11 de dezembro de 2019

Madonna, a incontestável Rainha do Pop, é uma das lendas dos anos 1980 que ainda pode desfrutar de uma carreira sólida… e que ainda está viva e ativa entre nós. Em seus diversos álbuns renderam pontos altos e baixos – e alguns porque a artista estava simplesmente agindo à frente de seu tempo. E estar “além de seu tempo” é o caso de “Ray of Light”, o álbum que completa duas décadas de lançamento, agora em 2018. Mas o anacronismo do disco que seria um divisor na carreira de Madonna, neste caso, seria uma das apostas musicais dela que deram certo: a cantora e a música pop sairiam ganhando. E muito.

Mas como veio uma mudança tão brusca? É inevitável não refletir sobre os álbuns que antecederam “Ray of Light”: no começo da década de 1990, a cantora já era uma artista consagrada, que (resumindo muito uma história longa, e digna de outros posts) sofreria um forte boicote pelo lançamento de seu álbum “Erotica” e pelo livro “SEX”.

“Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que eu lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio.” Diria Madonna anos depois, em seu lendário discurso ao aceitar o prêmio de Mulher do Ano pela Billboard, em 2016.

O álbum “Erotica”, que fala muito mais sobre vida e amor, do que apenas sobre sexo, seria a base da turnê ‘The Girlie Show’, a primeira a trazer Madonna para o Brasil e que provaria que, mesmo com um álbum não tão aceito por uma sociedade machista e conservadora, ainda arrastaria multidões pelo mundo todo para conferirem seu trinta e nove shows.

Após toda polêmica desta era da carreira da Rainha do Pop, ela traria trabalhos mais suaves: o LP “Bedtime Stories”, de 1994, com uma pegada majoritariamente R’n’B e alguns momentos experimentais, e em seguida, o trabalho de Madonna com o musical ‘Evita’, lançado em 1996.

Esperando sua primeira filha, Lourdes, Madonna passaria a refletir sobre o que ela teria para ensiná-la. O envolvimento do astro com a Cabala seria outro ponto crucial de influência em seu futuro trabalho, que teria um tom mais espiritual e fortemente marcado pela autoanálise, pela busca do autoconhecimento, do crescimento pessoal.

‘Ray of Light’ teve diferentes datas de lançamento: no Japão, em 22 de fevereiro e mundialmente, no dia 3 de março.

Renascimento

Ousado, futurista, experimental, profundo, sensível, amplo, reflexivo. Vinte anos depois, é difícil ainda achar adjetivos para o que seria “Ray of Light”. Toda jornada pelo crescimento pessoal mencionada acima não deve ser confundida com um livro de autoajuda. A mensagem é algo muito mais amplo.

“Troquei fama por amor / Sem pensar um segundo / Tudo tornou-se um jogo bobo / Algumas coisas não podem ser compradas.” Estes são os primeiros versos da faixa de abertura do álbum, ‘Drowned World / Substitute For Love’, onde Madonna já mostra ao que veio com este novo trabalho.

No entanto, a primeira impressão desta nova Madonna viria, é claro, com a balada orquestral “Frozen”, o primeiro single do álbum, com um impactante clipe – certamente um dos mais belos e inesquecíveis da icônica videografia da artista. No clipe, vemos a estrela em meio ao deserto, com longos cabelos negros, num visual gótico e completamente inesperado. Os efeitos especiais renderiam ao clipe um prêmio para os então relevantes VMA’s.

O single seguinte, a faixa título, traria uma Madonna com um visual mais familiar, com seus cabelos dourados, em outro videoclipe tão marcante quanto a faixa. “Ray of Light” foi criada com base na canção “Sepheryn”, de Curtiss Maldoon, uma dupla de música folk. A faixa, desde então, tem sido aparentemente uma das favoritas da cantora para suas apresentações ao vivo, aparecendo na setlist de várias turnês.

Uma profunda reflexão de si e do mundo aparece refletida em diversas faixas, entre músicas mais calmas, como “To Have and Not To Hold”, que pega emprestado um tom de bossa nova até as dançantes “Sky Fits Heaven” e ‘Nothing Really Matters’ – que rendeu outro clipe inesquecível, baseado no livro “Memórias de uma Gueixa”.

Toda essa mudança musical, estética e espiritual, é claro, inspirada pela então nova experiência da maternidade é refletida mais literalmente em “Little Star”, uma balada eletrônica feita para Lourdes e na lúgubre e minimalista “Mer Girl”, sobre a morte da mãe de Madonna, quando ela tinha apenas cinco anos de idade.

Impacto

No total, o sétimo álbum de estúdio da Rainha do Pop teve treze faixas, cinco singles, venceu quatro Grammys e vendeu mais de 16 milhões de cópias pelo mundo. O álbum é um registro de uma voz potente, que Madonna pôde desenvolver durante seu trabalho com o musical ‘Evita’, evidenciado principalmente na faixa-título, e também foi um marco e tanto na carreira do produtor William Orbit.

“Entramos no estúdio e quebramos todas as regras”, diria ele em entrevista para o Official Charts. “Tenho muito orgulho do meu trabalho naquele disco (…) Ainda é muito mencionado, o que me impressiona, mesmo considerando o fato de que é Madonna. Quero dizer, você não vai e lança um álbum assim todo ano.”

Além de mudar a música pop, a pegada eletrônica de “Ray of Light” também seria sentida em todos álbuns seguintes, como ‘Music‘ (2000) e “Confessions on a Dance Floor” (2005). Acima de tudo, no entanto, seria a mudança percebida em como Madonna se manifestava artisticamente. Sem deixar de ser contestadora, percebia-se que tudo que ela fez a seguir parecia ter um propósito maior ainda. Há quem prefira a Madonna dos anos oitenta e noventa sim, mas é impossível negar que ela não é a mesma desde então. Mas seria isso realmente ruim?

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Cesar Rezende

Carioca por acidente e adepto do pop e rock dos anos 90 e 2000. Sobrevive de uma dieta não moderada de Stephen King e gostos que ele jura serem divergentes. Ama escrever e fotografar, é defensor e problematizador do videogame como forma de arte, e, acima de tudo, metido a engraçado.

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