturas são visualmente muito bem feitas e conseguem transmitir aquela sensação de perigo que o filme precisa. Existe também uma preocupação em trazer elementos ligados às descobertas mais modernas sobre esses animais, incluindo detalhes de pelagem e outras características que foram sendo estudadas ao longo dos anos.
Isso dá ao filme uma identidade visual um pouco diferente daquilo que o público normalmente está acostumado a assistir nesse gênero. Os dinossauros realmente parecem fazer parte daquele ambiente. Em algumas cenas, principalmente quando estão próximos dos personagens, a integração funciona muito bem.
E o mais importante: eles conseguem gerar medo. Não adianta ter um CGI impecável se você não acredita que aquele animal representa perigo. Aqui, o filme consegue transmitir tensão, angústia e aquela sensação constante de que algum personagem pode estar em risco.

Anne Hathaway mostra mais uma vez sua versatilidade
Quando o assunto são as atuações, Anne Hathaway, como Denise, mais uma vez entrega aquilo que se espera dela. E talvez até um pouco mais.
Ela consegue se aventurar em um tipo de filme totalmente diferente daquilo que muita gente está acostumada a assistir em sua carreira. Estamos falando de uma produção de sobrevivência, ação e criaturas gigantes, algo que poderia parecer estranho para quem associa Anne principalmente a dramas, romances e comédias.
Para quem questionava sua presença em um filme desse tipo, a resposta dela foi muito boa. Anne entrega mais uma atuação de alto nível e mostra novamente a grande atriz que é. É ainda mais interessante considerando que esse já é o terceiro filme no ano em que ela consegue aparecer em propostas muito diferentes e continuar tendo destaque.
Denise funciona como personagem porque você acredita nela como mãe, esposa e alguém tentando sobreviver diante de uma situação que simplesmente não deveria estar acontecendo.

Ewan McGregor entrega um pai digno de heroísmo
Além dela, temos Ewan McGregor como Greg, pai da família e marido de Denise. E ele consegue trazer muito bem aquele pai típico dos filmes americanos ambientados nos anos 80.
Greg trabalha em diferentes bicos para conseguir sustentar a família, enfrenta problemas no relacionamento com a esposa e claramente carrega algumas frustrações pessoais. Ao mesmo tempo, ele é um grande pai.
A atuação de Ewan McGregor nesse aspecto é um dos grandes pontos do filme. Em vários momentos, as atitudes do personagem são dignas de heroísmo, mas sem fazer com que ele vire simplesmente um super-herói dentro daquela situação. Ele continua sendo um homem comum tentando proteger sua família. Isso faz toda diferença.
As atuações dos filhos também possuem importância dentro da história. Christian Convery como Brian e Maisy Stella como Audrey Platt representam aqueles adolescentes que também possuem seus próprios problemas e conflitos, mas que precisam amadurecer rapidamente quando a situação sai completamente do controle. Ambos funcionam bem e ajudam a sustentar essa dinâmica familiar.

Tensão e humor conseguem andar juntos
Apesar de toda a tensão que “O Fim da Rua” apresenta durante praticamente todo o filme, a produção também consegue trazer momentos de alívio cômico. E isso ajuda bastante.
Algumas cenas seriam inimagináveis em outros filmes que trabalham com dinossauros, justamente porque aqui existe uma liberdade maior para brincar com determinadas situações. O filme entende que pode trabalhar com tensão e ainda assim permitir que o público dê algumas risadas. Essa mistura evita que a produção fique pesada demais e ajuda o ritmo a continuar funcionando.
APROVEITE JÁ
Narrativa Cinematográfica: Contando histórias com imagens em movimento
Quentin Tarantino: o icônico cineasta e sua obra
Christopher Nolan: O cineasta icônico e sua obra
IMAX ajuda, mas não é obrigatório
Apesar de “O Fim da Rua” ter sido gravado pensando também em salas IMAX, não é aquele tipo de filme que obrigatoriamente precisa ser assistido nesse formato. Claro que existe diferença. Principalmente no áudio.
Os sons dos dinossauros, impactos e momentos de susto ficam muito mais fortes em uma sala com esse tipo de estrutura. Porém, em relação à imagem, não existe algo que mude completamente a experiência do espectador caso ele assista em uma sala tradicional.
Não é um daqueles filmes em que você sai pensando que perdeu metade da experiência porque não viu em IMAX. E talvez por isso seja uma produção que consiga desempenhar muito bem quando chegar ao streaming.
É aquele filme que provavelmente vai encontrar muita gente simplesmente navegando pelo catálogo, olhando a sinopse e pensando: “como assim uma família dos anos 80 enfrentando dinossauros?”. E vai dar o play.

Vale a pena assistir?
No geral, “O Fim da Rua” é um filme muito bom e consegue aproveitar uma ideia que poderia facilmente cair no genérico. A ambientação dos anos 80 funciona, o elenco entrega boas atuações, os dinossauros possuem um CGI muito bem trabalhado e a história consegue manter o interesse do público durante boa parte da duração.
O longa também deixa alguns furos no roteiro e determinadas perguntas sem respostas, o que pode incomodar quem espera que tudo seja explicado até o final. Ao mesmo tempo, esses espaços também deixam margem para continuações e até para o desenvolvimento de uma franquia, caso essa seja realmente a intenção da produção.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores curiosidades sobre “O Fim da Rua“. Durante muitos anos, falar de dinossauros no cinema praticamente significava falar de uma franquia específica.
Agora existe pelo menos mais alguém tentando entrar nessa rua.
Imagem Destacada: Divulgação/Warner Bros Pictures



Sem comentários! Seja o primeiro.