Completando 10 anos de história, um retrospecto do Poesia Acústica é também de tudo que mudou na cena durante esse tempo junto do projeto
O Poesia Acústica, um dos projetos mais emblemáticos do cenário musical brasileiro, nasceu de uma proposta despretensiosa de divulgação da marca de roupas Pineapple Supply, criada por Paulo Alvarez, que, em conjunto com o produtor musical Lucas Malak, decidiu investir em um projeto musical baseado na colaboração entre diferentes MCs em uma única faixa.
A ideia surgiu após Paulo investir no projeto musical “Favela Vive”, em parceria com a produtora ADL, para divulgar sua marca. O empresário percebeu que o impacto na procura por seus produtos havia aumentado após o lançamento audiovisual de “Favela Vive”, superando o número de vendas obtidas por meios de contato direto.

A partir disso, surgiu em Paulo Alvarez a ideia de criar um canal no YouTube que pudesse funcionar como uma vitrine de divulgação de seu negócio. Para isso, porém, ele precisou procurar um sócio. Após uma ponte construída pelo rapper Froid, conheceu Lucas Malak e fez o convite que mudaria a vida de ambos.
O projeto ganhou proporções enormes após o sucesso de sua segunda edição, intitulada “Poesia Acústica #2 — Sobre Nós”, e se tornou um divisor de águas tanto para seus criadores quanto para a música nacional. Nomes grandes do rap e de outras vertentes passaram a compor os elencos das faixas do projeto, que variam a cada lançamento.
O projeto também passou a ganhar extensões e versões especiais, mostrando que sua proposta ultrapassava o formato tradicional das cyphers. Entre elas estão “Poesia Acústica Paris”, “Poesia Acústica Uruguai” e “Poesia Acústica Lisboa”, além de outras produções derivadas do projeto. Um dos exemplos é “Sobre Nós”, faixa diretamente ligada à segunda edição do Poesia Acústica e interpretada por Maria, Kayuá e Tiago Mac.

O projeto também ganhou uma apresentação especial no programa “Som Brasil”, da TV Globo, dedicada inteiramente ao Poesia Acústica e com a participação de artistas que marcaram a trajetória do projeto. A presença em um programa de televisão dedicado exclusivamente ao acústico reforçou ainda mais a dimensão que o projeto havia alcançado fora das plataformas digitais.
O projeto já acumula mais de 8 bilhões de streams e visualizações, somados em diferentes plataformas, reflexo da luta diária que tantos artistas, produtores, DJs e outros profissionais carregam para colocar um ritmo que ainda é marginalizado por uma parcela da população entre os gêneros mais ouvidos do Brasil.
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Nomes de peso no projeto

Mais de 90 artistas já passaram oficialmente pelo projeto ao longo de suas edições, mas alguns deles se tornaram nomes bastante conhecidos e constantemente pedidos pelos fãs da cypher para retornarem ao projeto.
A voz marcante de Delacruz e a suavidade do canto de Maria encantaram o público na segunda edição. Choice, Orochi e Sant marcaram o projeto com suas líricas afiadas e versos de tirar o fôlego. Xamã, com suas rimas impecáveis e seu canto melódico, também construiu uma presença marcante dentro da história do acústico.

Lourena, com interpretações marcantes em suas participações, além da entrega de César MC, Chris MC e Filipe Ret, marcou o projeto de uma maneira irreversível e fez com que esses artistas continuassem sendo pedidos pelos fãs para uma futura nova edição do acústico.
Até mesmo duetos inesperados entre artistas de diferentes segmentos conquistam o público, que fica sedento por mais amostras dos vocais de ambos. Colaborações como as de Chris Mc e Xamã, Luccas Carlos e Lukinhas, Lourena e Xamã, Ludmilla e Delacruz (no Poesia Acústica #10), e Luísa Sonza com Xamã acabam se tornando o grande destaque das edições.
O sucesso dessas parcerias muitas vezes amplia o repertório dos artistas para fora do projeto. É o caso dos feats entre Ludmilla e Delacruz após o lançamento daquela edição, ou do “Ludsessions” que a cantora gravou com Xamã. Este último, por sua vez, já colaborou com vários outros nomes que também passaram pelo Poesia Acústica, expandindo ainda mais essas conexões musicais.

Nomes da cena atual, como Veigh, Vulgo F.K., AJuliaCosta, Nanda Tsunami, Carol Biazin, Priscilla, Ebony, Tasha & Tracie, Urias, IZA, Flora Matos, Baco Exu do Blues, Emicida, Mano Brown, Nabrisa e até a cantora Anitta são nomes frequentemente citados por fãs do projeto quando o assunto é quem poderia integrar uma futura edição.
Mas se engana quem pensava que o projeto iria se prender apenas a artistas que fazem parte do nicho do rap e de suas vertentes.
Em edições mais recentes, a Pineapple StormTV apostou no talento de artistas de outros nichos e conseguiu unir o rap ao pop, ao R&B e, para a surpresa de muitos, até mesmo ao sertanejo.

A participação de Ana Castela na 16ª edição representa um dos exemplos mais claros dessa expansão. A cantora levou o sertanejo para dentro da cypher e ajudou a ampliar ainda mais as fronteiras musicais do projeto.
Ludmilla e sua contribuição para mais participações femininas no projeto

A cypher do Poesia Acústica sempre manteve um formato predominantemente masculino na estrutura de seu elenco de vozes. Nas primeiras edições, era comum que as formações contassem com apenas uma mulher entre os integrantes das faixas.
Uma tentativa de mudança aconteceu na oitava edição do projeto. A faixa “Poesia Acústica #8 — Amor e Samba” teve a participação de duas cantoras, Cynthia Luz e Elana Dara, em uma edição que encantou o público do projeto.
O formato, entretanto, ainda não havia se consolidado.
Na décima edição do projeto, na canção “Poesia Acústica #10 — Recomeçar”, a participação da cantora Ludmilla foi anunciada e teve uma recepção dividida entre os fãs do projeto, principalmente por se tratar de um nome fortemente associado ao pop e ao funk.

Ludmilla, porém, não se abalou com as críticas e entregou uma das participações mais marcantes do projeto, seja em seu verso ou em seus vocais de apoio ao longo da canção, tornando-se uma das participações mais lembradas da história do Poesia Acústica.
Em seu verso, Ludmilla arriscou mandar um recado que já vinha sendo amplamente discutido nas redes sociais. Na última frase de sua participação, a cantora diz:
“Tá faltando mulher aqui, né?”
A frase se tornou um dos pontos mais emblemáticos do debate sobre a presença feminina no projeto e ampliou a visão do público sobre o assunto.
A partir dali, as futuras edições passaram a apresentar diferentes formações com maior presença feminina. A 11ª edição contou com três mulheres: Lourena, Azzy e Cynthia Luz. Na 12ª, Budah e Marina Sena integraram o elenco. A 13ª trouxe Luísa Sonza e Nina Do Porte enquanto a 14ª contou com Lourena e Gloria Groove.

Na 15ª edição, Azzy e Slipmami participaram da formação, e a 16ª reuniu Lourena e Ana Castela.
A mudança não aconteceu de maneira linear em todas as edições, mas a presença feminina passou a ocupar um espaço mais frequente e visível dentro do projeto.
Na edição mais recente, o formato voltou a apresentar apenas uma mulher entre os participantes: a rapper Duquesa.

Agora, o que resta é aguardar para descobrir se o projeto continuará seguindo esse formato ou se continuará abrindo espaço para que cada vez mais mulheres possam participar de suas edições.
A importância e a representatividade do projeto
O Poesia Acústica não se tornou apenas um fenômeno por seu sucesso comercial ou pela conexão com o público de diferentes faixas etárias.
A cypher se tornou uma vitrine de talentos, um espaço de conforto para diferentes momentos da vida, sejam eles felizes ou tristes, e um ambiente de encontros onde lutas de anos ganham a visibilidade necessária para causar um verdadeiro estrondo.
O projeto também se tornou um espaço capaz de aproximar públicos diferentes e reunir artistas que, em outros contextos, talvez nunca dividissem a mesma faixa.

Na formação do elenco de vozes de sua 14ª edição, o projeto contou com a participação da cantora Gloria Groove. A artista foi a primeira drag queen a participar do Poesia Acústica e entregou uma das participações mais elogiadas do projeto.
Sua presença também quebrou paradigmas ao mostrar aquilo que o rap e o hip-hop sempre demonstraram ao longo de seus anos de história: a inclusão e o debate de temas sociais fazem parte da espinha dorsal do movimento.
A presença de uma drag queen em um projeto de tamanha proporção também reforça a capacidade que o Poesia Acústica possui de ampliar suas fronteiras e incorporar diferentes identidades, sonoridades e públicos.

O projeto nasceu dentro da cultura do rap, mas nunca permaneceu completamente preso a ela. Ao longo de suas edições, incorporou elementos do funk, do pop, do R&B e, mais recentemente, do sertanejo.
É justamente nessa capacidade de reunir diferentes artistas em uma mesma faixa que está uma das maiores forças do projeto.
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10 anos de Poesia Acústica

O Poesia Acústica celebra sua trajetória com uma turnê comemorativa de 10 anos, anunciada pelo próprio projeto em parceria com o Festival Zepelim.
A primeira apresentação anunciada acontece no dia 21 de novembro, no Marina Park, em Fortaleza, no Ceará.
A celebração representa mais do que uma sequência de shows. São dez anos de um projeto que atravessou diferentes momentos da música brasileira, reuniu artistas de diferentes gerações e ajudou a transformar a cypher em um dos formatos mais reconhecidos da música urbana nacional.
E há muito o que se comemorar sobre essa trajetória.

O Poesia Acústica segue sendo um dos marcos culturais mais importantes e relevantes do cenário musical brasileiro. Cada lançamento de uma nova edição se transforma em assunto nas redes sociais e, frequentemente, em um sucesso absoluto.
As nuances abordadas pelo projeto, seja pela escolha dos artistas, pelos temas apresentados ou pela própria estrutura das músicas, reforçam lutas que precisam ser vistas e entendidas pelo público.

Talvez seja justamente essa capacidade de transformar uma faixa em encontro, debate, descoberta e representatividade que explique por que o Poesia Acústica continua sendo um dos maiores marcos de sua geração.
E, depois de uma década de histórias, vozes e encontros, o projeto agora se prepara para celebrar seus 10 anos não apenas olhando para aquilo que já construiu, mas também para tudo aquilo que ainda pode representar dentro da música brasileira.
Imagem Destacada: Reprodução/Instagram (@pineapplepnpl)


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