Cantor volta ao festival sete anos depois de subir ao Espaço Favela e chega a 2026 em uma fase marcada pelo R&B, pelas canções de amor e pela maturidade de “Vinho”
Delacruz vai reencontrar o Rock in Rio em 2026, mas essa história começou muito antes de o nome do cantor aparecer novamente no line-up da Cidade do Rock.
Em 2019, quando o Espaço Favela fazia sua estreia no festival, o artista subiu ao palco ao lado de Maria. Naquele momento, Delacruz já carregava o impacto de “Sobre Nós” e começava a transformar uma trajetória construída entre violão, rap e internet em uma carreira que alcançava públicos cada vez maiores.
Sete anos depois, ele retorna ao mesmo festival em outra posição.
No dia 12 de setembro, Delacruz encerra a programação do Supernova, palco que também recebe Celo Dut, Yago Oproprio e o argentino Milo J naquela data. O retorno acontece depois de uma fase de amadurecimento musical, turnê nacional, novos encontros artísticos e de um álbum que ajudou o cantor a ampliar definitivamente sua identidade para além do rótulo de “rapper acústico”.
Para entender como ele chegou até aqui, é preciso voltar para Vigário Geral.

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De Vigário Geral para os primeiros palcos
Daniel Azevedo da Cruz nasceu no Rio de Janeiro e cresceu em Vigário Geral, na Zona Norte da cidade.
A música já fazia parte da história da família. Seu avô, Elias Índio, foi compositor da escola de samba Unidos de Lucas, ligação que ajuda a explicar a proximidade de Delacruz com a canção brasileira antes mesmo de o rap se tornar seu principal caminho artístico.
Ele começou a compor aos 11 anos, quando criou um grupo de funk. Aos 14, montou sua primeira banda ao lado de DJ Gu$t. Aos 15, já trabalhava profissionalmente, cantando em bares e festas do Rio.
Antes de qualquer grande plataforma, havia o repertório construído aos poucos e a combinação que depois se tornaria uma de suas marcas: versos vindos do rap com uma abordagem melódica e sentimental pouco preocupada em esconder vulnerabilidades.
Em 2015, lançou “Flor de Lis” ao lado do rapper Bernard. O passo seguinte mudaria o tamanho de sua carreira.
“Poesia Acústica” transformou Delacruz em um nome nacional
Em 2017, Delacruz participou do segundo volume do projeto “Poesia Acústica”, da Pineapple Storm.
A faixa “Sobre Nós” reuniu Delacruz, Maria, Ducon, Luiz Lins, BK e Kayuá e se transformou em um daqueles fenômenos que ultrapassam a cena em que nasceram. Em 2026, o próprio Rock in Rio já contabilizou mais de 910 milhões de visualizações para o vídeo no YouTube.
O alcance não ficou restrito à internet. Em 2018, “Sobre Nós” entrou na trilha sonora da novela “O Sétimo Guardião”, da Globo.
Para Delacruz, o sucesso também criou uma imagem muito específica.
O violão, as melodias românticas e a estrutura acústica passaram a ser associados diretamente ao artista. Durante algum tempo, ele tentou escapar da ideia de que precisava estar sempre naquele formato. Anos depois, passou a enxergar essa relação de outra maneira.
O próprio cantor já contou que chegou a enfrentar resistência de contratantes quando queria apresentar shows com banda em vez de apenas voz e violão. Com mais experiência, percebeu que o instrumento que parecia limitar sua imagem também havia sido fundamental para construir sua carreira.
Talvez a grande mudança tenha vindo daí: Delacruz parou de tentar abandonar o passado e começou a descobrir como expandi-lo.
Rap, R&B e um romantismo que virou assinatura
A carreira seguiu crescendo com projetos como “Nonsense, Vol. 1”, lançado em 2019, e “Nonsense, Vol. 2”, de 2020.
Canções como “Sunshine”, “Onde Estará” e “Vício de Amor” ajudaram a consolidar uma escrita centrada em relações, desejo, intimidade e frustração amorosa. No mesmo período, o cantor também trabalhou com nomes como Luccas Carlos, MC Hariel, Kevin O Chris e Filipe Ret.
Esse interesse por canções românticas nunca surgiu como um detalhe dentro de sua discografia.
Delacruz cita compositores como Arlindo Cruz, Jorge Aragão e Rodriguinho entre suas referências e encontrou justamente nas relações afetivas um território onde sua voz se diferencia dentro da música urbana brasileira.
O rap continua presente, mas convive cada vez mais com R&B, neo soul, samba, pop e uma tradição de compositores brasileiros que falam de amor sem tratar sentimento como fragilidade. Foi essa combinação que chegou a um novo estágio em 2024.
“Vinho” marcou o amadurecimento de Delacruz
Lançado em outubro de 2024, “Vinho” representou uma mudança importante na maneira como Delacruz passou a pensar sua própria música. O disco cruza R&B, neo soul e rap em arranjos mais enxutos e sofisticados. Participam do projeto IZA, MC Cabelinho, Gaab e Lukinhas.
O nome não foi escolhido por acaso. Delacruz passou a tratar o álbum como resultado de um processo de maturação: menos excesso, mais clareza sobre aquilo que queria dizer e sobre a sonoridade que desejava construir.
Um dos grandes destaques dessa fase foi “Afrodite”, parceria com IZA. A faixa rendeu ao cantor sua primeira entrada no Billboard Brasil Hot 100, estreando na 85ª posição em setembro de 2024.
A repercussão de “Vinho” também chegou aos palcos. A turnê ganhou uma cenografia própria, com mobiliário, tapetes, iluminação, obras de artistas brasileiros e uma estética que misturava requinte e referências periféricas. O projeto percorreu diversas cidades e, em agosto de 2025, foi registrado em uma apresentação no Espaço Unimed, em São Paulo.
Mais do que cantar as músicas, Delacruz queria criar um universo para elas.
2026 começou com Péricles e novas ideias
Delacruz entrou em 2026 sem encerrar esse movimento de expansão.
Em janeiro, lançou “Pensando Direito”, primeira parceria com Péricles. O encontro aproximou ainda mais o R&B do cantor de uma tradição do samba e do pagode que sempre esteve presente entre suas referências.
A faixa mantém o terreno romântico no qual Delacruz se sente confortável, mas aborda o fim de uma relação a partir de maturidade emocional e valorização pessoal. Ao mesmo tempo, o artista já pensa no próximo passo.
Em entrevista concedida em julho de 2026, ele revelou vontade de revisitar as próprias raízes em um trabalho de perfil mais acústico. A ideia parece fechar um ciclo interessante: depois de anos tentando provar que conseguia existir para além do violão, Delacruz pode voltar a ele por escolha, e não por obrigação.
É uma diferença pequena na aparência e enorme artisticamente.

Delacruz volta ao Rock in Rio sete anos depois
A trajetória encontra agora um ponto simbólico.
No dia 6 de outubro de 2019, Delacruz e Maria fizeram parte da programação do Espaço Favela no Rock in Rio. O palco havia sido criado naquela edição com a proposta de amplificar artistas, projetos culturais e manifestações vindas das favelas e dos subúrbios cariocas.
Em 12 de setembro de 2026, Delacruz retorna à Cidade do Rock. Desta vez, será responsável por encerrar a programação do Supernova naquele sábado. Antes dele, passam pelo palco Celo Dut, Yago Oproprio e Milo J.
O próprio festival apresenta Delacruz como um dos destaques da nova geração carioca e utiliza o alcance de “Sobre Nós” como referência para dimensionar a carreira que ele construiu desde sua primeira passagem pelo evento.
O contexto também mudou. O jovem que chegou ao Rock in Rio em meio à explosão do “Poesia Acústica” retorna depois de discos autorais, turnês próprias, sucessos no R&B, colaborações com alguns dos maiores nomes da música brasileira e uma relação muito mais clara com sua identidade artística.
O dia 12 de setembro já está com os ingressos de gramado esgotados e terá Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin, Pedro Sampaio, Mumford & Sons, Timbalada e outros nomes espalhados pela Cidade do Rock.
No meio dessa programação gigantesca, Delacruz fecha um palco dedicado justamente ao encontro entre artistas que estão definindo novos caminhos para a música.
O garoto do violão não precisou deixar o violão para crescer
Existe uma ironia bonita na história de Delacruz. Durante uma fase da carreira, ele acreditou que precisava se afastar da imagem do artista de voz e violão para provar que poderia fazer mais.
Hoje, depois de explorar banda, R&B, eletrônica, neo soul, grandes cenários e diferentes formatos de show, ele pode olhar novamente para aquele instrumento sem enxergá-lo como uma prisão. O violão abriu a porta. Delacruz decidiu descobrir quantas outras salas existiam depois dela.
Sua volta ao Rock in Rio em 2026 ajuda a colocar essa transformação em perspectiva. Em 2019, ele chegou ao festival como parte de uma geração que começava a ocupar novos espaços. Sete anos depois, retorna para fechar uma noite do Supernova com uma carreira que já não cabe em uma única definição.
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De Vigário Geral à Cidade do Rock, o romantismo continuou no centro. O som ao redor dele ficou muito maior.
Imagem Destacada: Reprodução/Rock in Rio


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