De vaias históricas a conflitos nos bastidores e debates sobre a identidade do evento, confira os episódios mais caóticos vividos na Cidade do Rock ao longo de 40 anos
Ao longo de quatro décadas de história, o Rock in Rio consolidou-se não apenas como um gigante do showbiz internacional, mas como um caldeirão de intensas tensões culturais, comportamentais e políticas. Desde a sua primeira edição, em 1985, reunir multidões na Cidade do Rock significou também abrir espaço para “tretas” memoráveis que revelam desde o choque entre diferentes tribos musicais até os acessos de estrelismo nos bastidores que deram muito trabalho ao organizador do evento Roberto Medina.
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O Choque de Tribos e as Vaias Memoráveis
Uma das maiores fontes de atrito na história do festival sempre foi o descompasso na escalação de atrações, colocando artistas de gêneros mais suaves ou ecléticos no mesmo dia dominado por fãs de metal e som pesado.
- Erasmo Carlos (1985): Escalado para a primeira edição ao lado de gigantes do heavy metal como Iron Maiden e Whitesnake, o “Tremendão” tentou se conectar com o público vestindo uma jaqueta de couro cheia de tachinhas. Não adiantou: o ícone da Jovem Guarda enfrentou uma tempestade de vaias e cusparadas do público.
- Lobão (1991): Em uma das situações mais caóticas do evento, o cantor foi escalado para a “noite do metal”. Diante da extrema hostilidade da plateia desde os primeiros acordes, Lobão abandonou o palco na segunda música. A bateria da Estação Primeira de Mangueira, que faria uma participação especial na apresentação, acabou subindo ao palco sem o anfitrião.
- Carlinhos Brown (2001): Protagonista de um dos momentos mais violentos da Cidade do Rock, o músico baiano enfrentou uma intensa “chuva” de garrafas plásticas arremessadas por fãs que aguardavam o Guns N’ Roses. Mesmo sob ataque, Brown manteve a postura e discursou contra a intolerância com a célebre frase “só jogo amor”, gerando um debate nacional sobre o respeito à diversidade musical. Até hoje o artista é perguntado sobre o assunto, como no podcast da Jovem Pan, em que explica sua postura na ocasião.
- Queens of the Stone Age (2001): A banda norte-americana chocou a organização de duas formas: o baixista Nick Oliveri subiu ao palco completamente nu e acabou detido por ato obsceno logo após a apresentação. Para completar, o grupo foi vaiado pelo público por estender uma música por 15 minutos ao incluir percussionistas e capoeiristas na performance.
- Alceu Valença (1991): A apresentação (ou tentativa de apresentação) foi marcada por um grave caos técnico. Falhas de áudio logo no começo do show levaram o artista a jogar o microfone no chão em protesto ao descaso com os artistas nacionais naquela edição. O gesto provocou a invasão do palco por técnicos estrangeiros, desencadeando uma briga física generalizada com a equipe brasileira — com direito a equipamentos arremessados, intervenção do diretor Roberto Talma e confronto corporal envolvendo os seguranças da Rede Globo até o show ser encerrado sob extrema tensão. Alceu retornaria para concluir sua apresentação depois de Prince, headliner da noite, e ironizou dizendo que o astro internacional abrira seu show.
Estrelismo, Camarins Fechados e Exigências Exorbitantes

Nos bastidores, os grandes nomes da música internacional frequentemente testaram os limites de organizadores, equipes técnicas e fãs com comportamentos erráticos.
- Freddie Mercury (1985): Além de destruir completamente um camarim, anunciando que o Rio passara a ter furacão, o líder do Queen exigiu que todos os corredores dos bastidores fossem completamente esvaziados para a sua passagem. A imposição fez com que outros artistas e técnicos fossem trancados em seus camarins, resultando em um coro de ofensas gritado em uníssono por quem ficou preso do lado de dentro.
- Prince (1991): O baixinho de Minnesota fez história com sua exigência entre 400 e 700 toalhas brancas. Isso forçou a produção a invadir motéis próximos ao local para atender a demanda. Também era proibido que homens da produção lhe dirigissem a palavra. Sem contar com as bolsas térmicas trazidas por ele contendo o próprio plasma para emergências.
- Axl Rose (imagem destacada): Conhecido por seu temperamento imprevisível, o vocalista do Guns N’ Roses merece um capítulo à parte com um vasto histórico de confusões no RIR. Quase cancelou a apresentação de 1991 ao saber da transmissão ao vivo via rádio, forçando Medina a ameaçar a produção da banda com “150 mil fãs revoltados dispostos ‘a tudo'”. Nessa passagem houve ainda o arremesso de um telefone do quarto do hotel contra fãs, e a tentativa de entrar com 18 profissionais da “saliência” no local de hospedagem. Todas foram barradas. Posteriormente atrasaria horas para subir no Rock in Rio Lisboa de 2006 por conta de uma calça jeans esquecida no avião e também na edição carioca de 2011, com o show se iniciando na alta madrugada porque na véspera ele simplesmente não tinha sequer embarcado para o Brasil, enquanto a banda já se encontrava toda no Rio.
- Drake (2019): O rapper canadense garantiu o posto de uma das atrações mais antipáticas do festival. Além de proibir a transmissão de seu show pela TV em cima da hora e ignorar fãs no aeroporto, o músico trouxe a própria comida dos Estados Unidos e recusou qualquer prato preparado pela equipe gastronômica local.
- Akon (2024): Além do playback cara de pau, chamou Rio de São Paulo durante o show e ainda inventou de entrar em uma bola inflável gigante para andar sobre a multidão, que murchou ou esvaziou de forma cômica.
Politização e a Disputa Pela Essência do Festival

Com o passar dos anos, os holofotes do Rock in Rio também se voltaram para manifestações políticas e intensos debates sobre a evolução da sua grade de atrações.
A edição de 2019 destacou-se como a mais politizada da história do evento, marcada por protestos orgânicos do público e discursos de artistas contra o cenário político da época, além de homenagens a figuras como Marielle Franco. O clima de tensão gerou até ruídos curiosos: o vocalista do Black Eyed Peas acabou sendo vaiado ao pronunciar “Bossa Nova” de forma que a plateia confundiu com o nome do então presidente da República Bolsonaro.
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Paralelamente, a expansão curatorial da marca continua alimentando polêmicas. A inclusão gradual de gêneros como o funk, o rap e, mais recentemente, a abertura do festival para grandes nomes do sertanejo, como Chitãozinho & Xororó e Luan Santana, no chamado Dia do Brasil, na edição 2024 (foto acima), provocou forte reação de puristas nas redes sociais na última edição, em 2024, com um dia inteiro voltado à música brasileira. Enquanto a organização defende a diversidade e a celebração da cultura brasileira contemporânea, defensores do rock tradicional questionam a descaracterização de um evento que carrega o gênero em seu próprio nome.
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio 2022


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