Foi longo o caminho do romance de mesmo nome de Caleb Carr para a TV. Publicado em 1994, seus direitos rapidamente foram comprados para o cinema. Contudo, a adaptação de cerca de 500 páginas do romance um tanto quanto sanguinolento não se mostrou uma tarefa fácil. Só agora, mais de 20 anos depois, os personagens de Carr ganham vida na primeira produção original da TNT.

O episódio começa com uma vinheta explicando o que seria um alienista: no século XIX, eram os profissionais que tratavam pessoas “alienadas” (portadoras de transtornos mentais)  – ou seja, o psiquiatra atual. Logo na primeira cena, um policial encontra uma mão decepada na neve e o que presumimos ser o restante do corpo, não é mostrado. Ele aciona outros colegas, e não demora para que a informação vaze para o dr. Lazlo Kreizler – o alienista do título.

Kreizler (Daniel Brühl) é tirado da cama por uma criança em estado de choque, testemunha de “algo de ruim na ponte nova”. O médico o questiona sobre o que viu, e o garoto afirma que o corpo encontrado anteriormente é de um menino, como ele, mas vestido como mulher. A informação deixa Kreizler visivelmente perturbado, e o médico pede que chamem John Moore, ilustrador do The New York Times.

Moore (Luke Evans) está no meio de uma sessão num bordel quando é chamado e levado até a cena do crime  – no caso, a Ponte Williansburg, ainda em construção. Barrado pelos policiais, Moore mente que foi chamado pelo próprio comissário de polícia, Theodore Roosevelt (isso mesmo, aquele Roosevelt). Roosevelt (Brian Geraghty) em pessoa o enxota dalí, mas a insistência de Moore o faz ceder.

O ilustrador é levado até o corpo mutilado de um menino, usando roupas femininas. Para horror de Moore, os olhos foram arrancados. Um dos policiais afirma que o menino, Giorgio Santorelli, se prostituía num bordel conhecido. Roosevelt insiste que os proprietários do lugar sejam chamados à delegacia no dia seguinte. Com dificuldade, Moore começa o desenho pedido por Kreizler.

Da cena do crime vamos para o dia seguinte, na clínica do dr. Kreizler, onde o médico trata de pacientes infantis – como o próprio diz, é a mente das crianças que o interessa de fato. Comparado ao padrão dos hospitais psiquiátricos da época, a clínica de Lazlo parece consideravelmente acolhedora.

Quando Moore chega com os desenhos pedidos, Kreizler os rejeita – “muito idealizados” – e pede que o outro conte o que viu de fato. Moore descreve a cena já mostrada ao público: a garganta cortada até o osso, o abdômen aberto, as vísceras espalhadas, os olhos e a genitália removidos. Além do vestido, o “mesmo que qualquer garotinha usaria”.

Assim como na noite anterior, os detalhes perturbam Kreizler. Moore pergunta do que se trata aquilo, e se o médico iria interrogar o suspeito. A informação leva os dois a um hospital psiquiátrico para interrogar Henry Wolff, um gigolô procurado pela polícia por matar um colega de profissão a facadas.

Wolff está em surto e apresenta o rosto marcado por um estágio avançado de sífilis. Surpreendentemente, Kreizler entra na cela do suspeito e conversa com ele. Fica claro para o que o crime de Wolff foi motivado por ciúmes – “ele deve ter te machucado profundamente” diz Lazlo.

Do hospital Moore e Kreizler vão para a delegacia. A chegada do alienista é recebida com hostilidade. A dupla esbarra com a secretária do comissário, Sara Howard (Dakota Fanning). Na verdade, Moore e Sara já se conhecem, por causa de suas famílias. O ilustrador apresenta Sara a Kreizler, explicando que a moça é a primeira mulher a ser contratada pela polícia de Nova York. Ela surpreende Lazlo ao dizer que conhece e admira seu trabalho. Apesar da familiaridade com John, Sara mantém uma postura profissional. Os dois então ignoram os protestos da moça e invadem o escritório de Roosevelt.

O comissário não gosta muito da visita surpresa, principalmente depois que Kreizler revela ter conversado com o suspeito sem autorização da polícia, e insiste que ele é inocente. Para o médico, o assassino é o mesmo responsável por um crime sem solução, cometido anos antes: o assassinato dos gêmeos Benjamin e Sophia Zweig, encontrados dentro de uma caixa d’água em situação semelhante ao de Giorgio. Kreizler, que fora médico de Benjamin, pede acesso aos arquivos do caso, na tentativa de encontrar uma ligação com o assassinato atual.

Roosevelt não acredita que haja uma conexão, e deixa muito claro sua rejeição pelos métodos de trabalho de Lazlo. A dupla é posta para fora. Porém, tanto o comissário quanto Sara parecem ter se interessado pela hipótese do médico.

A pedido de Lazlo, Moore pede a Sara que lhes entregue o arquivo do caso Zweig. Sara, obviamente, não quer trair a confiança do comissário. Para convencê-la, John lhe entrega o desenho que fez do corpo de Giorgio.

Enquanto isso, Roosevelt recebe a visita de Biff Ellison (Falk Hentschel) e Paul Kelly (Antonio Magro), donos do bordel onde o menino assassinado trabalhava. Sem ceder as pressões dos dois, o comissário exige o fechamento do local. Com ajuda dos policiais corruptos, porém, o estabelecimento só muda de local.

A independência e segurança que Sara passou nas cenas anteriores se confirmam quando a vemos na rotina de trabalho – sofrendo todo tipo de assédio pelos colegas – e dentro de casa – solteira, vivendo apenas com uma empregada e possivelmente, de renda própria. Como era de se esperar por sua reação a Kreizler e a conversa com Roosevelt, Sara aceita ajudar e leva o arquivo dos Zweig para John, durante mais uma de suas visitas ao bordel. Ela retorna o favor, mas com a condição de ser informada sobre os avanços da investigação.

Moore leva o arquivo para Kreizler, mas assim como os desenhos, eles não trazem informação relevante. O médico então consegue acesso às ossadas das crianças, para realizar uma autópsia detalhada.

A decisão rende uma visita da sra. Zweig, mãe dos gêmeos, para Kreizler. É revelado então que Benjamin queria se vestir com as mesmas roupas que a irmã gêmea. Kreizler afirma que a situação de Giorgio e Benjamin eram diferentes. O primeiro se vestia como mulher por prostituição. O segundo estava apenas “seguindo a sua natureza”, e fora vítima de uma “mente muito perturbada”. A sra. Zweig, porém, não parece muito convencida, e considera Lazlo culpado pela morte dos filhos.

Apesar do ocorrido, a investigação continua. O próprio Roosevelt envia para Kreizler dois médicos legistas de sua confiança: os irmãos Marcus (Douglas Smith) e Lucius Isaacsson (Matthew Shear). Assim como Sara, eles são hostilizados dentro do trabalho – especificamente, por serem judeus.

Enquanto os legistas realizam a autópsia das ossadas das crianças Zweig, Kreizler e Moore saem da clínica apenas para descobrirem que estão sendo seguidos pelo assassino – que inclusive deixou um embrulho na carruagem do médico. Eles o perseguem até um prédio abandonado, indo parar em um quarto sem janelas, com apenas um buraco no telhado como saída. É revelado o conteúdo do embrulho: uma língua cortada fora – provavelmente, a língua de Giorgio Santorelli.

A cena final do capítulo se divide entre Kreizler em casa, a noite, acompanhado de Maria (Q’orianka Kilcher), sua empregada, enquanto mais um menino prostituído é encurralado nas ruas. Lazlo afirma que apenas se tornando o assassino, “se eu cortar a garganta da criança eu mesmo (…) só assim poderei entender o que realmente sou”. No beco, o garoto dá de cara com o serial killer não revelado.

Pelo primeiro episódio, “The Alienist” não surpreende, seja como série como policial, ou de época. Ainda assim, conta com uma série de elementos – a representação de Nova York, os princípios da psicanálise – que a tornam interessante que se bem explorados, podem diferenciá-la do que é visto por aí.

O que mais se destaca, de forma positiva, é a representação humana dos ditos “alienados”, que passam desde os pacientes de Kreizler, as crianças e mulheres vítimas de prostituição, os irmãos Isaacsson, Sara e o próprio Kreizler – desacreditado por estar visivelmente a frente de seu tempo. Dos personagens principais, Moore é o mais próximo do grupo dominante formado por policiais corruptos e donos de bordéis. Porém, assim como o próprio Roosevelt, ele se difere por sua sensibilidade e uma bússola moral.

Fanning e Brühl são o grande destaque do piloto. Embora tenha se mostrada até hoje como uma atriz mediana, a antiga estrela-mirim tem uma personagem de grande potencial nas mãos. Brühl, que já ganhou destaque em Hollywood com o filme “Rush”, dá sutileza e profundidade a Kreizler, o que o tira do esteriótipo já balizado do “médico/ detetive difícil”.