Querido diário…

Essa era a maneira mais comum de cumprimentar o queridinho das adolescentes de algumas gerações atrás. Depois dessa saudação, tudo de mais importante que tinha acontecido no dia era despejado nas páginas. Acontecia ali uma catarse. O diário era o melhor amigo, aquele que guardava os maiores segredos e o melhor, não contava nada pra ninguém. Funcionava como uma confissão. Era um jeito de refletir sobre todas as ações daquele dia, organizar os pensamentos e equilibrar as emoções. O desabafo em forma de escrita, ajudava a superar as experiências traumáticas para começar tudo de novo no dia seguinte.

Essa prática não é mais tão comum nos dias de hoje. O tempo foi passando e o hábito de manter um diário foi ficando de lado. Adolescentes de agora não cresceram com esse costume. Ainda mais por pertencerem a uma geração totalmente digital. O tempo é todo tomado por redes sociais e jogos eletrônicos. Tarefa muito difícil tentar encaixar uma atividade analógica, como escrever à mão em um diário de papel.

Mas, de um tempo pra cá, parece que alguma coisa tem mudado. Uma atividade que antes era usada apenas de forma lúdica e por uma determinada faixa etária, agora tem voltado a fazer parte da nossa vida como algo mais sério e sem limite de idades. Alguns estudos têm mostrado efeitos positivos da narrativa escrita sobre a saúde em geral, física e psíquica de pessoas que têm separado um tempinho do seu dia para registrar no papel suas experiências diárias. As negativas, como um luto, podem ser, inclusive, uma terapia eficaz em determinadas circunstâncias.

Conhecida como Escrita Terapêutica, a técnica consiste em escrever sem pensar muito no resultado final. Sem aquela pressão para que tudo esteja escrito de forma super correta e impecável. Ajuda a pessoa a descrever detalhes de experiências negativas, explicitar sentimentos e a colocar os fatos em ordem. Melhora a autoestima e ajuda a superar experiências traumáticas e problemas emocionais. Traz um bem estar emocional e melhora a saúde física. O que for escrito não será publicado em nenhum lugar. Ninguém vai ler. Apenas você. Então, não deixepassar essa oportunidade. Aproveite!

A maioria das pessoas vai ter que lidar, em algum momento da vida, com uma ansiedade que absorve energia e aumenta o estresse. Por meio da reflexão escrita, pode-se perceber o sentimento que está relacionado ao estresse e a partir desse ponto, tentar entender essa emoção para resolver certas questões que ficam povoando a mente.

Alguns profissionais da psicologia já adotaram o diário terapêutico como um recurso para auxiliar no processo psicoterapêutico e no amadurecimento pessoal de seus pacientes. Ele é usado pra que escrevam livremente sobre as situações que trazem desconforto emocional. Por isso, aqueles que se dedicam a escrever, apresentam uma melhora considerável nos sintomas que os levaram à procurar uma terapia.

A escrita terapêutica é um ato de autoconhecimento. É escrever pensamentos e sentimentos mais profundos para tentar entender situações, solucionar problemas e chegar a uma compreensão mais profunda de si mesmo. É usar a escrita para ganhar foco e clareza sobre o momento que está passando, para em seguida encontrar respostas para os conflitos. Escreva para entender o que aflige. Esse tipo de escrita é introspectiva, pessoal e emocional. Funciona como uma descarga de sentimentos e emoções, aliviando mente e alma de maneira segura.

O professor de psicologia Jordan Peterson, da Universidade de Toronto, no Canadá, sempre teve um fascínio pelos efeitos que a escrita exerce sobre a organização de pensamentos e emoções. “O ato de escrever é mais poderoso do que as pessoas pensam”, diz Peterson. Em um determinado momento da sua vida acadêmica, ele questionou se a escrita poderia ser vista como uma ferramenta que trouxesse alguma mudança na motivação dos alunos. Então criou um curso de graduação chamado “Mapas de significado”, onde os alunos fazem um conjunto de exercícios que combinam escrita expressiva com estabelecimento de metas. Os estudantes refletem sobre momentos importantes do passado e identificam as principais motivações pessoais. A partir daí criam planos para o futuro, incluindo metas e estratégias para superarem obstáculos. A essas duas partes, Peterson deu o nome de “autoria passado” e de “autoria futuro”. Como exemplo positivo dessa experiência, surge Christine Brophy, que, por muitos anos na faculdade, lutava contra o uso de drogas e problemas de saúde. Ela estava a ponto de abandonar tudo. Até que decidiu aceitar a proposta do programa de escrita do professor. Depois disso, sua vida mudou. Hoje em dia ela faz doutorado e é uma das principais assistentes de pesquisa de Peterson.

Benefícios à saúde

Um estudo realizado na Universidade da Califórnia, nos EUA, comprovou que uma área do cérebro chamada córtex pré-frontal ventrolateral direito, que fica escondida logo atrás dos olhos, é ativada quando falamos e escrevemos sobre as emoções e um efeito terapêutico é produzido nesse momento. Isso reduz aquele desconforto provocado nas amígdalas, que também conhecemos como “nó na garganta”.

Além disso, outros vantagens já foram comprovadas cientificamente

– Diminui o stress e a ansiedade;
– Diminui a pressão arterial;
– Melhora a concentração e a memória;
– Melhora o sono;
– Fortalece o sistema imunológico;

Prática da escrita terapêutica

– Escolha um caderno para ser o seu diário
– Reserve todos os dias alguns minutos para escrever no seu diário. Dedique-se a ele e vá acrescentando os itens aos poucos
– Escreva o que te faz bem, as atividades que gosta de fazer, suas conquistas. Tudo o que te deixa feliz
– Escreva também o que te angustia. Coloque pra fora. Desabafe!
– O ideal é escrever no papel. Mas se quiser, pode também utilizar algum meio digital. O importante é escrever livremente

Então escreva… Apenas escreva…
Deixe sair livre e leve… Deixe fluir suas palavras secretas…

Embarque nessa viagem de autoconhecimento utilizando o recurso da escrita.
Permita que traumas antigos sejam liberados, tratados e curados. É compreendendo o passado que um novo futuro pode ser construído de forma saudável.  Você é o único que sabe o tamanho dos seus problemas e das suas dores. Escrever é a maneira de se reconectar ao que importa pra você e a recuperar o que tem sido engolido pelo stress e pela ansiedade. É a forma encontrar a sua voz interior e reestabelecer a relação com ela. Essa intimidade com a escrita faz parte do processo da cura. É o caminho que vai ajudar a silenciar a mente e fazer cessar o caos mental em uma grande e linda viagem ao interior.

Dica importante: Mantenha o hábito de escrever em um diário, mas não exclua a consulta com o Psicólogo. Muitas vezes é necessário ter um acompanhamento mais aprofundado com um profissional.


Apoia-se

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Erika Kohler

Jornalista (com diploma), escritora metida a cronista e decoradora. Não necessariamente nessa ordem. É uma artista múltipla! Tem a arte no DNA e por isso é amante do mundo das artes. De todas as formas: Cênicas, Visuais e Plásticas.
Carioca, já foi rata de praia, mas hoje prefere o inverno. É gateira de carteirinha e apaixonada por pinguins. Os livros fazem parte da sua vida e estão sempre por perto. Talvez tenha nascido no século errado porque ama o Vintage e o retrô. Adora assistir filmes e séries, sempre acompanhada por um baldão de pipoca. Torce para encontrar com o gato da Alice, pra ele indicar a estrada dos tijolinhos amarelos, que vai direto para a Fantástica Fábrica de Chocolate!!

Previous Review: The Walking Dead (S08 Ep11 – “Dead or Alive Or”)
Next Crítica: Círculo de Fogo – A Revolta

1 thought on “O poder da escrita terapêutica

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close